Por que Salvador parou?

Estação da Lapa vazia, na capital baiana

Greve dos rodoviários muda rotina da cidade e expõe a irresponsabilidade dos patrões, da prefeitura, e do governo do estado.Pontos lotados sem proteção contra o sol e a chuva, longa espera pelos ônibus, trabalhadores indignados com um péssimo serviço de transporte. Não, isso não é o panorama de Salvador desde que teve início a greve dos rodoviários. Essa é a “normalidade” defendida e imposta pela prefeitura e o SETPS a nós trabalhadores e trabalhadoras. Todos os dias a rotina de quem necessita do transporte coletivo na 3ª maior capital do país é uma verdadeira prova de resistência. A espera é sempre muito longa, os ônibus sempre lotados são sujos e não oferecem um mínimo de dignidade, além do transito infernal com seus congestionamentos espalhados por toda cidade em qualquer hora do dia. Pra completar esse quadro caótico e desesperador ainda somos obrigados a pagar uma das mais caras tarifas entre as capitais brasileiras.

Não é preciso ser especialista. Qualquer jovem ou trabalhador sabe que o transporte público em Salvador é de péssima qualidade. Todos tem na ponta da língua um enorme roteiro de críticas relacionadas a esse verdadeiro desrespeito ao qual somos expostos diariamente. O transporte público de massas é uma obrigação dos governos, e é dever das prefeituras zelar pela sua qualidade. Mas ,em Salvador, assim como na absoluta maioria das grandes cidades brasileiras, essa tarefa foi entregue à iniciativa privada. O problema é que para empresário, o usuário não passa de um número. O objetivo destes senhores do SETPS é engordar suas contas bancárias e lucrar, lucrar muito as nossas custas.

Os reais motivos da greve
Se o dia a dia dos usuários do sistema de transporte coletivo de Salvador é sofrível, as condições daqueles que trabalham nele são ainda piores. Os rodoviários tem uma jornada de trabalho extenuante, sofrem assédio moral dos seus supervisores para cumprirem com os horários, são submetidos diariamente ao stress do trânsito caótico de Salvador, e vem sofrendo sucessivos cortes de direitos e achatamento dos seus salários. Isso acontece porque a formula tarifa absurda para os usuários + rodoviários mal remunerados e precarizados é fundamental para garantir os lucros dos patrões.

A greve que se iniciou à 0h da última quarta 23/05 é fruto da vontade da categoria de dar uma basta a esta situação, como o próprio slogan da campanha do SINTRO-BA (Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários da Bahia) diz “Quem carrega vidas merece respeito”. Para repor as perdas salarias dos últimos anos, os trabalhadores reivindicam um aumento salarial de 13,8%, aumento no ticket alimentação e volta do direito ao quinquênio. A arrogância dos patrões é tamanha que a contrapartida oferecida, 4,9%, é inferior à inflação. Na prática isso significa nenhum aumento real para categoria.

A prefeitura de João Henrique tem sido uma grande aliada do SETPS. Como se não bastasse a ausência completa de qualquer tipo de fiscalização que obrigue as empresas a prestar um serviço de qualidade, ano após ano o prefeito e seus vereadores presenteiam os empresários com reajustes injustificáveis da tarifa de ônibus. Por outro lado, quando entram em cena os trabalhadores e suas reivindicações, a prefeitura desaparece, os vereadores se omitem, e a única saída que resta aos trabalhadores é ir à greve.

A imprensa contra os trabalhadores
Desde o dia 23, a grande mídia tem dado enorme destaque à greve. As matérias dos jornais, as entrevistas, os editoriais apontam todos para o mesmo sentido: demonstrar os transtornos causados pela ausência dos ônibus e questionar o “radicalismo” dos rodoviários. Jogar trabalhador contra trabalhador tem sido uma tática recorrente dos governos e patrões, apoiados na grande mídia, para tentar deslegitimar movimentos grevistas. Essa tem sido a postura de Wagner frente à heróica greve dos professores estaduais e foi assim também com a greve dos PM’s.

Os trabalhadores indignados com o caos instaurado desde ontem precisam ter a certeza que os responsáveis pela greve são os patrões, a prefeitura e o governo do estado. Estes senhores poderiam ter atendido as reivindicações dos rodoviários, mas preferiram pagar pra ver. Agora com a greve em curso se utilizam da imprensa para jogar a opinião pública contra os grevistas.

População entregue à própria sorte
Com a greve instaurada, os trabalhadores tentam de alguma maneira seguir com os seus compromissos. A saída encontrada tem sido o uso do transporte clandestino. Desde ontem, vans e carros particulares atravessam a cidade oferecendo o serviço de transporte à população com a conivência das autoridades. A AGERBA, Agência Estadual que fiscaliza os transportes, e a TranSalvador decidiram liberar o transporte clandestino durante a greve. A hipocrisia dos governos estadual e municipal é tamanha que ao mesmo tempo em que questionam na justiça a legitimidade da greve liberam a prática ilegal do transporte clandestino. “Não vamos para rua fiscalizar porque seria um contrassenso. Não que eu seja favorável, não que eu ache bom. Mas com o impasse terrível da greve, o cara tem que se virar de qualquer jeito. Ou é isso, ou para o estado” afirmou Eduardo Pessoa, diretor executivo da AGERBA em entrevista ao Jornal Correio da Bahia.

Ao invés de atender as reivindicações dos rodoviários e garantir a volta do transporte regular, os governos expõem a população aos riscos de uma modalidade de transporte que não tem a menor fiscalização e segurança. Wagner e João Henrique devem ser responsabilizados pelos riscos que estão expondo os trabalhadores.

A Justiça mais uma vez se solidariza com os patrões
A Justiça entrou em cena para tentar intermediar o conflito. A proposta rebaixada de consenso feita pelo Tribunal Regional do Trabalho de 8,5% foi rechaçada pelos patrões. Ao invés de impor restrições à patronal e frente à inevitabilidade da greve, a saída do TRT foi encaminhar um golpe aos rodoviários exigindo que, em caso de greve, 40% da frota deveria ser mantida nas ruas e 60% nos horários de pico. O descumprimento dessa portaria resultará em multa ao sindicato. O PSTU repudia o posicionamento da Justiça e parabeniza os rodoviários pela bravura e determinação de manter 100% da frota parada!

Cercar a greve de solidariedade e derrotar os patrões
A única solução para a volta dos ônibus às ruas deve ser o cumprimento das reivindicações apresentadas pelos trabalhadores. Neste sentido, os partidos e organizações da esquerda, além das Centrais e os sindicatos devem se perfilar junto aos rodoviários e cobrar uma ação imediata da prefeitura e do governo do estado.

Se o SETPS alega não ter dinheiro para atender a pauta dos trabalhadores e também justifica a péssima qualidade do serviço de transporte como um problema de receita, está mais do que na hora de por em pauta a necessidade de reestatizar o transporte coletivo de Salvador.

A privatização do transporte público não trouxe nenhum benefício para os trabalhadores. Com a reestatização será possível combater problemas crônicos menosprezados pelos empresários que só se interessam em aumentar suas taxas de lucro. Com o fim do controle do SETPS, poderemos diminuir radicalmente o preço da tarifa, acabar com as filas, com a superlotação e atender de maneira digna os jovens e trabalhadores que dependem diariamente deste serviço.