Terceirização da limpeza na UFSCar: Perseguição, demissão, doenças e precarização

A Universidade Federal de São Carlos é uma das tantas universidades federais que terceirizaram os serviços de limpeza, segurança e do restaurante universitário. A terceirização, como sabemos, não traz benefícios para a comunidade nem muito menos para os trabalhadores, e por isso deve ser rejeitado.

A terceirização cresceu muito nos governos Lula e Dilma. Temer abriu a porteira para massificar ainda mais esse tipo de contrato ao sancionar a Lei das Terceirizações, lei que afetará todos os níveis de atividade, seja na produção ou na área de prestação de serviços.

Na UFSCar, os maiores prejudicados são os trabalhadores da periferia, mulheres negras que trabalham no setor da limpeza. Passam os anos e a situação das trabalhadoras piora. Em 2014, o número de trabalhadoras encarregadas pela limpeza da universidade passava de 200, desde 2015 esse número caiu pela metade.

A reitoria da universidade, quando aconteceu esse corte, era vinculada diretamente ao PT. Vale lembrar que dois reitores dessa universidade viraram prefeitos da cidade de São Carlos: Newton Lima e Oswaldo Barba, ambos pelo PT. O corte de funcionárias em 2015 obedeceu à ordem de Dilma que exigia cortes para alcançar a meta fiscal. O corte aconteceu, mas não nos salários administrativos, aconteceu com o lado mais oprimido e explorado: as terceirizadas. O corte significou a sobrecarga de trabalho para as terceirizadas e em seguida uma série de ataques que vão desde o assédio moral até infrações aos direitos trabalhistas.

O direito ao trabalho e a uma vida digna é algo que se torna cada dia mais difícil no sistema capitalista. A terceirização não é nada mais do que a corrupção legalizada pelo sistema, na qual o atravessador (empresa) fica com o dinheiro que deveria ser colocado nos salários dos trabalhadores e trabalhadoras e em outras melhorias nas condições de trabalho e segurança social. Esse dinheiro, especialmente o que mantêm as universidades federais, é dinheiro público, e está sendo levado por um monte de oportunistas, precarizando não só o ensino, mas principalmente o trabalho da classe trabalhadora que mantém em funcionamento as universidades. Os espaços limpados pelas trabalhadoras da UFSCar são salas de aula, corredores, banheiros, ginásio, salas administrativas, laboratórios, escadas, etc…

Já no ano de 2016, as trabalhadoras denunciaram à comunidade acadêmica uma série de infrações que a empresa Works Construção & Serviços vinham cometendo, entre elas:  o atraso de salários, o não pagamento do vale-transporte, não pagamento de cestas básicas, ausência de equipamentos de segurança ou transporte para produtos de limpeza, produtos químicos sem identificação, retirada de refeitório e sala de descanso, além de ameaças e assédio moral.

Tais denúncias mobilizaram estudantes de graduação e pós-graduação, assim como servidores públicos da universidade, que formaram o “Comitê contra a Precarização do Trabalho”. O comitê protocolou a denúncia na ouvidoria da universidade, mas teve como consequência a demissão de dezenas de trabalhadoras terceirizadas e tentativa de criminalização de um pós-graduando por parte do fiscal responsável pelo contrato entre a UFSCar e Works. Um pouco antes das demissões, o fiscal (servidor público) numa reunião com as trabalhadoras chegou a falar: “Quem está dando trabalho vai ser mando embora”; “Se tiver alguém fazendo mais, é porque tem alguém fazendo menos”; “Se eu pegar alguém sentado no quartinho se acomodando eu comunico a empresa e tá na rua”.

Nada mudou de lá para cá, as demissões e humilhações continuam, e nenhuma reivindicação foi atendida. Só houve demissões e precarização. O fiscal é outro e a reitoria é outra. Hoje, a reitora é Wanda Hoffmann, reitora que criminalizou os estudantes que ocupavam a reitoria contra o aumento da refeição no restaurante universitário na segunda semana de maio último.

Em 2018, as perversidades desse sistema continuam intactas e membros do comitê e trabalhadoras terceirizadas da área da limpeza relataram vários casos absurdos, como os que seguem abaixo:

Fiquei sabendo hoje que uma das meninas que estava grávida perdeu o bebê e estava sendo sobrecarregada de serviço. E teve outra uma mulher que estava grávida e mandaram ela limpar laboratório sem equipamento, ela pegou uma doença séria no braço, o braço está preto. As mulheres me disseram que colocaram ela lá de propósito”

“Acabei de receber uma notícia que tem funcionária da Works desmaiando dentro do ônibus da firma por excesso de trabalho e outras têm dar contas dos banheiros sozinhas disseram que se não fosse a necessidade pediriam suas contas”

“Mais um pagamento que elas recebem incompletos, e que tem que receber insalubridade também não está recebendo correto, além de não ter ônibus de firma mais elas tem que pegar o transporte coletivo e também não estão recebendo o dinheiro completo da condução”

“Recebi uma queixa de uma funcionária da Works já deprimida por humilhações”

“Mais uma injustiça da Works uma das meninas lá da norte acaba de mandar uma mensagem que foi demitida porque vai fazer uma cirurgia!”

“Vocês alunos podem todos perceber de agora em diante que andamos com uniformes rasgados, homens sem a gravata e sem o crachá de identificação, sabem por quê? A empresa não nos dá um uniforme novo sequer! É isso mesmo, a maioria de nós começamos dentro da wmpresa com um uniforme usado já e batido a muito tempo, tem gente que anda com a mesma roupa há 3 anos já e nunca recebeu nada de novo!”

“Este mês no qual foi o fim da gota, atrasou nosso pagamento por 7 dias”

“Esse desconto é o da contribuição sindical. Dá raiva por que pagar elas pagam, mas receber ajuda do sindicato que é bom…”

Terceirizados, na sua maioria mulheres, sobrevivem nesse ambiente, pagando para trabalhar, desvalorizadas, humilhadas e sem esperança. É preciso sermos firmes, condenar a terceirização e reivindicar a efetivação dos trabalhadores terceirizados na esfera pública. Assim como exigir um salário digno. Hoje em dia, as terceirizadas do setor da limpeza da UFSCar, assim como outros setores, sofrem com a falta de representação, com a falta de um sindicato classista que defenda as demandas da classe. As terceirizadas da UFSCar não pertencem ao sindicato dos funcionários públicos da Universidade Federal em São Carlos – SinTUFSCar, nem ao sindicato dos docentes – ADUFSCar,  o sindicato que as representa  é o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo – SIEMACO, filiado à UGT.

É necessária a solidariedade de classe, passar por cima dos conciliadores e lutar fielmente ao lado dos trabalhadores. Efetivação já!