Daniel Sugasti

A pandemia do novo coronavírus (covid-19) continua incontrolável. A ONU declarou que o problema poderia alcançar “proporções apocalípticas” [1]. No momento da redação deste artigo, o número de infectados e mortos no planeta excede 439.000 e 19.600, respectivamente. São quase 7.000 mortes na Itália e 3.400 no Estado espanhol. Em relação ao número de contágios, a OMS apontou a possibilidade de o novo epicentro ser os Estados Unidos, que tem mais de 55.000 infectados e quase 200 mortes.

A dinâmica revela um panorama dramático, com perspectivas imprevisíveis em todas as áreas. Para se ter uma ideia, o último surto epidêmico importante no mundo foi o Ébola, concentrado na África ocidental. Essa doença altamente infecciosa demorou dois anos para ser “contida” e causou aproximadamente 11.000 mortes. Menos que a covid-19, que começou a se disseminar três ou quatro meses atrás.

Nos casos graves, especialmente entre pessoas com mais de sessenta anos ou com doenças pré-existentes, o covid-19 causa uma pneumonia séria, exigindo internação urgente em unidades de terapia intensiva (UTI), equipadas com respiradores mecânicos. Entre o material médico considerado básico, este equipamento é decisivo para lidar com a insuficiência respiratória provocada pelo coronavírus.

A falta de respiradores nos hospitais italianos, no contexto de um sistema de saúde que colapsou devido à demanda gerada pela pandemia, foi um elemento central que levou a que as equipes médicas tivessem que decidir quem teria ou não a chance de sobreviver. A tal ponto que, no início de março, foi estabelecido um limite de idade para a admissão ou não de pacientes gravemente enfermos em terapia intensiva. Milhares foram simplesmente deixados a sua própria sorte e, entre outros motivos, isto explica o alto índice de letalidade do novo coronavírus na terceira economia da Zona do Euro.

O negócio dos respiradores mecânicos

Como em qualquer crise do capitalismo, a burguesia mundial tentará impor que o custo seja pago com o suor e a morte do proletariado e dos setores oprimidos. Uma parte da pequena burguesia e dos setores médios urbanos certamente também sofrerá um duro golpe. Inclusive facções da classe proprietária não obterão as taxas de lucro que aspiravam. A crise aumentará a polarização, que antecede à crise do covid-19, porque colocará de maneira candente o problema de quem perde e quem ganha; quem sobrevive e quem morre.

Dito isto, não é menos verdade que uma parte da burguesia mundial acumulará imensas fortunas especulando com a vida e a morte de milhões de seres humanos.

Sem mencionar a poderosíssima indústria farmacêutica, liderada por empresas norte-americanas, que estima lucrar um bilhão e meio de dólares até 2023[2]. Para esses magnatas, não há crise.

Devido à sua importante relação com a crise do coronavírus, nos deteremos aqui em alguns aspectos da indústria dedicados ao desenvolvimento de tecnologias e à produção de equipamentos médicos complexos, como os respiradores artificiais.

Vamos começar com um exemplo próximo. Na Argentina, a principal produtora local é a cordobesa TECME. A empresa anunciou – talvez esfregando as mãos – que reúne as condições para atender a uma demanda que cresceu “exponencialmente”, em torno de 300%, com a crise do coronavírus. Os respiradores da UTI têm um valor de mercado que oscila entre 20.000 e 40.000 dólares, dependendo do modelo. Mas a média é de 25.000 dólares. Isso nos dá uma estimativa dos lucros que este setor espera acumular.

Segundo a revista Forbes, os empresários Paolo e seu irmão Gianfelice Rocca, donos do grupo Techint, são os homens mais ricos na Argentina, com uma fortuna estimada em 4,1 bilhões de dólares. Se seus bens fossem confiscados e, digamos disponibilizados para enfrentar a pandemia, poderiam ser comprados cerca de 164.000 respiradores. Se puxarmos mais desse fio, os seis indivíduos mais ricos do país têm uma fortuna agregada de cerca de 15 bilhões de dólares.

