Junho de 2013 a junho de 2018: Cinco anos que valem por décadas

Cinco anos se passaram desde as Jornadas de Junho de 2013. De lá para cá o Brasil mudou muito, mas não como diz o governo ou uma parte da esquerda como o PT e o PSOL.

Temer mente ao dizer que fez o país avançar. Esconde que as medidas que aprovou aumenta a exploração dos trabalhadores e piora muito as condições de vida do povo brasileiro, como prova a crise dos combustíveis. Não diz que tudo que fez foi em nome dos lucros da grande burguesia brasileira e internacional, e por isso enfrentou a fúria da greve dos caminhoneiros.

Tampouco Temer estabilizou politicamente o país. As diversas frações da burguesia estão bastante divididas. A disputa entre a burguesia é tão grande que estão com dificuldades inclusive de achar um candidato confiável para as eleições. O turbilhão político aberto com as Jornadas de Junho de 2013 segue em andamento.

Mais uma vez: O que foi Junho de 2013?
Milhões foram às ruas. O que começou como reivindicação contra o aumento do preço das tarifas no transporte se transformou numa indignação geral e coletiva contra as péssimas condições de vida. Junho de 2013 foi uma explosão social tanto por conta das contradições do governo petista de conciliação de classes quanto da crise econômica que se iniciava.

Junho de 2013 abriu uma nova situação política no país. Foi uma luta contra todos os políticos burgueses, do PSDB ao PT, contra os interesses dos ricos e poderosos. As contradições e características de junho foram expressões do próprio estágio da luta de classes naquele momento.

A repressão foi violentíssima e mesmo assim a luta não foi derrotada. É verdade que as conquistas foram efêmeras, poucas e pontuais. Mas o mais importante desta jornada de lutas foi seu significado político e social. Uma revolta por baixo que ninguém esperava e a burguesia se desesperava. A luta de classes se acentua e se polariza cada vez mais desde então. O governo de Dilma começa a se esfacelar naquele momento.

Junho de 2013 e a queda do PT
A serventia que o PT tinha para a burguesia estava ligada a sua capacidade de conter os trabalhadores. Seu papel preponderante no movimento de massas possibilitando frear e travar as lutas, faziam com que a burguesia precisasse e confiasse em seus serviços à frente do Estado burguês para conseguir implementar as medidas que garantiam seus lucros. Isso durou de 2002 até junho de 2013.

O discurso petista diz que Dilma caiu por causa das políticas sociais ou por conta de um suposto desenvolvimentismo. Nada mais falso. Até porque não houve desenvolvimentismo algum, nem políticas sociais contrapostas aos interesses da burguesia. A explicação da queda de Dilma tampouco se encontra numa suposta luta de um setor reacionário da burguesia contra outro setor supostamente progressivo, pois toda a burguesia brasileira é associada ao imperialismo e, apesar, de ter diferenças entre si, não existe isso de burguesia progressiva. Tanto é assim que os “golpistas” e “golpeados” andaram juntos no governo até então e inclusive farão chapas juntos em diversos lugares nas eleições deste ano. Se fossem esses os motivos, porque os governos do PT não caíram nos anos anteriores?

Para nós, o que mudou foi que, a partir de junho de 2013, Dilma perdeu a serventia para a burguesia, pois os trabalhadores começam a romper com sua direção histórica, o PT. Na base disso está a crise econômica que liquidou a política do PT de dar migalhas aos trabalhadores enquanto favorecia a grande burguesia. A partir da crise econômica, Dilma cumpriu com a exigência da burguesia de ataques maiores aos trabalhadores, o que aprofundou ainda mais seu desgaste perante as massas e minou sua governabilidade.

A queda de Dilma se deu através de uma manobra parlamentar de uma luta de frações burguesas diferentes, mas igualmente burguesas e ambas com planos para atacar os trabalhadores, tanto que Dilma atacou e Temer também. O objetivo de ambas era a estabilização do país após junho de 2013 e, diante da crise econômica, a aplicação de duros ataques contra os trabalhadores.

