Desigualdade social: Os de cima sobem, os de baixo descem

No Brasil, as seis pessoas mais ricas têm o mesmo que as 100 milhões mais pobres. Ataques vão ampliar isso.

É só andar pelas ruas das principais cidades para perceber. Com a crise, a miséria e a barbárie batem em nossa cara. São verdadeiros exércitos de famílias sem-teto dormindo nas praças e calçadas. Filas de desempregados dobrando quarteirões. Ao mesmo tempo, abrimos o jornal e nos deparamos com o crescente aumento dos lucros dos bancos ou o recorde na Bolsa de Valores. Para alguns, a crise só está no noticiário.

Um dado divulgado recentemente pela ONG Oxfam Brasil dá uma mostra reveladora sobre o país que vivemos. As seis pessoas mais ricas do Brasil têm a mesma riqueza que as 100 milhões mais pobres. Ou seja, nesse país, só seis pessoas têm um patrimônio igual ao que tem a metade da população brasileira.

Segundo o relatório, um trabalhador que ganhe um salário mínimo vai levar 19 anos para ganhar o que ganha, num único mês, uma pessoa que está entre os 5% mais ricos. Essa desigualdade só aumenta com a crise. Se você tem a oportunidade de passar em frente a um restaurante caro, vai perceber que ele não está vazio. Em meio à mais grave crise econômica que esse país viveu em sua história, o mercado de luxo cresceu 10% no ano passado e espera-se que cresça ainda mais nos próximos anos. São as empresas de relógios caros, roupas de grife, hotéis cinco estrelas etc.

Crescimento para quem?
Os dados sobre desigualdade social mostram que os anos de crescimento durante os governos do PT não só eram de papel, como não reduziram o abismo social entre ricos e pobres como tanto diziam. Entre 2001 e 2015, os 10% mais ricos ficaram com 61% do crescimento econômico, enquanto os 50% mais pobres ficaram com só 18%.

Chegamos a um país que, embora esteja entre as dez maiores economias do mundo, possui 16 milhões de pessoas vivendo na miséria. O Banco Mundial prevê que, até o final de 2017, mais 3,6 milhões de pessoas se tornem miseráveis. São oficialmente 13 milhões de desempregados, embora o número real ultrapasse os 23 milhões.

A guerra social aberta contra os trabalhadores e o povo pobre, com a reforma trabalhista, a lei das terceirizações, a ameaça de uma nova reforma da Previdência e o brutal ajuste fiscal vai aumentar ainda mais esse fosso que separa o Brasil do 1% mais rico dos 99% de trabalhadores e pobres.

Negros e mulheres são os mais prejudicados
Nesse fosso social que separa ricos e pobres, os negros e mulheres continuam sendo os mais prejudicados. O relatório da Oxfam mostra que as mulheres ganham apenas 62% do que os homens. Os trabalhadores negros, por sua vez, ganham só 57% da média que recebem os brancos. As reformas trabalhista, previdenciária e as terceirizações vão aprofundar ainda mais isso, já que os piores e mais precarizados postos de trabalho são ocupados, sobretudo, por mulheres negras. O genocídio da juventude pobre e negra das periferias e o encarceramento em massa da juventude negra, por sua vez, são expressões dessa barbárie social.

Um problema do capitalismo
A brutal desigualdade social não é um problema só do Brasil. É um reflexo do capitalismo em todo o mundo. O relatório da Oxfam mostra que só oito bilionários detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre de todo o planeta, ou seja, que 3,5 bilhões de seres humanos. Ao mesmo tempo, mais de 700 milhões de pessoas vivem em situação de extrema pobreza. São três Brasis e meio de miseráveis num mundo que produz o suficiente para que todos pudessem viver com dignidade.

Bilhões para os ricos e aumento do gás e da luz para os pobres
O governo e o Congresso Nacional abriram guerra aos pobres. São ataques a empregos, salários e direitos dos pobres, enquanto para os ricos, banqueiros e empresários são isenções bilionárias e todo o tipo de privilégios.

A Câmara dos Deputados votou no dia 27 de setembro a Medida Provisória do governo Temer que institui o chamado Refis, uma renegociação das dívidas de grandes empresas que é um verdadeiro presente de pai para filho. Estabelece parcelamento e desconto que pode chegar a 70% das multas e 90% de juros.