Vamos continuar com exemplos dos peixes mais gordos. “À medida que a pandemia se espalha há uma demanda sem precedentes de suprimentos médicos, especialmente respiradores”, declarou um executivo de GE Healthcare, divisão de saúde da General Electric (GE). Esta sim é uma multinacional com todas as letras. Suas fábricas estão operando 24 horas por dia. A GE Healthcare foi responsável por pouco mais de 16% do faturamento de 121 bilhões de dólares da GE em 2018. Pode ser suposto que esses ganhos crescerão a galope da propagação da covid-19. A propósito, a GE anunciou em 24 de março um acordo com a Ford e a 3M para aumentar a produção de respiradores [3].

Outra empresa interessada em aproveitar o negócio é a holandesa Philips, que entre 2014 e 2018 deu uma guinada para o mercado de equipamentos médicos. E não se saiu nada mal: seus lucros aumentaram 169%, cerca de 1,1 bilhões de euros [4].

A corrida para produzir respiradores levou o fabricante sueco Getinge e o francês Air Liquide a também aumentar sua linha de montagem. A Dräger, gigante alemã em tecnologia médica assegura ter “dobrado” sua produção. A Löwenstein anunciou que garantirá um pedido de 6.500 unidades encomendadas pelo governo alemão, as quais serão pagas com dinheiro público. Seguindo um refinado “olfato para os negócios”, essa companhia havia aumentado sua produção desde fevereiro, quando a epidemia na China estava em seu pior momento e a disseminação em escala mundial era quase um fato.

No mesmo sentido, as empresas que não são desse ramo tentam se realocar frente à crise da pandemia para aumentar seus lucros. A poderosa indústria automobilística, que está com boa parte de sua capacidade ociosa, está se empenhando para se reorientar na produção de respiradores e equipamentos médicos.

É o caso, como antecipamos da Ford, General Motors, Tesla, entre outras, que agora têm “luz verde” por parte do presidente Trump para fabricar respiradores. Na Europa, a montadora francesa PSA indicou que está estudando “muito a sério, se for viável” se aventurar nessa área. As alemãs Volkswagen Daimler também analisam opções. Enquanto os empresários reservam um tempo para pensar, o Ministério da Economia alemão informou que decisões desse tipo cabem unicamente a eles: “as empresas precisam tomar a decisão por conta própria” [5]. Por sua vez, na sofrida Itália, a Ferrari e a Fiat Chrysler Automobiles conversam com o maior fabricante local de ventiladores para entrar nesse mercado.

Outras companhias estão considerando a ideia de criar novos modelos e até a impressão 3D. A holandesa Ultimaker, por exemplo, oferece esse tipo de impressão para produzir válvulas de respiradores.

Assim, enquanto milhares de pessoas morrem diariamente, um punhado de magnatas especula e lucra com a pandemia. Os Estados capitalistas, com seus governos, cumprem com seu papel oferecendo todo tipo de incentivos, utilizando dinheiro público.

O negócio dos respiradores mecânicos, que é apenas uma parte do enorme complexo de empresas multinacionais que controla a produção na área da saúde, mostra e continuará mostrando que, enquanto o capitalismo não for liquidado, o lucro de muito poucos estará acima da vida de milhões.

Não terá leitos de terapia intensiva nem pessoal especializado para todos os casos graves

Além dos respiradores, cada leito de UTI precisa de pessoal treinado para operá-los. Um representante do Sindicato Nacional de Anestesistas e Reanimadores franceses afirmou que os protocolos de reanimação da covid-19 exigem colocar os pacientes de bruços e, para isso, “são necessárias cinco pessoas”. Esses profissionais, é claro, requerem material de proteção, como máscaras, óculos, luvas, desinfetantes. Estes equipamentos, muito mais baratos que os respiradores, estão faltando na Europa.

A classe trabalhadora deve estar consciente de que, enquanto a produção e o fornecimento de respiradores e material médico essencial para enfrentar a pandemia continuarem em mãos do setor privado, é inevitável uma escassez geral. Para os setores mais pobres de nossa classe, haverá falta quase completa.

Isso é assim porque, no capitalismo, a saúde não é um direito humano, mas uma mercadoria que somente aqueles que podem pagar têm acesso a ela. Por isso, em momentos como esse, dar fim a esse sistema de produção é questão de vida ou morte.