A nada santa aliança em defesa da democracia burguesa
Junho de 2013 abalou as estruturas do próprio regime democrático-burguês no Brasil que passou a ser cada vez mais questionado. A tônica dos protestos foi o sentimento de que ninguém nos representa e a rejeição aos políticos burgueses.

O questionamento a essa falsa democracia aumenta com a eleição de Dilma em 2014, quando promete não atacar os trabalhadores e comete um estelionato eleitoral. E se amplia, por exemplo, com o fato da ampla maioria da população ser contra as reformas de Temer e o Congresso de pilantras aprovar a trabalhista à revelia da vontade do povo.

O caráter falso, ilusório e mentiroso da democracia burguesia se revela cada vez mais. O que chamam de democracia hoje é, na verdade, um sistema que é controlado e só funciona para quem detém o poder econômico, ou seja, para os banqueiros, latifundiários e grandes empresários. Este fenômeno de questionamento à democracia burguesa sequer é exclusivamente brasileiro, é mundial, assim como o desgaste das velhas direções traidoras e pelegas do movimento dos trabalhadores.

Diante disso, há algo que unifica tanto Moro e a Lava Jato, quanto o governo Temer e o PT e até mesmo o PSOL, que é a defesa da democracia, desta democracia burguesa. Cada um a seu modo, lutam para regenerar a democracia burguesa e por retomar a confiança das massas neste regime político podre.

O Judiciário vislumbra regenerar a confiança da massa no regime através de uma purificação e uma luta contra a corrupção. O PT acha que regenerar a democracia é soltar Lula. O PSOL, além de aderir também à campanha “Lula Livre”, acredita que com algum tipo de reforma política as massas voltem a acreditar no regime.

Hoje, o que todos já sabiam, é comprovado pela revelação dos esquemas e todo tipo de fraudes envolvendo grandes empresas capitalistas e os políticos de todos os grandes partidos. E o próprio judiciário, e em especial o STF e a Operação Lava Jato, passam a sofrer desgaste perante o povo brasileiro. Afinal protegem os ricos, por exemplo com os acordos de leniência, e não querem investigar e prender todos os corruptos.

A explicação desta crise do regime democrático-burguês se encontra na própria crise do sistema capitalista. Com a crise econômica a fissura entre as classes se aprofunda, há disputas entre a própria burguesia. E a democracia burguesia mostra com toda força seu caráter burguês e seus limites. A impossibilidade de fazer concessões aos trabalhadores se acentua. O “centro” perde sua força e se abre espaços à “direita” e à “esquerda”. O problema é que diante disso a maioria da esquerda se aferra à defesa do sistema, reforça as alianças com a burguesia e tenta salvar o regime.

Onda conservadora ou polarização social e política?
Por motivos diferentes, para a maior parte da esquerda junho de 2013 está morto e enterrado. Uns acham que o que acontece hoje no país não tem nada a ver com essa grande jornada de lutas pois foi derrotada. O PT é um pouco mais sincero nesse caso, pois afirma que junho de 2013 foi o início da instabilidade do país que fez com que Dilma caísse. Ou seja, a conclusão para o PT é que junho de 2013 foi reacionário.

Em primeiro lugar, não houve derrota do movimento de massas em junho de 2013. A repressão não venceu e foi repudiada até o fim. E sequer a imprensa conseguiu controlar o movimento. O que realmente não teve pós-junho de 2013 foi um salto organizativo e político da esquerda revolucionária e socialista. Ou ainda um salto organizativo do próprio movimento de massas.

É verdade que surgiram novos grupos de direita pós-junho de 2013 como o MBL e Vem Pra Rua dirigindo atos pelo impeachment da Dilma em 2015/16. Essas novas organizações de direita surgem no país não fruto da derrota de junho de 2013, mas sim da instabilidade e polarização política propiciada pelas massas em movimento. Inclusive o crescimento eleitoral de figuras como Bolsonaro expressam também isto.

