Polícia indicia 37 pela ocupação da Aracruz Celulose

Perseguição atinge também Stédile, dirigente do MSTNo dia 7 de abril, a polícia gaúcha indiciou 37 pessoas pela ocupação do horto florestal da Aracruz Celulose, ocorrida no dia 8 de março. O ato foi organizado pelo Movimento das Mulheres Camponesas, que faz parte da Via Campesina, e contou com a participação de 2 mil mulheres que participavam de um fórum sobre reforma agrária em Porto Alegre.

Um dos indiciados foi o dirigente nacional do MST João Pedro Stédile, por ter declarado seu apoio ao protesto. A polícia também pediu a prisão preventiva de seis pessoas. Os indiciados são acusados dos crimes de dano qualificado e cárcere privado, cada um passível de pena de três anos de reclusão.

A empresa Aracruz Celulose alega que a ocupação e a destruição de laboratórios e equipamentos causaram um prejuízo em cerca de US$ 20 milhões. Omite-se aqui os prejuízos da Aracruz ao meio ambiente e às comunidades indígenas. A Aracruz, não sofrerá nenhum indiciamento por ter mobilizado um enorme aparato policial para destruir aldeias e expulsar 50 indígenas de suas terras no dia 20 de janeiro, deixando 12 feridos. A empresa também coleciona denúncias de desrespeito aos indígenas e agressões ao meio ambiente, mas o governo parece não se importar: o BNDES destinará quase R$ 300 milhões a empresa.

A manifestação das mulheres da Via Campesina, no 8 de março, teve como objetivo denunciar os crimes ambientais e sociais de empresas como a Aracruz. Foi uma crítica ao agronegócio, uma defesa da agricultura camponesa, da reforma agrária e da preservação da biodiversidade. Só para ter uma idéia, a Aracruz gera apenas um emprego a cada 185 hectares plantados com eucalipto, enquanto a agricultura camponesa gera no mínimo um emprego por hectare.

Arbitrariedade
As represálias contra o protesto das mulheres da Via Campesina não se restringiram à campanha contrária da imprensa e aos indiciamentos policiais. No dia 21 de março, o delegado de polícia de Camaquã, Rudimar de Freitas Rosales, acompanhado de seis agentes policiais, protagonizou prisões violentas na casa da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais, em Passo Fundo (RS).

Os policiais arrombaram o portão, invadiram o espaço da Associação empunhando armas de fogo e renderam sete mulheres e uma criança, encurralando-as na cozinha. Os policiais sequer se identificaram e não apresentaram nenhum mandado naquele momento. O mandado só foi mostrado depois da arbitrariedade.

Os policiais reviraram tudo, desde a secretaria da associação, até a cozinha, área de serviço, quartos, as sacolas das mulheres. Levaram computadores, CDs, disquetes, passagens urbanas e interurbanas, dinheiro, talões de cheques, todos os documentos da Associação, pastas com os projetos e prestações de contas, cadernos e anotações, símbolos da Associação e nem fizeram uma relação do que foi apropriado pela polícia.

O delegado fez a intimação para que todas se apresentassem para depor no mesmo dia, obrigando-as a assinar a intimação e forçando-as a depor sem a presença de um advogado. As mulheres só tiveram permissão para contatar o advogado 1 hora e 20 minutos após a invasão.

Criminalização dos movimentos sociais
Além dos indiciamentos policiais relacionados ao protesto de Aracruz, outros 800 integrantes do MST deverão ser indiciados em inquérito policial instaurado pelo delegado de Carazinho (RS), Danilo Flores. As acusações estão relacionadas a diversas ocupações de terra desde 2004 na fazenda Coqueiros, em Coqueiros do Sul.

O Rio Grande do Sul não é o único local em que se dá um movimento do estado de criminalização dos movimentos sociais e de perseguição aos sem-terra. Em todo o país, as instituições, dentre elas as forças armadas, estão a serviço do capital. Durante o governo Lula, isso não só não mudou como se aprofundou.

Em retribuição às gordas contribuições de campanha que a empresa deu a Lula e outros candidatos petistas nas eleições (foram mais de R$ 322 mil só na campanha de 2004), o governo respalda as perseguições políticas e investe dinheiro público nas atividades da Aracruz, apoiando o crescimento dos ‘desertos verdes´. Nos últimos 3 anos, apenas a Aracruz Celulose, que tem cerca de 250 mil hectares com eucalipto plantados no Brasil, recebeu do governo brasileiro quase R$ 2 bilhões.

Os recentes indiciamentos e a onda geral de perseguição aos movimentos demonstram que objetivo dos governos e das investigações policiais é incriminar lideranças. No caso de Aracruz, há uma clara campanha, assumida inclusive pela grande mídia, para negar a legitimidade da luta coletiva de mais de 2 mil mulheres contra uma grande empresa. É preciso cercar de solidariedade os movimentos que lutam pela reforma agrária e todos os lutadores, grevistas, militantes, que dão suas vidas nas lutas da classe trabalhadora.

SAIBA MAIS

  • O que são os `desertos verdes`?