Olhem só o absurdo da situação: num momento em que o governo e o Congresso Nacional dizem que há uma grande crise fiscal, aprovaram uma medida que reduz em R$ 5 bilhões aquilo que o governo esperava arrecadar. Isso é maior que o arrecadado com os leilões das hidrelétricas e dos campos de gás e petróleo que o governo fazia no mesmo dia, de R$ 4,4 bilhões.

Quando o governo editou a MP, a previsão era de uma perda de R$ 63,8 bilhões. Com a denúncia de Temer na Câmara, o governo abriu o balcão de negócios para comprar votos e salvar o mandato de Temer. Com isso, ouve uma barganha, e agora já são mais de R$ 543 bilhões que os grandes empresários vão deixar de pagar. Mais de quatro vezes o orçamento da Saúde para 2017.

Como se isso não bastasse, o deputado Newton Cardoso (PMDB-MG) incluiu uma emenda que permite que sejam adicionadas no Refis dívidas de empresários pegos em corrupção. Isso mesmo, um corrupto como Joesley Batista vai poder ter desconto e parcelar sua dívida. Há casos em que o governo vai ter que devolver dinheiro de quem já começou a pagar a multa.

Gás e luz ficam mais caros
Enquanto isso, a Petrobras anunciou, no último mês, um novo aumento de 12% no gás de cozinha. Já havia aumentado 6,9% em agosto. Isso porque a política que a empresa adotou para definir os preços do gás de cozinha é o seu preço no mercado europeu mais 5%, avaliado mensalmente. Ou seja, se o preço na Europa subir, você vai pagar mais para cozinhar.

Ao mesmo tempo, o governo anunciou o aumento nas contas de luz para outubro. A taxa será a maior já cobrada. Isso que nos últimos 12 meses já subiu 5%. E o governo ainda tem coragem de dizer que não tem inflação.

Para os empresários e corruptos é isenção e todo tipo de facilidade. Mas se você atrasar a sua conta de luz, não tem choro. Eles vêm, cortam e pronto.

Não dá para resolver o problema da desigualdade sem parar de pagar a dívida
O principal mecanismo pelo qual a desigualdade se perpetua no país é pela exploração e pela rapina dos grandes banqueiros internacionais por meio da dívida pública. Uma dívida que já foi paga muitas vezes, com juros extorsivos, em que metade do orçamento do país escoa todos os anos para o bolso dos agiotas. Só com o que é pago da dívida (R$1,1 trilhão no ano passado) daria para resolver os problemas históricos do país com saúde, educação, moradia e geração de empregos.

Um programa dos trabalhadores para a crise
Os governos do PT não reduziram as desigualdades sociais. Na verdade, elas se ampliaram, na medida em que os banqueiros, empresários e ruralistas tiveram lucros recordes. Agora, com a crise, o governo Temer tira dos que têm menos para manter e aumentar os lucros dos banqueiros e empresários.

O capitalismo já é, em si, desigual. Quem produz as riquezas, os trabalhadores, ficam apenas com pequena parte dela na forma de salários. O grosso vai para os lucros dos empresários e banqueiros. Essa é a desigualdade fundamental, que aumenta mais ainda em tempos de crise.

Vivemos uma verdadeira guerra social que o governo e a burguesia deflagraram contra os trabalhadores e a população. Isso aumenta a barbárie, da qual o desemprego, a miséria e a explosão da violência urbana são reflexos.

Só há uma saída para essa crise do nosso lado: um programa operário e socialista que ataque os lucros e tire dos ricos para dar aos trabalhadores e ao povo pobre.

Redução da jornada de trabalho sem redução dos salários

Anulação das reformas trabalhista e da lei das terceirizações e fim da reforma da Previdência

Isenção das taxas de luz, água e transporte para os desempregados

Aumento geral dos salários

Dinheiro para isso tem, basta:

Parar de pagar a dívida aos banqueiros e investir esse dinheiro em saúde e educação

Fim das isenções de imposto às grandes empresas: estatização das empresas devedoras sob controle dos trabalhadores

Proibição da remessa de lucros para o exterior

Reestatização das empresas privatizadas sob controle dos trabalhadores

Estatização dos bancos sob controle dos trabalhadores