Mas não há que se superestimar esses grupos, assim como não devemos ter uma visão unilateral deste processo. Pois, após junho de 2013, vivemos um recorde de greves no país comparadas aos anos 80. Seguidas pela maior onda de lutas do movimento estudantil da história do país com as ocupações de escolas. A greve geral de 2017, a reposta das mulheres na luta contra o machismo, o levante diante da morte de Marielle, a luta da juventude negra contra o genocídio, etc.

Ao desenhar a realidade atual como fruto de um suposto golpe e uma onda conservadora usam como exemplo que há um aumento das medidas repressivas e bonapartistas na democracia burguesa. Isso é verdade, mas esquecem que o salto dessas medidas foi a partir de junho de 2013, ainda durante o governo Dilma, com a prisão de ativistas, uso de repressão desenfreada, desenvolvimento da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), criminalização dos movimentos sociais e lei antiterror. Isso sem contar que nas periferias a violência do Estado, através da repressão, assassinato sistemático e encarceramento em massa da juventude negra, sempre foi presente, fato que se agravou inclusive com a lei de drogas de 2006 do governo Lula.

Ou seja, não foi fruto da derrota de junho, nem tampouco de um suposto caráter reacionário, tudo que aconteceu no país após as manifestações, mas esses acontecimentos posteriores expressam sim uma luta de classes cada vez mais aberta e escancarada.  Os momentos de crise e instabilidade, como mostra a história, dão munição para os revolucionários e os contrarrevolucionários.

O papel do PT desde então é reveladora sobre o momento que vivemos. Já nos marcos do governo Temer, o PT traiu as greves gerais. Não se colocou a tarefa de derrubar Temer. Inclusive no caso da prisão de Lula adotaram uma postura de confiança nas instituições, no STF e na justiça. Lula momentos antes de ser preso chegou a falar que não propunha uma revolução e que confiava na democracia e na justiça burguesa. Fato é que a própria prisão do Lula é uma expressão da adaptação e degeneração do PT a ordem que finge se contrapor.

O maior exemplo de como a caracterização de onda conservadora é nocivo para o movimento dos trabalhadores ocorreu recentemente na greve dos caminhoneiros. Como a força da greve não encaixava com a caracterização da realidade que fazem, inflaram o peso dos que pediam intervenção militar, chegaram a dizer que era parte do golpe, que era um locaute, etc. Este debate só teve eco entre a maior parte da esquerda pela credibilidade que estas organizações dão ao discurso petista de onda conservadora e golpe.

A verdade é que o PT criou uma tese para justificar toda sua política de conciliação com a burguesia e para conseguir segurar sua base diante do questionamento cada vez maior dos trabalhadores. Para eles, a correlação de forças ideal é a desgraça que foram os anos de governo petista com o país estável e com uma luta de classes não tão exacerbada.

A conclusão é que o Brasil mudou muito nesses cinco anos. A esquerda reformista também, só que para pior! Diante de um país mais polarizado social e politicamente, com uma radicalização latente dos trabalhadores, o PSOL dá um giro à direita e, se já foi oposição de esquerda ao governo do PT, hoje capitula a este partido. Passou a integrar o mesmo bloco burguês de colaboração de classes. Tentam transformar a derrota das organizações de esquerda burocráticas e reformistas que governaram com os capitalistas em derrota das massas e justificativa para sua capitulação.

Os ventos de junho ainda sopram. O cenário aberto desde então não se encerrou. A disputa ainda está em curso. As placas tectônicas das classes sociais e da reorganização política seguem se movendo a ritmos diferenciados. Reduzir a situação atual a uma onda conservadora ou luta contra um suposto golpe e em defesa do PT, é condenar os trabalhadores a não construir uma alternativa revolucionária e socialista para o país.