Porque não vamos à Jornada Mundial da Juventude

Charge sobre a visita do Papa ao Brasil

Respeitamos os milhares de jovens que estarão na JMJ, muitos inclusive participaram das recentes manifestações de massas no Brasil. No entanto, não poderíamos nos furtar de apresentar o verdadeiro significado e os objetivos desse evento.

A 26° Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e a vinda do Papa Francisco ao Brasil, entre os dias 23 e 28 de julho no Rio de Janeiro, ocorre um mês depois que a juventude brasileira protagonizou um dos maiores levantes contra os governos Federal, Estadual e Municipal. Respeitando o direito à liberdade religiosa das pessoas, é preciso dizer que a JMJ não contribui para realização dos anseios e das pautas reivindicatórias colocadas nas ruas pela juventude brasileira.

Diante da situação internacional e nacional, nas quais que a juventude é sacrificada com o aumento da exploração do trabalho e das formas de opressão, os jovens devem assumir um grande desafio como garantia de seu presente e seu futuro: o desafio de não sair das ruas, enquanto suas vitórias não forem garantidas.

A situação internacional e nacional da juventude
A conjuntura internacional de acirramento da crise do sistema capitalista atinge em cheio a população mais jovem. Os dados apresentados sobre a taxa de desemprego em maio/2013, pela Eurostat, mostram a situação de desamparo da juventude europeia. No Estado Espanhol, onde os trabalhadores sofrem com os planos de austeridade da troika (FMI, União Europeia e Banco Central Europeu), a taxa de desemprego chega a 56,5% entre a população jovem e 26,9% no geral. Este percentual, que tende a crescer, também é desolador para juventude trabalhadora na Grécia (59,2%), Portugal (42,1%), Itália (38,5%) e Croácia (52,1%), membro recente da UE.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em seu relatório “Tendência Mundiais do Emprego Juvenil 2013 – Uma Geração em Perigo”, lança um alerta sobre a crescente taxa mundial de desemprego juvenil que gira em torno de 12,6%. Isto representa cerca de 73,4 milhões de jovens sem emprego. Entre os jovens, aumentou também o número de emprego temporário ou em tempo parcial, informal, de baixa qualidade e mal remunerado. “Em algumas economias em desenvolvimento, até dois terços da população jovem está subaproveitada, isto é, os jovens estão desempregados, trabalham em empregos ocasionais, provavelmente no setor informal, ou não formam parte nem da força de trabalho nem estão recebendo educação ou formação.” Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o número de jovens que não trabalham nem estudam, os chamados “nem-nem”, já chega a 15,8% da população entre 15 e 29 anos. É uma verdadeira tragédia social causada pelo aprofundamento da crise financeira mundial.

No Brasil, a taxa de desemprego dos jovens de 18 a 24 anos, medida pelo IBGE para as seis maiores regiões metropolitanas do país, foi de 12,4% em 2012, mais que o dobro dos 5,5% da taxa geral daquele ano. Embora os índices de desemprego tenham apresentado uma queda na última década, ao relacionar com outros índices sociais, a juventude pobre e trabalhadora não tem muito o que comemorar.

Na educação, temos a juventude mais escolarizada dos últimos tempos, porém temos altíssimas taxas de evasão escolar, analfabetismo funcional e distorção entre a idade e a série cursada.  Em 2009, 1.479.000 de jovens entre 15 e 17 anos não estudavam. Eles representavam 14,8% dessa população. Em 2010, este número subiu para 1.722.000 ou 16,3% (Pnad 2011).

Na saúde, “O mapa da violência 2011: os jovens do Brasil” elaborado pelo sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, a partir do Sistema de Informações de Mortalidade, do Ministério da Saúde (SIM/MS), constata que entre 2002 e 2010 houve um aumento considerável da taxa de homicídios entre os jovens, tornando uma das principais causas da mortalidade juvenil. Homicídio (39,7%), acidente de transporte (19,3%) e suicídio (3,9%) são responsáveis por quase 2/3 (62,8%) das mortes dos jovens brasileiros. E, ainda mais preocupante e intolerável, é o aumento vertiginoso da vitimização da juventude negra no país. Este é um legado maldito dos 10 anos do PT no governo.

