Punir os que patrocinaram e se beneficiaram com o golpe

O golpe de 1964 foi um movimento imperialista, tendo a frente os militares como instrumento à serviço do capital financeiro e industrial.

O dinheiro que o patrocinou vinha via IBAD e IPES, coordenado pelo general Golbery de Couto e Silva. Financiavam campanhas parlamentares com contribuições dos bancos Royal Bank of Canada, Bank of Boston e First National City Bank. Sgundo René Armand Dreifus, várias multinacionais depositava na sua conta, Entre elas estavam empresas como Texaco, Shell, Esso Brasileira, Standard Oil of New Jersey, Texas Oil Co, Gulf Oil Bayer, Enila, Shering, , General Eletric, IBM, Coca-Cola, Cia de Cigarros Souza Cruz, Belgo Mineira, General Motors, Willy Overland e o IBEC.

Destas empresas vinha também o dinheiro para subornos dos agentes do Estado, empresas como General Eletric, Ericsson, Goodyear, Lockheed e Coca-Cola foram denunciadas por corromper funcionários do governo Geisel.

Segundo o depoimento do ex-governador Paulo Egydio Martins, o apoio financeiro por parte de empresários conspiradores serviu para reequipar o II Exército, dando condições para que as tropas seguissem para o sul do país, com o objetivo de enfrentar o III Exército que, sob a influência de Leonel Brizola, poderia resistir ao golpe. “Esse grupo que reequipou o II Exercito através de contribuições de empresas paulistas”, revela Jorge José de Melo no seu trabalho Boilesen um empresário da ditadura: a questão do apoio do empresariado paulista à OBAN/Operação Bandeirantes, 1969-1971.

SUSTENTANDO OS APARATOS DE REPRESSÃO
As multinacionais e a grande burguesia brasileira não somente apoiaram o golpe de 1964, mas também sustentaram os setores mais nefastos da repressão durante a ditadura. Para entender o que significa isso basta lembrar que os paramilitares tinham fazendas, sítios e bases clandestinas para cometer suas atrocidades.
A Casa da Morte em Petrópolis teve seu aluguel pago regularmente. O delegado Sergio Fleury arregimentou dinheiro com seus patrocinadores para comprar sítio 31 de março em Parelheiros, onde muitos militantes foram mortos.

Em São Paulo, também havia uma casa na Avenida 23 de maio, e um sítio na região de Atibaia. Assim como foram denunciados um sítio em Sergipe, usado pela repressão de Salvador; um apartamento em Goiânia; e uma casa no Recife.

Os que agiam nestes grupos ilegais, e os voluntários, recebiam recompensas, gratificações, salários complementares, abonos e comissões. Inclusive com contas clandestinas, com nomes frios, nos bancos que os patrocinavam.

Se estes agentes fossem denunciados e demitidos tinham seus empregos garantidos em empresas de segurança e em multinacionais. Há casos de “cachorros” que tiveram o mesmo destino. Afinal como sobrevive o Cabo Anselmo até hoje em seu esconderijo.

O PATROCINIO DA OBAN
O patrocínio da sangrenta Operação Bandeirantes (OBAN) foi realizado diretamente pelos empresários paulistas, com a coordenação da FIESP. Seu presidente, Theobaldo de Nigris, cedia a sede da entidade para reuniões arrecadatórias.

O próprio presidente Ernesto Geisel admitiu: “Houve muita colaboração entre o empresariado e os governos estaduais. A organização que funcionou em São Paulo, a OBAN, foi obra dos empresários paulistas”.

Os jornais também sustentavam a repressão. Grandes meios como os Diários Associados, Jornal do Brasil , Rede Globo, O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo .
O delegado José Paulo Bonchristiano declarou que Roberto Marinho, “passava no DOPS para conversar com a gente quando estava em São Paulo”. Também afirma que podia telefonar a qualquer hora para Octávio Frias de Oliveira, dono da Folha de S. Paulo “para pedir o que o DOPS precisasse”.

O documentário “Cidadão Boilesen” na mesma linha, quando menciona que a Folha, de Frias, cedia automóveis para serem utilizados por agentes da repressão em ações de campana, busca e captura de militantes de organizações políticas. Ações confirmadas por Élio Gáspari em seu livro Ditadura Escancarada.

Bancos como o Itaú de Olavo Setúbal, Bradesco de Amador Aguiar e Sudameris também estavam envolvidos. “Banqueiros como Amador Aguiar, Gastão Vidigal, Moreira Salles sempre foram extremamente cooperativos com o governo. Se o governo queria baixar a taxa de juros, conversava com eles e o que a gente prometia, cumpria”, revela Percival de Souza em Autópsia do Medo.

Bonchristiano descreve que quando montou a Polícia Federal, em São Paulo, Amador Aguiar, cedeu uma ala de seu banco para funcionar lá provisoriamente e “mandou caminhões do Bradesco carregados com o que fosse necessário para montar a delegacia da Polícia Federal na rua Piauí”.

Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, do Banco Mercantil promovia reuniões no Clube Paulistano, para arrecadar fundos para a OBAN.

O coronel Vernon Walters convocou o instrutor de tortura internacional, Dan Mitrione, a pedido de Magalhães Pinto, dono do Banco Nacional, para treinar 10 mil homens da PM de Minas Gerais. Magalhães, financiou do próprio bolso o treinamento.

Na Volkswagen trabalhavam 150 guardas fardados e armados sob o comando do coronel Rudge, grande amigo do coronel Erasmo Dias; na Fiat era hábito entregar à delegacia de polícia operários que brigavam com a chefia; na Telefunken as viaturas do exército ficavam no pátio; na Caterpillar os patrões avisavam os membros da Comissão de Fábrica que seus nomes estavam prontos para irem para o SNI. Fazem parte também desta tenebrosa lista a GM, a Ford, e a Mercedes Bens.

O Grupo Ultra, hoje um dos maiores grupos empresariais privados do Brasil, teve entre seus diretores o dinamarquês Henning Albert Boilesen, presidente da Ultragaz, financiador da OBAN, auxiliar direto de torturas, justiçado por militantes da luta armada. Trabalhava junto com Peri Igel, dono da Supergel empresa de alimentos congelados que fornecia refeições a OBAN.

Norberto Odebrecht (Odebrecht), e Sebastião Camargo (então presidente da Camargo Correa) contribuíam financeiramente com a repressão. Em troca, receberam benefícios do governo por meio de concorrências fraudulentas, isenções fiscais e empréstimos.
Post author Asdrúbal Barboza, do Instituto Latino-Americano de estudos Socioeconômicos (ILAESE)
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