São Paulo: 450 anos de contrastes e lutas

O aniversário de São Paulo ocupou um enorme espaço na mídia. Minissérie global, reportagens especiais e uma mega festa fizeram parte do esforço para mostrar ao país que a maior cidade do Brasil não só é “de todos os brasileiros”, mas também é expressão máxima de um Brasil que deu (ou pode dar) certo. Definições que mascaram uma outra história: esta é uma cidade-síntese dos contrastes brasileiros e das muitas lutas que marcaram os 450 anos.

A primeiríssima providência dos colonizadores que aqui chegaram foi erguer um colégio e agregar o nome do santo católico à cidade (chamada de Piratininga) com o objetivo de “catequizar” e “domesticar” os nativos. Diante da forte resistência, o discurso de Anchieta, líder dos jesuítas, foi bastante claro. Em carta de 1562, o padre escreveu: “Parece-nos agora que nesta Capitania estão abertas as portas para a conversão dos gentios (…) para este gênero de gente não existe melhor pregação que espada e vara de ferro”.

E foi exatamente isto que marcou a pouco louvável história da cidade por dois séculos. Afinal, foram daqui que partiram os famigerados bandeirantes que garantiram a expansão territorial através do extermínio dos povos indígenas, da perseguição aos negros e do saque generalizado.

De província à capital do movimento operário

Até o século 19, São Paulo foi um vilarejo. Quando a primeira ferrovia chegou na cidade, por volta de 1870, existiam 25 mil habitantes. Em 1899, já eram 250 mil pessoas. Em 1920, 580 mil.

O crescimento populacional acompanhou o aumento de sua importância econômica e foi marcado pela segregação e pela exploração. Os poucos indígenas sobreviventes foram isolados. Os muitos ex-escravos, marcados pelo desemprego, foram expulsos para a periferia, originando as primeiras favelas. Os imigrantes europeus, que chegavam aos milhares, eram submetidos a jornadas de até 15 horas e amontoavam-se em cortiços. Para exemplificar as condições de vida na época, basta lembrar que uma epidemia de gripe, em 1918, matou 10 mil pessoas em quatro dias.

Foi essa situação que deu origem às rebeliões que marcaram a primeira metade do século 20. Em 1917, a cidade foi totalmente paralisada por uma greve geral, dando início a quase uma década de rebeliões e mobilizações. Também foi neste ambiente que surgiu o movimento modernista, responsável por uma revolução nas artes e na cultura.

Um novo impulso industrial se deu nos anos 50, quando da implantação das multinacionais automobilísticas. A rápida industrialização, o crescimento desordenado da cidade e o empobrecimento da população marcam as décadas seguintes. Uma situação que, combinada com a resistência à ditadura militar, potencializou o fortalecimento dos movimentos operário e popular, tanto na cidade quanto nos seus arredores.

Nos anos seguintes, acompanhando processos que varriam todo o país, São Paulo acaba sendo palco de alguns dos principais eventos do período. Os protestos contra o assassinato de Vladimir Herzog, em 1975, detonam a luta pela Anistia; o assassinato do metalúrgico Manuel Fiel Filho, em 1976, deu visibilidade à luta da categoria que, com suas greves em 1978 e 79, marcaria o início do fim da ditadura; a violenta repressão aos estudantes da PUC, em 1977, colocou em evidência o movimento estudantil. Como também foi na cidade, em julho de 1978, que surgiu o embrião do Movimento Negro Unificado e, anos mais tarde, as principais organizações do movimento feminista e GLBT. Em 1983, um comício na frente do Estádio do Pacaembu fez ecoar por todo o país o grito pelas Diretas Já.

Por outro lado, Sampa também foi palco dos disparates da burguesia e seus aliados. Basta lembrar o Massacre do Carandiru, em 1992; as centenas de chacinas que ocorrem anualmente e os constantes ataques neofascistas a negros, nordestinos e gays.
Marcada por estas gritantes contradições, São Paulo se transformou em local privilegiado para refletir as lutas de nosso povo. Lutas que, em Sampa, se confrontam com os muitos problemas da cidade: seu trânsito caótico, seu cinzento horizonte, seus arrogantes burgueses e o ritmo alucinado de seus habitantes. Características, contudo, que não apagam aquilo que esta cidade tem de melhor: a concentração de uma massa trabalhadora, estudantil e popular com potencial para dar o devido troco aos 450 anos de exploração impostos pela poderosa classe dominante paulistana.

Post author Wilson H. da Silva,
de São Paulo (SP)
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