Sobre este genocídio da juventude negra, vale colocar dois parágrafos do “Mapa da violência 2012: a cor dos homicídios na Brasil” de Júlio Jacobo Waiselfisz: “Se a taxa de homicídio de jovens brancos cai de 40,6 para 28,3 em cada 100 mil, o que representa uma queda de 30,1%, a taxa dos jovens negros não acompanhou esse movimento, pelo contrário, ainda cresceu, passando de 69,6 para 72 homicídios em cada 100 mil jovens negros.” (…) “Esse movimento contraditório: queda dos índices de homicídios brancos e aumento dos negros vai determinar um crescimento significativo nos índices de vitimização dos jovens negros: se em 2002 era de 71,7% – morrem proporcionalmente 71,7% mais jovens negros do que brancos – esse índice eleva-se para 108,6% no ano de 2006 e, no ano de 2010 o índice se eleva para 153,9%. Ou seja, em 2010 morrem proporcionalmente 2,5 jovens negros para cada jovem branco vítima de assassinato, índice que pode ser considerado inaceitável pela sua magnitude e significação social.”

Não podemos esquecer que o aumento da mortalidade violenta também atinge a juventude indígena, vítima do crescimento do agronegócio, do extrativismo vegetal e mineral no Brasil. A taxa de suicídio da juventude indígena está relativamente entre a mais alta do mundo. Se pegarmos especificamente a população indígena, a taxa de suicídio é de 20 para cada 100 mil habitantes, ou seja, 4 vezes acima da média nacional (4,9 suicídios em 100 mil).Entre os jovens, podemos estimar para o Amazonas uma taxa de 101 suicidas para 100 mil jovens (registraram-se 17 suicídios juvenis em 2008) e de 446 para Mato Grosso do Sul, que registrou 29 suicídios juvenis nesse ano.” Diz o relatório de Waiselfisz.

As Jornadas de Junho da juventude no Brasil
No mês de Junho, a juventude protagonizou uma das maiores jornadas de luta na história brasileira. Cansada e desacreditada com a política tradicional brasileira, a juventude preconizou outra forma de fazer política, a ação direta nas ruas. As manifestações pela redução das tarifas do transporte público e por melhores condições de mobilidade urbana transformaram-se em manifestações de massa que abraçaram outras pautas como a educação e a saúde, que há anos vem sendo tratadas com descaso pelos governantes.

Durante a Copa das confederações, a insatisfação da população com os altos investimentos públicos para realização da Copa 2014 em detrimento da agenda social, transformou as ruas em arenas de luta contra os governos que não economizaram em seu forte aparato de repressão. Em questões de dias, os governantes tiveram que sair da sua indiferença à sociedade civil e apressaram algumas pautas que há anos tramitavam no congresso.

A Jornada Mundial da Juventude 2013 como amortecedor da luta política no Brasil
A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foi criada, em 1984, pelo Papa João Paulo II (o polonês Karol Józef Wojtyła que conduziu a Igreja Católica entre 1978 até sua morte em 2005) e reúne a cada 2 ou 3 anos jovens católicos do mundo inteiro para momentos de oração e doutrinamento que culmina no encontro com o Papa. A JMJ foi criada como forma de frear a perda de fiéis para às igrejas evangélicas e, ao mesmo tempo, devido ao crescente desinteresse da juventude pelas instituições religiosas.

A sua organização está nas mãos dos setores mais conservadores da Igreja Católica, como por exemplo, a Opus Dei. Paralelo a isso, foi criada em uma época de alinhamento entre o Vaticano e os Estados Unidos para combater o comunismo e implantar as bases da política econômica neoliberal no mundo. Tal alinhamento custou o silêncio do papa João Paulo II sobre os horrores das ditaduras militares na América Latina com apoio dos Estados Unidos.

A JMJ ocorre no Brasil em um momento no qual milhares de jovens foram às ruas cobrar dos governos redução das tarifas de transporte público, mais investimentos em educação, saúde e contra a corrupção. Como vimos, a juventude brasileira tem muito que reclamar no que diz respeito a sua situação. Apesar da Igreja Católica afirmar o protagonismo juvenil, o JMJ está longe de ser palco para discussões dos problemas sociais, econômicos e políticos que afligem os jovens. A JMJ vai ser palco para o discurso moralista da alta hierarquia da Igreja e não para a juventude ser escutada e decidir os rumos da Igreja.

Custo milionário da JMJ financiado com dinheiro público…
O financiamento público dos altos custos do evento coloca sob suspeita a laicidade do Estado e a preocupação social que o novo Papa quer passar para a opinião pública. A 26° Jornada Mundial da juventude e a vinda do Papa Francisco custará aos cofres públicos cerca de R$ 118 milhões (o equivalente a construção de 2.360 casas populares, ao custo de R$ 50.000 cada). Boa parte desse dinheiro vem do Governo Federal que disponibilizará cerca de R$ 62 milhões, sendo R$ 30 milhões para a segurança do papa. Dos cofres do Estado e da Prefeitura do Rio de janeiro, estima-se o gasto de R$ 56 milhões.

