Latifundiários, com o apoio de Bolsonaro, assassinam trabalhadores rurais no Pará

Professores da UFPA apoiam camponeses de Anapu (PA).

GILBERTO MARQUES, DE BELÉM (PA)

Cresce o ataque aos trabalhadores rurais e indígenas de Anapu (PA), com assassinatos, prisões e ameaças de morte.

Anapu é um município paraense localizado na região sudoeste do estado, próximo à Altamira, mas mais precisamente no centro do Pará. Ficou conhecido por ter sido nele o assassinato da missionária Dorothj Stang em 2005.

A missionária católica estadunidense lutava pela constituição de Projetos de Desenvolvimento Sustentável, que são assentamentos (de reforma agrária) de trabalhadores contra as madeireiras e grileiros de terra. Ainda que alguns destes projetos tenham sido criados, a morte da missionária não eliminou os conflitos. Madeireiras e grileiros continuam avançando sobre terras públicas e de populações tradicionais (agricultores, ribeirinhos, indígenas, etc.).

A luta continuou, desta vez sob a liderança principal de outras pessoas, entre as quais padre José Amaro. Em 2018 o padre foi preso e enviado ao presídio de Altamira (o mesmo que este ano sofre uma rebelião que resultou em 62 detentos assassinados, sendo 16 decapitados).

Padre Amaro foi acusado de liderar ocupação de terras. A ação foi forjada de modo a incriminar o religioso. Pessoas foram forçadas a depor contra o padre, entre as quais Márcio Reis.

Em março de 2017 Márcio Reis fez parte de um grupo de agricultores que ergueu um acampamento de trabalhadores sem terra, às margens de um grande fazendeiro da região. Por isso foi preso, permanecendo encarcerado mais de 9 meses.

Após ser solto, nova ação da polícia civil o prendeu, desta vez sob acusação de posse de arma. Ficou preso de abril a setembro de 2018. Em março daquele ano padre Amaro já havia sido preso. Márcio Reis foi pressionado a depor contra o religioso, mas fez o contrário, alegando inocência do mesmo.

O caso teve um novo agravante no dia 4 de dezembro com o assassinado de Márcio Reis, a golpe de faca numa emboscada. Com isso, são 15 trabalhadores assassinados desde 2015.

Marcio Rodrigues dos Reis assassinado dia 4 em Anapu.

Nota assinada pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) e Sociedade Paraense de Direitos Humanos afirma: “O que se percebe é que em Anapu existe uma milícia rural composta por pistoleiros, organizada por madeireiros e grileiros de terras públicas. Quem contraria seus interesses está sentenciado à morte. No governo Bolsonaro esse grupo tem tido apoio e total liberdade de ação. Com medo muitas lideranças já saíram de Anapu, outras tem medo de denunciar os crimes temendo ser a próxima vítima. Enquanto isso, a grilagem e o desmatamento avança sobre as áreas de assentamento criados”.

Novos crimes, novas ameaças

Um dos pontos atuais de maior tensão fica no travessão (estrada de chão) do Flamingo, onde uma grande área de terra, originalmente pública, está sobre o controle de um grande fazendeiro. Trabalhadores rurais se assentaram em uma pequena parte dessa área (lotes 96 e 97) e ganharam o direito a posse da mesma.  A justiça determinou que o fazendeiro se retire destes lotes. O prazo inicial para isso foi de dois meses, o fazendeiro não atendeu. Conseguiu mais dois meses de prazo e no dia 5 de dezembro, junto com a polícia civil, prendeu dois trabalhadores sob a acusação de crime ambiental porque eles estavam fazendo uma cerca para impedir que o gado do fazendeiro coma a roça das famílias.

Vários companheiros e companheiras estão ameaçados de morte. Entre eles, Erasmo Teófilo, uma jovem liderança, cadeirante, que é quem ajuda a organizar os trabalhadores daquela área. Lideranças indígenas, ribeirinhas, do movimento Xingu Vivo e outros mais também estão ameaçadas.

Na mesma Anapu, no dia 9, foi assassinado Paulo Anacleto, que inclusive esteve no funeral de Marcio. Ativista e conselheiro tutelar, Anacleto foi mais uma vítima no campo amazônico.

Paulo Anacleto, assassinado em Anapu no dia 9.

Em novembro último fazendeiros e grileiros invadiram um evento organizado na UFPA (Universidade Federal do Pará) de Altamira que reunia indígenas, ribeirinhos, agricultores e outros trabalhares rurais que discutiam formas de preservar a floresta, os rios e a vida. A intenção do latifúndio era acabar com o evento. Foi um momento de muita tensão.

Apesar da apreensão, há muita disposição para a luta. Movimentos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e de agricultores estão organizando lutas na Amazônia. Mas precisamos de apoio. Se o governo de ultradireita e latifundiários é forte, mais forte seremos nós se conseguirmos a solidariedades dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil.