Viver está mais caro, e a inflação não está diminuindo. Veja por quê

Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas

O governo vem fazendo um grande alarde por conta do resultado da inflação de 2017 divulgado nesta quarta-feira, 10. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o índice oficial da inflação (IPCA – Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo) do ano passado foi de 2,95%, ficando abaixo da meta para o período, de 4,5%. O preço dos alimentos teria sido determinante para isso.

Divulgam, então, aos quatro ventos que essa foi a menor inflação em 20 anos de regime de metas. A notícia, como não poderia deixar de ser, vem sendo recebido com desconfiança pela maioria da população, que faz supermercado todo os dias e se mata para pagar as contas ao fim do mês. Para os trabalhadores, os preços não estão diminuindo. E estão certos, não estão mesmo.

Salário mínimo abaixo da inflação
O salário mínimo, que também determina os vencimentos dos cerca de 30 milhões de aposentados e pensionistas do INSS que recebem pelo piso, teve reajuste abaixo da inflação em 2018. O índice que serve como parâmetro para o reajuste do mínimo, o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor, a inflação para quem recebe de um a cinco salários mínimos) ficou em 2,07% em 2017, mais do que o reajuste de 1,81% concedido por Temer no início do ano.

A diferença entre a inflação e o reajuste do governo, de R$ 1,78, porém, não explica por si só a queda do poder aquisitivo da população. A verdade é que os produtos subiram e viver ficou mais caro, principalmente para quem recebe menos.

A real inflação
Mesmo considerando a “deflação” de 4,85% no preço dos alimentos divulgado pelo IBGE, causado pela “supersafra” de 2017 (a maior oferta de alimentos no mercado teria determinado o recuo nos preços), outros gastos essenciais para as famílias foram bem maiores. De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a alta acumulada de taxas como luz, água, gás e combustíveis (o que eles chamam de “bens administrados”) foi de 6,79% em 2017. Para as famílias de baixa renda (R$ 1.500), esse índice saltou para 8,02%. Uma família de baixa renda gasta 22,86% do que recebe todos os meses com isso.

Já os “bens oligopolizados”, que são aqueles gastos com produtos de limpeza, medicamentos, convênios médicos, etc., teve uma alta de 5%. Os “bens livres”, por sua vez, aqueles expostos à livre concorrência (alimentos, alugueis, vestuário, recreação, etc.) teve inflação média de 0,07%. Para as famílias mais pobres, teria recuado 1,92%. Em grande parte, segundo o órgão, devido ao preço dos alimentos e as safras de 2017.

Inflação por setor calculado pelo Dieese. Estrato 1 se refere às famílias que recebem até R$ 1500

O problema é que esses índices de inflação divulgados pelo governo é uma média vários gastos no decorrer do mês. Pode ser que o feijão tenha ficado 6,7% mais barato ao longo de 2017, de acordo com os índices oficiais. Mas por outro lado, o botijão de gás teve uma alta acumulada de 48% no mesmo período. Situação que está fazendo, inclusive, com que famílias ressuscitem o fogão a lenha para cozinharem.

A realidade para além dos números divulgados com festa pelo governo é que, no último período, os trabalhadores e a população em geral ficaram mais pobres. Segundo a PED (Pesquisa de Emprego e Desemprego), entre outubro de 2016 e 2017, a renda média da população ocupada caiu 0,7%. A massa de rendimento dos assalariados (a soma dos salários pagos nesse período) caiu 2,5%.

E os serviços e bens administrados pelo governo, além daqueles essenciais, como os remédios, contribuíram com isso, ao lado do desemprego em massa e da precarização do trabalho. E mesmo se considerarmos que o feijão tenha ficado realmente mais barato na prateleira do supermercado, realidade que ninguém consegue perceber, esse ano isso não vai acontecer novamente. Mas você não vai mais pagar o mesmo preço que pagava no botijão do gás no ano passado.

Diz-se que o problema da média é que ela não serve para dar conta da realidade. Alguém com um dos pés em cima de um bloco de gelo e o outro no fogo, na média pode estar numa temperatura normal para o corpo humano. Na prática, porém, está morto.