A “ração dos pobres” de Doria, a fome e o capitalismo

São Paulo - Sessão solene de posse dos vereadores e do prefeito João Doria, na Câmara Municipal (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Recentemente, o prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB), causou polêmica ao anunciar que distribuiria uma espécie de ração para a população pobre da cidade. Depois, chegou a dizer que a tal ração, elaborada a partir de produtos próximos à data de validade, iria para a merenda das escolas públicas municipais.

O “granulado alimentício”, ou “farinata”, eufemismos para a ração humana, foi idealizada por uma organização chamada “Plataforma Sinergia”, que nem possui estrutura para produzir esse produto em escala. A relação dessa empresa com a prefeitura permanece nebulosa, assim como o próprio funcionamento dessa organização supostamente sem fins lucrativos.

O negócio funcionaria assim: as empresas e supermercados com produtos próximos de vencer, e que teriam que descartar esses produtos, os doariam à prefeitura que, através de outras empresas, transformaria isso na tal da “farinata”. Com isso, essas empresas economizariam no que teriam que gastar com o descarte (em transporte, por exemplo). E, especula-se, ainda contariam com isenções fiscais.

A proposta, evidentemente, causou indignação. É mais uma política do prefeito playboy que trata os pobres como animais, a exemplo do que vem fazendo com a população em situação de rua. Para que não restassem dúvidas sobre isso, disse em alto e bom som: “O pobre tem fome, não tem hábito alimentar“. Ora, se pobre tem fome, e para o prefeito almofadinha nem chega a ser gente, nada mais razoável que alimentá-los com ração como numa granja, não é? E ainda tentar fazer marketing dessa medida que humilha as pessoas que sofrem com a fome em São Paulo.

São Paulo – Manifestação de moradores da Comunidade do Moinho contra a ação da Polícia Militar que feriu um adolescente, Campos Elísios, região central.

A fome existe
Existem muitos aspectos para se discutir nessa malfadada iniciativa de Doria. Um deles é a dignidade das pessoas em situação de miséria e fome. Alimentar-se é muito mais que o simples ato de ingerir os nutrientes necessários para se manter vivo. Isso se aplica a gado, não a seres humanos. A alimentação está indissociavelmente relacionada com a cultura e a socialização das pessoas. Como afirmou o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), “a dignidade e respeito aos valores humanos e culturais são condições inegociáveis em qualquer ação” de combate à fome.

O arcebispo de Sâo Paulo, cardeal dom Odilo Scherer, irritou-se com a denominação de “ração” para a tal da farinata. “O que entristece no país é a fome, e não a atitude de combater a fome“, disse à imprensa. Reverbera um outro tipo de argumento que seria mais ou menos o seguinte: o importante é acabar com a fome, sendo secundário se isso se faz com ração ou qualquer outra coisa.

Primeiro, há que se reconhecer que, em pleno Século XXI, a fome é uma dura realidade diária para milhões de brasileiros.

O problema da fome no Brasil é algo concreto e absurdo, ao pensarmos que se trata de uma das maiores economias do mundo, com a maior área agricultável do planeta. Apesar disso, mais de 7 milhões de brasileiros convivem com a fome, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2013, 52 milhões de pessoas passaram por algum tipo de insegurança alimentar no país. Esse termo “insegurança alimentar” se refere à preocupação com a iminente falta de alimento por falta de recursos, ou a fome mesmo. Um em cada quatro lares brasileiros convive com insegurança alimentar.

No Nordeste, 38% dos lares conviviam com insegurança alimentar, seguido pelo Norte, com 36%. Mais que isso, assim como o desemprego, a pobreza e a miséria, a fome tem cor. Quase 30% da população que se declara negra ou parda estavam em situação de insegurança alimentar. Mais que o dobro dos lares formados por brancos.

A política de ajuste fiscal e os ataques que o governo Dilma vinha aplicando, e que Temer recrudesceu, vai aumentar ainda mais o número de miseráveis e famintos, como alertou relatório de julho da FAO (organismo da ONU para a Agricultura e Alimentação). Isso vem a reboque do aumento do desemprego e da pobreza, e dos sucessivos cortes no Orçamento, inclusive os ligados a programa sociais. Fora dos relatórios e estatísticas das instituições oficiais, é fácil ver essa realidade simplesmente andando pelas ruas dos grandes centros urbanos.

Esse é um fenômeno mundial. Mais de 815 milhões de pessoas passam fome no mundo. E, pela primeira vez desde 2003, esse número tende a aumentar. Um reflexo dos planos de austeridade e ataques aplicados pelos governos mundo afora.

Tem comida de sobra
O que a ração do Doria esconde é o fato de que o país já produz alimento suficiente para todos. Estudo realizado pelo professor do Departamento de Economia da UFSCar, Danilo Rolim Dias, atesta que o Brasil produz muito mais que o suficiente para alimentar, e bem, os mais de 200 milhões de habitantes, e ainda sobra. Muito.

Dias pegou toda a produção agrícola e pecuária do país entre 1995 e 2003, transformou isso em calorias e proteínas e dividiu pela média das necessidades diárias de um adulto, por volta de 2 mil calorias por dia. Tirando o que o país exporta e o que vira produto industrial, daria para alimentar todo mundo, e ainda sobraria 20% dessas calorias, e 60% das proteínas.

Agora, se pegarmos só o que é exportado pelo país todos os anos, daria para alimentar duas vezes toda a população brasileira. E se pensarmos que grande parte do que é exportado vira ração de animais, podemos ter uma mínima ideia do absurdo dessa triste realidade.

O verdadeiro problema
A fome existe pela mesma razão pela qual a pobreza e a miséria subsistem num país que produz tudo o que seria necessário para que todas as pessoas tivessem uma vida digna. Pela mesma razão pela qual apenas seis pessoas concentram a mesma riqueza que metade da população mais pobre. Porque essa é justamente a lógica do capitalismo: a concentração cada vez maior das riquezas nas mãos de poucos e a expansão da miséria.

Enquanto poucos vivem com as riquezas produzidas pelo trabalho alheio, outros tantos mal sobrevivem com o valor de seu salário, e outros ainda são jogados para a marginalidade e miséria absoluta, descartados pelo sistema capitalista sem sequer o direito de ser explorado e ter o mínimo para se sustentar.

É para esses que Doria quer dar a ração feita com restos de comida.

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