(Brasília - DF, 05/02/2020) Reunião com Sergio Moro, Ministro de Estado da Justiça e Segurança Pública e Secretários.rFoto: Marcos Corrêa/PR

A burguesia brasileira está desesperada, tentando encontrar uma “terceira via” que fuja da polarização entre Bolsonaro e Lula. Sonham com uma candidatura de centro, moderada e que consiga dialogar com tudo e todos.

O problema é que não há ninguém que cumpra esse papel e, ao mesmo tempo, tenha algum apelo entre o povo. E, agora, embora não seja exatamente uma figura popular, jogaram algumas fichas em Sergio Moro. Embalado pela grande mídia como uma alternativa dos ricos e poderosos, o ex-juiz voltou dos Estados Unidos e já iniciou sua campanha para presidência.

O “incorruptível” corrupto

A principal imagem que quer passar é de ser o candidato “ético e anti-corrupção”. Mas, vale lembrar, quando era juiz, Moro conseguiu a façanha de ser corrupto no próprio processo em que julgava a corrupção de vários partidos. Protegeu uns, atacou direitos democráticos de outros e, no fim, longe da isenção que pregava, foi descoberto e, logo, vieram à tona várias das ilegalidades no processo que conduziu.

E, hoje, está filiado ao Podemos, um partido recheado de corruptos. Mas, o pior é que fez parte do governo Bolsonaro, que talvez tenha sido a coisa mais criminosa que aconteceu no país nos últimos anos.

Sua atual candidatura quer juntar os ex-bolsonaristas, que vão de Joice Hasselmann (PSL) ao MBL, passando por Luiz Miranda (DEM-DF). Apesar de ter saído do governo, o ex-juiz é tão reacionário quanto seu ex-chefe. Inclusive, já disse que não se arrependeu de ter sido ministro de Bolsonaro.

Os setores da direita que estão se distanciando de Bolsonaro não o fazem porque se arrependeram das atrocidades que defenderam e fizeram. Ou seja, não romperam necessariamente com sua política. Seguem defendendo abertamente o aumento da exploração dos trabalhadores, continuam alimentando discursos e práticas machistas, racistas, LGBTIfóbicos e xenófobos, e se colocam ao lado do que há de pior no capitalismo, da subserviência aos EUA e ao imperialismo.

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Como Bolsonaro, Moro defende os ricos e poderosos

Sua ligação com o empresariado, com os EUA e com os ricos e poderosos brasileiros é bastante conhecida. Seu projeto para o país foi rascunhado em uma entrevista na Rede Globo. É a velha baboseira neoliberal. O seu interlocutor econômico é Celso Pastore, um economista que sempre defendeu o fim dos direitos dos trabalhadores, a privatização da Petrobras e o fim da Previdência pública. Isto em 1983.  Portanto, não tem nada de novo.

Neste sentido, é a exata continuidade do governo Bolsonaro e do projeto Paulo Guedes, de defesa intransigente dos interesses da burguesia brasileira e internacional. Assim como Guedes, que trabalhou com a ditadura de Pinochet, o guru de Moro também já participou de uma ditadura: foi presidente do Banco Central no governo João Figueiredo (1979-85), na Ditadura Militar.

Defesa de um projeto autoritário

Comparado a Bolsonaro, Moro é visto “menos troglodita”. Mas, ao mesmo tempo, foi ele quem teve a capacidade de propor (e quase aprovar) a licença para matar para os policiais, como previa o “excludente de licitude”, embutido em seu pacote anticrime. Ou, ainda, foram muitas suas declarações para endurecer a Lei Antiterrorismo, de 2016, mirando especialmente os movimentos sociais.

Como ministro, acionou e endossou decisões que permitiram o uso da Lei de Segurança Nacional (LSN) contra tudo e contra todos que criticavam Bolsonoraro, incluindo uma festa punk, em Belém do Pará, que exibia cartazes considerados ofensivos ao presidente.

Por isso tudo, Moro embala o sonho de uma burguesia decadente que exige a presença de alguém forte, mas não tão ignorante e anti-ciência como Bolsonaro. Moro tenta dar um ar de “inteligência” ao projeto autoritário, elitista e violento original de Bolsonaro. Mas, não é à toa que estiveram juntos. Se, hoje, estão separados é mais pelo tamanho do desastre que foi o governo do que, de fato, pela discordância com o rumo das coisas.

Um perigo que também precisa ser derrotado

Para recuperar a imagem da direita, Moro e os ex-bolsonaristas tentam se vender como uma “direita esclarecida” e racional. Os erros e atrocidades de Bolsonaro seriam, nesta fábula, apenas fruto da insanidade do presidente e não de seu projeto político perverso. O mesmo que estes senhores que, agora, clamam pela “terceira via” ajudaram a construir e levantar.

Para a burguesia, Moro representa a possibilidade de manter os rumos dos ataques aos trabalhadores e trabalhadoras, com um ar mais legitimo do que com Bolsonaro. Isso não o torna menos perigoso. Muito pelo contrário. É um perigo diferente, mas tão grave quanto, e que precisa ser derrotado.

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