No Brasil, a principal economia da América do Sul, em 2019, havia 106.800 leitos hospitalares disponíveis, incluindo os de internação “comum” e os da UTI (aproximadamente 60.000), a maioria deles nas regiões mais ricas, no sudeste do país. Segundo David Uip – coordenador da campanha contra o coronavírus do Estado de São Paulo, o mais afetado pela pandemia -, 90% desses leitos estão ocupados por casos não relacionados à covid-19. O próprio governo de São Paulo alerta que o pico de contágios ocorrerá entre abril e maio: 20% da população poderão ser infectadas, ou seja, 9.200.000 pessoas. Mas, nos bastidores, as autoridades sanitárias não descartam que esse índice chegue a 60%, cerca de 27.200.000 pessoas [6].

A Associação Brasileira de Medicina Intensiva alertou que, nos epicentros da pandemia, a demanda média atingirá 2,4 leitos de UTI por 10.000 habitantes. Isso representa quase o dobro da média existente no setor público brasileiro, do qual dependem 80% da população [7]. De qualquer forma, as condições para um colapso estão dadas: 60% dos municípios brasileiros não têm respiradores na rede pública de saúde [8]. A perspectiva piora quando se sabe que, nos casos graves da covid-19, o período de ocupação de um leito de UTI, com seu respectivo ventilador artificial, pode chegar a 20 dias.

Esta macabra perspectiva, na realidade, não deveria surpreender, pois é resultado direto de décadas de neoliberalismo e desmantelamento deliberado do sistema público de saúde brasileiro, o SUS. Segundo o DataSus, na última década houve uma redução de 5% dos leitos [9]. Pesquisadores da Universidade de Oxford, em um estudo preliminar, estimaram que o Brasil poderá registrar 478.000 mortes [10]. Um relatório da ABIN, a agência de inteligência brasileira, prevê mais de 200.000 infectados e 5.500 mortos até 6 de abril, conforme relatado pelo The Intercept [11]. No resto da América Latina, a situação não deve ser diferente.

Segundo projeções de um estudo realizado em Harvard, entre 40 e 70% da população mundial será contaminada: isto significa entre 3,1 e 5.5 bilhões de pessoas [12]. Do total de infectado, prevê-se que 15% dos casos requererá internação hospitalar e cerca de 4% perecerá.

A Europa está demonstrando toda a incapacidade do capitalismo imperialista para enfrentar a pandemia. Nos Estados Unidos, um possível novo epicentro, a classe trabalhadora e seus setores mais pauperizados pagarão as consequências da ausência de um sistema público de saúde. Os hospitais nos EUA contam com 62.000 respiradores mecânicos disponíveis, aos que poderiam ser somados outros 99.000 considerados obsoletos e que estão armazenados, de acordo com a Society of Critical Care Medicine [13].

Se essa é a realidade nos países imperialistas, o que se pode esperar nos países capitalistas periféricos?

De acordo com o censo realizado em 2019 pela consultora Global Health Intelligence (GHI), a infraestrutura básica dos hospitais de quase todos os países latino-americanos é completamente deficiente. Se tomarmos os dados sobre a disponibilidade de respiradores mecânicos, veremos, entre outros, que o México conta com 16.739; Argentina com 5.777; Colômbia com 6.293; Chile com 1.737; Bolívia com 750; Guatemala com 528; Panamá com 488 e Costa Rica com 298. Não é difícil perceber que esses números não darão conta de uma possível demanda de 15% de pacientes provenientes dos grupos de risco definidos pelas características do COVID-19. Em todos os casos, insistimos, supõe-se que 80% dos leitos e os respiradores já estejam ocupados por outros motivos [14].

O caso do Haiti, a nação mais pobre das Américas, é calamitoso, e a covid-19 pode ser incontrolável. Dois terços da sua população sobrevivem em condições subumanas, sem comida, sem água potável nem acesso ao sabão. A cólera é endêmica e, em seu último surto, deixou 10.000 mortos. Os altos índices de desnutrição, de infectados com HIV e tuberculose aumentam o número de pessoas imunossuprimidos. Um relatório realizado pela Fundação St. Luke e do Centro Médico de Maryland em 2018 alertou que, com uma população superior a 10.000.000, havia apenas 90 leitos disponíveis para tratamentos intensivos. Destes somente 45 contavam com assistência respiratória [15].

Um programa socialista para enfrentar a pandemia da covid-19

Não existe saída efetiva para a classe trabalhadora enquanto a saúde estiver nas mãos da classe capitalista. Para os ricos, que podem ser atendidos da melhor maneira possível, a vida de milhões de trabalhadores não importa. Um empresário brasileiro, dono de uma rede de restaurantes, alguns dias atrás, teve um ataque de sinceridade e afirmou que o Brasil não podia parar por “cinco ou sete mil mortes” [16]. Essa é a lógica do capitalista. O importante é continuar produzindo, lucrando. O resto não importa, não passará de “dano colateral”. A classe trabalhadora, para os ricos, é bucha de canhão. Como propusemos em outro texto, não existe meio-termo: ou eles, ou nós [17].

