Operação Lótus: Convergência Socialista na mira da ditadura

Nas vésperas do primeiro de maio de 1977, ativistas sindicais e militantes foram presos distribuindo panfletos. Todos foram barbaramente torturados e depois processados pela Justiça Militar, enquadrados na famigerada Lei de Segurança Nacional (LSN). Incomunicáveis, corriam risco de morte nas mãos da polícia, que até então não reconhecia as prisões.

A Liga Operária (LO) buscou apoio no movimento de massas, especialmente no movimento estudantil. A resposta dos estudantes foi imediata. Emerge então uma campanha de calúnias contra a LO. O odioso delegado Sergio Paranhos Fleury acusa a organização de “atuar na luta armada” e de praticar “justiçamento”. O secretário de Segurança de São Paulo, coronel Erasmo Dias, assegurava que as prisões eram o início da “devassa no mundo da subversão”.

CONVERGÊNCIA SOCIALISTA
Em janeiro de 1978, na PUC-SP, a LO lançou o Movimento Convergência Socialista (MCS), que tinha como objetivo fundar um Partido Socialista legal. O movimento era apoiado pelo jornal Versus que publicava um folheto (Versus Especial – A Palavra da Convergência Socialista).

Em agosto, com o objetivo de discutir o programa e lançar o Partido, realiza-se a primeira convenção nacional que reune 1.200 pessoas, com mais de 300 delegados, de oito estados.

Dois dias depois, os órgãos de repressão abortam este processo. O operativo vinha sendo preparado há um ano pelos órgãos repressivos e tinha o nome de Operação Lótus. Ela resultou na prisão de boa parte do Comitê Central e dirigentes internacionais. Dentre eles Nahuel Moreno, que correu um grave perigo. A Argentina vivia sob uma ditadura genocida, que massacrou mais de 30 mil militantes políticos. Moreno, conhecido dirigente socialista, estava exilado na Colômbia. Se fosse deportado para a Argentina, seria certamente assassinado.

Os presos iniciaram uma greve de fome para exigir que ele fosse enviado de novo à Colômbia e a libertação de todos. A greve durou 14 dias, instalada no DCE da PUC-SP e na Arquidiocese de Nova Iguaçu e se deu junto com uma enorme campanha internacional. Contou com pronunciamentos dos parlamentos nacionais da Espanha e de Portugal, e com mensagens pela libertação como do escritor Gabriel García Márquez.

Um mês depois da prisão, Moreno foi expulso para a Colômbia. Os dez presos da CS passaram do DOPS, pelo presídio Tiradentes e do Barro Branco. Foram libertados em dezembro de 1978.
A LO foi atacada pela repressão não porque “atuava na luta armada”, de acordo com a versão da repressão. Mas sim por buscar se implantar no movimento de massas, em especial entre os operários que, pouco depois, iriam protagonizar a luta que marca a derrocada da ditadura.

REPRESSÃO A IMPRENSA SOCIALISTA
No marco do ataque à imprensa alternativa, contra jornais como o Pasquim, Opinião e Movimento, a Operação Lótus atacou os veículos de comunicação da CS.

Em setembro de 1978, o delegado Edsel Magnotti, diretor do DOPS-SP e antigo discípulo do torturador delegado Fleury, envia um ofício ao delegado Regional do Trabalho solicitando fiscalização junto à sede do jornal Versus. Em seguida, o jornal foi atingido por uma bomba e coberto por pichações.

Em março de 1979, os diretores e redatores do jornal Convergência Socialista são vítimas de um Inquérito Policial Militar (IPM) para “investigar” a atividade das organizações de esquerda no movimento grevista dos metalúrgicos do ABC. Em 1980, a CS sofre um atentado a bomba na sede do Rio de Janeiro, e em 3 de agosto, uma bomba é lançada na sede de Santo André.

Esses episódios mostram bem a relação entre os grupos de ultra-direita e os órgãos oficiais de repressão.

Depois de três anos de perseguições e estrangulamento financeiro e contábil, o Versus não resiste e fecha por problemas financeiros. É constituída, então, a Editora ACS Ltda. que continua a publicar o jornal Convergência Socialista.

Durante toda a ditadura o Estado violou sistematicamente o direito de organização e expressão contra a Convergência Socialista por parte dos órgãos repressivos, torturando, infiltrando agentes do Estado e espionando as atividades da organização.

O resultado de toda perseguição política foram dezenas de presos, torturados, demitidos, militantes obrigados a uma vida clandestina ou semi-clandestina, mudar de cidades várias vezes, sem possibilidades de exercer suas profissões ou mesmo estudar.
Post author Américo Gomes, José Welmowich e Bernardo Cerdeira, da Comissão de presos e perseguidos políticos da
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