Apesar dos escândalos de políticos que utilizaram para fins particulares os aviões da Força Área Brasileiros (FAB), a União gastará um milhão de reais só com o transporte de dois papamóveis por um avião Hércules C-130 da FAB. Serão colocados nas ruas as mesmas forças repressoras das últimas manifestações juvenis, milhares de PMs e mais 10.700 homens, sendo 9 mil das Forças Armadas e 1.700 da Força Nacional.

Uma segunda fonte do custeio provém de empresas e bancos multinacionais, como Bradesco, Itaú, Santander, Ferrero, Estácio, Nestlé, Mc Donald’s e as agências TAM Viagens e Havas, os patrocinadores oficiais, que injetarão R$ 20 milhões no Megaevento. A arquidiocese do Rio não revelou a participação financeira de cada empresa alegando “cláusula contratual de confidencialidade”. Há ainda os royalties advindos dos produtos licenciados pela Igreja Católica.

A parceria Santander e Vaticano é bem conhecida, afinal o presidente do IOR (Banco do Vaticano), entre 2009 e 2012,  era Ettore Gotti Tedeschi, simpatizante da Opus Dei e representante do Banco Santander na Itália.  Tedeschi só foi demitido após o vazamento de informações sobre lavagem de dinheiro que ficou conhecido como Vatileeks e que apressou a renúncia do Papa Bento XVI.

Uma terceira fonte vem das inscrições e contribuições dos participantes, cujos pacotes variam R$ 106,00 a R$ 608,00, sem contar os custos da viagem até o evento. Walkes Vargas e Matheus Firmino, em um artigo de opinião para Adital, afirma que este elemento traz um recorte do perfil do jovem participante da JMJ:  “O alto custo da inscrição é um preço bastante considerável para um jovem de classes populares. Isso mostra que os/as jovens que frequentemente participam das Jornadas Mundiais são de uma realidade burguesa ou que lutaram muito para levantar suas finanças e participar do evento. Imaginem a diferença da vida de um jovem que viaja quase que anualmente atravessando fronteiras internacionais para participar das Jornadas Mundiais com a vida de um jovem que tem dificuldades para se locomover até a escola ou universidade.”

Todo esta dinheirama pública tem um objetivo, o uso do Governo Dilma, Cabral e Eduardo Paes da JMJ como um distensor das lutas políticas protagonizadas pela a Juventude e comprar o apoio da Igreja Católica às elites que governam este País.

Muda-se o rosto, mas a linhagem é a mesma
A escolha do Cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para assumir o trono do Vaticano ocorre em um momento de grande crise da Igreja Católica. A renúncia do Papa Bento XVI, Joseph Ratzinger, ocorreu em meio a escândalos de pedofilia praticada pelo alto e baixo clero e escândalos financeiros de lavagem de dinheiro operado pelo Instituto para Obras Religiosas (IOR), o banco do vaticano.

Era preciso um rosto novo que indicasse mudanças e ao mesmo tempo fosse consenso entre o conclave formado em sua grande maioria pelos cardeais conservadores nomeados pela dupla Woltyla-Ratzinger. Bergoglio atendia a este perfil, um cardeal fora da cúpula europeia, de hábitos modestos, conservador e o segundo mais votado no conclave que elegeu Ratzinger como Papa. Foi assim que Bergoglio saiu do seu quase anonimato para se tornar o Papa Francisco, nome escolhido em referência a Francisco de Assis. Este viveu no século XIII e propôs um modelo de igreja baseado na simplicidade, antitético ao modelo imperial eclesiástico da época. É um nome bem escolhido para passar a imagem de renovação.

A grande mídia internacional e local fez logo questão de propagandear Bergoglio como o papa do povo, dos pobres e da simplicidade. A Rede Globo não cansa de querer construir uma imagem devocional dele na Argentina. Acontece que a verdadeira face de Bergoglio é o conservadorismo e a suspeita de ser um colaboracionista da ditadura militar na Argentina. Meses antes de galgar ao papado, ele vociferava contra aprovação do casamento homoafetivo na Argentina: “O povo argentino deverá afrontar nas próximas semanas uma situação que, caso tenha êxito, pode ferir seriamente a família. Está em jogo a identidade e a sobrevivência da família: pai, mãe e filhos. Não devemos ser ingênuos: essa não é simplesmente uma luta política, mas é um atentado destrutivo contra o plano de Deus”. Milhares de jovens que foram às ruas pedir pelo “Fora Feliciano”, como forma de avançar as pautas LGBT, encontrarão a mesma resistência gêmea do moralismo e conservadorismo do Dep. Feliciano.

Durante o regime militar na Argentina (1976-83), pesa sobre Bergoglio a acusação de tirar da proteção da Ordem dos Jesuítas os Padres Orlando Yorio e Francisco Jalics, que foram presos e torturados pelo regime ditatorial. A irmã do Padre Orlando, Graciela Yorio reclama: “Até hoje, a Igreja continua sem colaborar com as investigações da Justiça. Bergoglio nunca quis abrir os arquivos da Conferência Episcopal.”

O fato é que o papa Francisco não representa nenhuma ruptura da linhagem conservadora de João Paulo II e Bento XVI.

A sensibilidade pela situação de pobreza e miséria dos povos latinos e pelo grito da juventude nas ruas não passará de um discurso vago que apelará para humanização do capitalismo e controle de seus excessos, como se a lógica interna do sistema permitisse tal feito. Será um discurso que apelará para o sentimento religioso dos governantes e capitalistas, sem considerar os interesses da luta de classes. Ora o coração dos capitalistas é o mercado e estes só reconhecem uma linguagem, a das cifras bancárias.

Por uma Jornada Mundial da Juventude em luta
Definitivamente, as lutas da juventude e seus anseios por significativas mudanças não se encontrarão na Jornada Mundial da Juventude. Tão pouco esse espaço impulsionará a necessidade de organização para combater as chagas do capitalismo que recaem sobre a maioria da juventude. A geração à rasca de Portugal, os indignados da Espanha, a juventude grega que combate aos planos de austeridade da troika, os milhões de jovens revolucionários egípcios, os estudantes chilenos que lutam contra os males da privatização do sistema de ensino e os milhões de jovens brasileiro, protagonistas das jornadas de junho não estarão representados na Jornada Mundial da Juventude.

Respeitamos os milhares de jovens que estarão na JMJ, muitos inclusive participaram das recentes manifestações de massas no Brasil. No entanto, não poderíamos nos furtar de apresentar a vocês e para toda uma geração, que nos enche de esperanças de que outro mundo é possível, o verdadeiro significado e os objetivos desse evento.

A grave crise econômica mundial e seus efeitos coloca sobre os ombros juventude uma enorme tarefa: a de garantir um futuro digno para os que trabalham, um futuro com emprego, aposentadoria, serviços públicos de qualidade, mobilidade urbana, terra, sem violência, seja a institucional ou a causada pelo tráfico, sem opressão e exploração.

E essa juventude não está fugindo de tal responsabilidade. Desgraçadamente, as burocracias sindicais de todo o mundo não se colam à luta dessa nova geração da classe trabalhadora. E mesmo algumas organizações de esquerda querem canalizar suas aspirações para dentro do calendário eleitoral de cada país. Corre-se o risco de milhões voltarem para a casa antes de abraçar suas vitórias.

No entanto, existe outra possibilidade, a das gerações intermediárias e mais maduras da nossa classe serem tocadas pela luta dos jovens. E, em escala de milhões nas ruas, juntarem-se a esse novo proletariado, mesclando disposição e experiência para varrer as burocracias das estruturas sindicais, passar por cima dos partidos reformistas, forjar coordenações de luta nos países, províncias, cidades, bairros, locais de trabalho, estudo e moradia, e assim criar organismos que discutam a questão do poder.

É essa a alternativa que apostamos e impulsionamos. Agora é hora da aliança estudantil, operária e popular. Organizar um Encontro Mundial da Juventude Trabalhadora que discuta suas tarefas no cenário internacional e dê um salto na organização das lutas, apontando a construção de uma Jornada Mundial de Lutas da Juventude.

No Brasil, as jornadas de junho mostraram a força da juventude e o dia 11 de Julho deu sinais que essa nova geração pode e deve juntar-se aos batalhões pesados da nossa classe. No dia 30 de agosto, teremos um novo teste. Cada Centro Acadêmico, cada Diretoria Central dos Estudantes, Grêmio estudantil e sindicato deve impulsionar a participação dos jovens no dia 30 de Agosto, porque podemos sim garantir vitórias. A juventude abriu uma janela de esperança, a classe trabalhadora organizada está olhando para ela. Cabe transformar essa janela, numa longa avenida.     

LEIA MAIS
Papa Francisco visita o Brasil em meio a manifestações