A única saída realista e coerente para a defesa da vida de milhões de pessoas é a expropriação, sem indenização e sob controle dos trabalhadores, das principais fontes da economia mundial. Em meio à pandemia, principalmente os complexos industriais farmacêuticos e destinados à produção de equipamentos médicos, como leitos, respiradores, máscaras, óculos, luvas, álcool, e tudo que é necessário para enfrentar o vírus.

É urgente confiscar esses setores que estão nas mãos de um punhado de magnatas e colocá-los a funcionar com base em um plano econômico operário e socialista.

É imperativo, entre muitas outras medidas, um investimento pesado em pesquisa científica. Libertando a ciência e o desenvolvimento tecnológico da mesquinhez capitalista, será possível avançar de maneira mais rápida e eficaz em direção a possíveis alternativas de imunização ou novos modelos de respiradores, mais baratos e adequados para a produção em larga escala.

Da mesma forma, como assinalamos em outras publicações, é necessário lutar por medidas que garantam um isolamento social efetivo para a classe trabalhadora, sem perdas de empregos nem cortes salariais.

Notas:

[1] Consultar: <http://g1.globo.com/globo-news/globo-news-em-pauta/videos/t/todos-os-videos/v/onu-fala-em-pandemia-de-proporcoes-apocalipticas/8428454/>.

[2] Consultar: <https://guiadafarmacia.com.br/estudo-iqvia-mercado-farmaceutico-global/>.

[3] Consultar: < https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painelsa/2020/03/ford-quer-elevar-producao-de-respiradores-com-3m-e-ge.shtml?origin=folha>.

[4] Consultar: <https://exame.abril.com.br/negocios/para-a-philips-inovacao-medica-se-antecipa-a-regulamentacao/>.

[5] Consultar: <https://oglobo.globo.com/economia/coronavirus-alemanha-pede-fabricantes-de-automoveis-que-produzam-equipamentos-medicos-1-24321252>.

[6] Consultar: <https://brasil.elpais.com/politica/2020-03-22/coronavirus-no-brasil-segue-a-curva-de-paises-europeus-e-sao-paulo-preve-ate-9-milhoes-de-infectados.html>.

[7] Consultar: <https://www.poder360.com.br/governo/sus-nao-tem-leitos-de-uti-para-enfrentar-coronavirus-diz-jornal/>.

[8] Consultar: < https://saocarlos.clubefm.com.br/noticias/60-dos-municipios-brasileiros-nao-tem-respiradores-mecanicos>.

[9] Consultar: <https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/03/21/queda-no-numero-de-leitos-e-pico-de-internacoes-por-doencas-respiratorias-em-abril-e-maio-sao-desafios-diante-de-coronavirus-em-sp.ghtml>.

[10] Consultar: <https://theintercept.com/2020/03/16/coronavirus-estudo-mortos-bolsonaro/>.

[11] Consultar: <https://theintercept.com/2020/03/24/coronavirus-abin-projeta-mortes/?fbclid=IwAR2YHpMk_etoJrgl-u4vhZud9oBR39Em7UF5G2istkK8Pu3-Gy5T9Uz0b4Q>.

[12] Consultar: <https://www.businessinsider.com/coronavirus-outbreak-could-hit-3-billion-adults-harvard-expert-2020-3?r=US&IR=T>.

[13] Consultar: < https://www.forbesargentina.com/como-planean-aumentar-su-produccion-los-fabricantes-de-respiradores/>.

[14] Consultar: < https://interferencia.cl/articulos/exclusivo-asi-esta-preparada-america-latina-para-el-covid-19-en-cuanto-infraestructura>.

[15] Consultar: <https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-51984658>.

[16] Consultar: < https://istoe.com.br/dono-do-madero-diz-que-brasil-nao-pode-parar-por-5-ou-7-mil-mortes/>.

[17] Consultar: <https://litci.org/es/menu/mundo/europa/estado-espanol/covid-19-o-ellos-o-nosotros/>.

Tradução: Rosangela Botelho