Foto Agência Brasil

As idas e vindas com relação à reabertura das escolas em São Paulo têm colocado os trabalhadores em uma tensão constante. A sensação de que as crianças tiveram um 2020 perdido alimenta a dúvida se não seria melhor retornar com as aulas presenciais, ainda que com a nova cepa do coronavírus ninguém se sinta realmente seguro. Por outro lado, fica a sensação de que os governos Dória e Covas (PSDB) estão girando o tambor e apertando o gatilho da roleta russa na cabeça dos educadores. Querem pagar para ver.

“Escolas Abertas” ou “bolsos cheios”?

No Estado de São Paulo, Dória e o Secretario de Educação Rossieli Soares tem feito, com o apoio da imprensa burguesa, uma ampla campanha pela reabertura. O governo alega que os protocolos sanitários tornam as escolas seguras e que as escolas que retomaram algum tipo de atividade presencial não apresentaram casos de contaminação. O fato é que os alunos pouco compareceram e agora, mesmo com 35% da lotação, e com a maioria dos profissionais nas unidades, o aumento da contaminação será inevitável.

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Outro argumento é que o retorno das aulas garantirá a “segurança alimentar” dos estudantes. Não temos dúvida de que a má alimentação é um obstáculo ao aprendizado. Entretanto, o programa “Merenda em Casa”, que prometeu atender 700 mil alunos com um cartão no valor de R$55,00, tem um alcance irrisório para o Estado mais rico da federação. O governo pouco se preocupou com a segurança alimentar dos alunos e ainda faz demagogia com o tema para forçar o retorno.

Na cidade de São Paulo, o prefeito em exercício Ricardo Nunes (MDB) – apontado pela Folha de São Paulo como envolvido com uma suposta “máfia das creches” – juntamente com o Secretário de Educação Fernando Padula – que segundo o “Jornalistas Livres” responde na Justiça por improbidade administrativa e corrupção passiva quando da sua passagem pela SEDUC até 2018 – assinaram em meio a sorrisos o decreto que permite a reabertura das escolas na cidade a partir de 01 de fevereiro.

Nas redes sociais, o vice-prefeito Ricardo Nunes e o Secretário da Educação, Fernando Padula, comemoram o decreto de reabertura das escolas.Esc

Um dos argumentos amplamente utilizados pelo governo municipal é o de que “a escola é insubstituível”, supostamente valorizando a escola pública, particularmente para os bebês. Senão, vejamos. Na educação infantil, há uma série de conquistas do movimento dos trabalhadores que garantiram não apenas o direito às mães, mas o avanço da educação à primeira infância, o que implica em espaços adaptados, parques, e atividades lúdicas. Sem condição alguma, os protocolos estabelecem retrocessos como o retorno de berços e sugerem apenas brinquedos individuais. Sem contar as professoras, que terão que fazer trocas de fraldas, auxiliar as crianças com a higiene e alimentação, com o Covid-19 circulando. Ou seja: nenhuma escola pública teria condições de garantir protocolos viáveis. Fica evidente que o retorno não se justifica por preocupações pedagógicas, mas a interesses inconfessáveis “dos de cima”.

Ganhou também notoriedade o movimento “Escolas Abertas”, desde novembro nas redes sociais. Em seu manifesto, afirmam que “As experiências realizadas na Europa e no Brasil comprovam que há segurança na abertura das escolas, desde que seguidos os protocolos de saúde adequados”. O grupo promove carreatas e atos (bastante esvaziados) reivindicando o protocolo de retorno do governo estadual e hostilizando ativistas da educação pública. Uma das suas principais lideranças é Patrícia Cardim, diretora do Centro Universitário Belas Artes. Fica nítido, assim, o caráter de classe do movimento “Escolas Abertas”, ligado aos empresários da educação, e o seu papel auxiliar do governo como resposta a um ano de 2020 em que os trabalhadores conseguiram impor a quarentena nas escolas em muitos lugares.

Em suma: ainda que não da maneira grosseira de Bolsonaro, os governos do PSDB e o movimento “Escolas Abertas” partem do pressuposto de que, de alguma maneira, a pandemia está sob controle com os protocolos, e que a reabertura das escolas inclusive ajudaria a mitigar seus efeitos. Se é assim, por que os trabalhadores estão tão preocupados com a reabertura?

Sai liminar, cai liminar

As cenas da crise sanitária em Manaus, o início insuficiente da vacinação em São Paulo, o fim do Auxílio-Emergencial e o retorno de atos, carreatas e panelaços pelo “Fora Bolsonaro” mudaram a conjuntura. A categoria passou a se comunicar rapidamente pelas redes sociais. A cada postagem do secretário Rossieli, há uma enxurrada de protestos espontâneos.

As principais direções sindicais se mobilizaram pouquíssimo em 2020. No Estado, ainda que atos tenham sido convocados, a direção majoritária da Apeoesp apostou todas as suas fichas na atuação parlamentar, se contentando com migalhas. No município, a direção do Sinpeem não convocou uma reunião sequer na pandemia, estando bastante desmoralizados pela categoria. Infelizmente, ao invés de apostar na organização e na luta direta dos trabalhadores, essas direções têm desviado as lutas em torno de uma judicialização das demandas, gerando grande ansiedade e deseducando a categoria, que fica esperando o resultado da justiça. No fundo, CUT, Cidadania e outros conduzem a luta assim porque não tem desacordo com a reabertura, mas sim com o como e de que maneira isso será feito.

Agora, abre-se uma nova situação para as escolas. Os governos e a burguesia estão fazendo ampla campanha ideológica e impondo o “novo normal”. Desejam o funcionamento de todas as instituições do capitalismo, inclusive a escola. Neste sistema, ela cumpre um papel econômico, político, ideológico. E rifam, assim, o direito mais básico: o direito a vida. Contanto que a máquina esteja funcionando (para os ricos), os trabalhadores precisam se sacrificar. Que sociedade maravilhosa, não?

Mas essa campanha não está fácil para eles, porque a pandemia saiu completamente do controle, com as novas cepas do Covid-19. Diante da crise, os trabalhadores têm um desafio imediato. Apoiar-se na tradição grevista da educação como estão fazendo os professores do Rio de Janeiro e Chicago, e realizar uma grande greve sanitária, disputar ideologicamente as comunidades para a necessidade da quarentena nas escolas, pressionar os sindicatos para que cumpram as deliberações da base, e se necessário superar essas direções. Mais que isso: essa luta deve estar combinada com outras, que se somem ao “Fora Bolsonaro e Mourão”, pois este governo é um obstáculo para o combate à pandemia e a à crise.

Mas isso não basta. Para garantir educação pública de qualidade, é preciso também enfrentar este sistema de conjunto. Mais do que nunca, o capitalismo demonstra ser um sistema que além de não garantir educação, assume o genocídio, particularmente do povo negro nas periferias, como política de Estado em plena pandemia. Fica a necessidade de construirmos na educação um polo consciente de lutas, que defenda a revolução dentro e fora das escolas, e uma educação socialista.

  • Greve sanitária em defesa da vida! #EscolasFechadasVidasPreservadas
  • Auxílio-emergencial e alimentação escolar a todos!
  • Empregos, salários e direitos a todos os trabalhadores da educação!
  • Internet pública e gratuita e autonomia das escolas para apoio aos estudantes!
  • Nenhuma confiança em Dória e Covas! #ForaBolsonaroeMourão