Mais dois Guajajaras são assassinados no Maranhão

O corpo do cacique Firmino Praxete Guajajara, de 43 anos, da aldeia Silvino

Mais um crime bárbaro contra o povo Guajajara foi cometido neste dia 7 de dezembro. Por volta das 12h40, dois indígenas foram assassinados quando percorriam de motocicletas um trecho da rodovia BR-226, próximo a aldeia El Betel, na Terra Indígena Cana Brava, no município de Jenipapo dos Vieiras, no Maranhão. Os caciques Firmino Praxete Guajajara, de 43 anos, da aldeia Silvino (TI Cana Brava), e Raimundo Belnício Guajajara, da Terra Indígena Lagoa Comprida, foram mortos pelos disparos. Pelo menos mais dois indígenas estão feridos.

Os indígenas estavam voltando de uma reunião com a Eletronorte e com a Funai, onde discutiam um plano de trabalho sobre a instalação de um linhão de energia. Testemunhas afirmam terem visto um carro Celta, branco, de vidro espelhado, diminuir a velocidade e abrir fogo contra os indígenas.

Após o ataque, os indígenas Guajajara iniciaram um protesto na rodovia BR-226 no início da tarde deste sábado, impedindo o acesso ​de veículos na rodovia.

O indígena Nelsi Olímpio Guajajara levou um tiro na perna e escapou com vida.

Essa Terra Indígena é próxima da Terra Indígena Arariboia, onde há pouco mais de um mês, em 1º de novembro, o guardião da floresta Paulo Paulino Guajajara, 26 anos, foi assassinado em um ataque de madeireiros. No ataque o indígena Laércio Guajajara ficou ferido. Os Guardiões da Floresta são defensores e atuam monitorando e combatendo a exploração ilegal de madeira nas terras indígenas do Maranhão.

Contudo, diferente da Arariboia, o caso da Terra Indígena Cana Brava tem como maior ameaça não a retirada de madeira, mas sim a grilagem e o loteamento ilegal do território indígena que é da União. Os cerca de 7 mil Guajajaras vivem acossados por caçadores, fazendeiros e grileiros e enfrentam verdadeiras quadrilhas criminosas que invadem a terra sem nenhum impedimento do poder público.   Só em 2016 foram assassinados seis Guajajaras em três terras indígenas.

Uma reportagem da Folha de S.Paulo mostrou o medo dos indígenas Guajajaras após os ataques. Segundo a reportagem, após o assassinato de Paulinho, o abandono e insegurança se espalhou pelas mais de 170 aldeias dos 413 mil hectares da Arariboia. “Não há cancelas nas entradas das aldeias e nenhuma base de fiscalização do governo federal. Estranhos entram e saem a qualquer momento, às vezes cruzando as aldeias de motocicleta de noite e de madrugada”, diz a reportagem enquanto descreve que muitos indígenas buscam refúgio na mata.

‘Fator Bolsonaro’

Não há dúvidas que mais esse crime contra os povos Gujajaras foi motivado pela atual política do governo Bolsonaro. O atual governo desmonta a Funai e estimula a invasão das Terras Indígenas país afora. Ainda diz que vai liberar a garimpagem em terras indígenas e que vai acabar com algumas delas como Raposa Serra do Sol.

Um grupo de 14 indigenistas, indígenas e ex-coordenadores da Funai voltado para a proteção a índios isolados divulgou, em 5 de outubro, uma carta aberta na qual repudia um “crime de genocídio em curso” em razão de “frequentes cortes e contingenciamentos”.

“Na verdade, essa violência só acontece no contexto que vivemos, nas próprias falas do governo que incentiva a violência e quem a comete tem a certeza da impunidade”, explica Gilderlan Rodrigues da Silva, do Cimi Regional Maranhão.

“Toda essa questão tem o viés do racismo contra os índios, da simples existência deles ali naquele território”, explica.

O “fator Bolsonaro”, segundo dados preliminares do Conselho Missionário Indigenistas (CIMI) fez explodir os ataques aos povos originários. Nos nove primeiros meses de 2019, o CIMI apontam para um aumento alarmante nos casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio dos povos indígenas”. Foram contabilizados 160 casos do tipo em 153 terras indígenas em 19 estados do Brasil. Em 2018 foram 111 casos deste tipo em 76 terras indígenas diferentes, distribuídas em 13 estados do país.

Força tarefa de Flávio Dino

O governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB, prometeu iria criar uma força tarefa para ajudar na proteção dos Guajajaras, após o assassinato de Paulinho. Contudo, a iniciativa do governador não passou de palavras vazias e não evitou mais assassinatos. Mais uma vez, esse crime poderia ter sido evitado se o governo do Maranhão não lavasse suas mãos diante do ataque permanente aos indígenas. É bom recordar que, em 2017, Flávio Dino minimizou o ataque cometido contra os Akroás Gamellas e foi responsável pela ação policial contra a comunidade do Cajueiro.

Fim da impunidade

Não dá mais para aceitar a impunidade. Autoridades públicas são responsáveis pelos assassinato na medida que não apuram os crimes cometidos pelo latifúndio. A impunidade só prepara novos assassinatos.

“Vamos cobrar dos órgão responsáveis os esclarecimentos das mortes. As famílias precisam saber quem está assassinando seus filhos e maridos. Se fosse o contrário, já teríamos visto neste momento algum indígena indiciado”, explica Gilderlan Rodrigues.

Direito de se defender

Diante do crescente ataques motivados pela política de Bolsonaro, os povos originários tem o direito de se defender, fiscalizar seu próprio território, fazer auto-demarcações e exigir  punição exemplar dos assassinatos e violações contra seu povo e suas terras. A barbárie precisa ser detida.