Os interesses de Washington na Somália

Em dezembro de 2006, forças do governo interino da Somália, apoiadas pela Etiópia e pelos EUA, expulsaram da capital, Mogadíscio, a União das Cortes Islâmicas (UCI), milícia que controlou a cidade por seis meses, entre junho e dezembro de 2006. Esse recente episódio expõe mais uma vez a ingerência norte-americana no estratégico Chifre africano.

Perda de influência
Desde a queda do último governo da Somália, em 1991, o país vivia sob o regime dos líderes clânicos, que exerciam o poder com base no terror.

Nesse cenário, surge a UCI com o objetivo impor uma república islâmica. O grupo organiza uma guerrilha e toma a capital. Preocupados com o crescimento da influência da UCI, os Estados Unidos, por meio da CIA, organizam e financiam milícias para derrotá-la ou forçá-los a um processo de negociação.

O interesse do imperialismo pela região é de longa data e se justifica pelo fato do país se localizar numa região estratégica do continente. A Somália fica próxima ao Golfo Pérsico, na rota utilizada pelos países produtores de petróleo do Oriente Médio. O país africano também é próximo ao Canal de Suez, que permite a ligação entre o mediterrâneo e o Oceano Índico.

Por outro lado, a União Européia, em especial a Itália, também defende seus interesses no país africano em setores econômicos como telecomunicações e cultivo da banana. Todos esses interesses do imperialismo ianque e europeu encontram respaldo em grupos internos e nos líderes clânicos do país, constantemente manipulados para defender os interesses coloniais na região.

Histórico de ingerência
A Somália é um dos países mais miseráveis da África. Cenas como as de crianças esquálidas morrendo de fome tornaram o país tristemente famoso nos anos 1980. No entanto, a responsabilidade dessa situação recai sobre as principais potências imperialistas que têm um vasto histórico de ingerência sobre a região. No século XIX, o território somali foi dividido por França, Grã-Bretanha e Itália. Embora tenha conquistado a independência nos anos 1960, o país sempre foi usado como um joguete dos interesses do imperialismo e da burocracia soviética ao longo do século XX.

Nos anos 1980, a Somália foi mergulhada num cenário de fome e de ações de banditismo, apresentando um êxodo de 2 milhões de pessoas. Ao longo dessa década, uma sucessão de governos imperou no país. A situação se tornou ainda mais caótica em 1988 e 1989. Sob a cobertura da ONU, embargos à ajuda humanitária foram impostos.

O caos político foi acompanhado por seca, fome e epidemias. O território árido somali, sem os cuidados necessários, não permite ter uma produção agrícola regular, condição agravada pelo caos instaurado.

A produção do país restringia-se à plantação de banana – seu produto de exportação – e a outras frutas. Grande parte da produção de alimentos não atendia ao consumo interno, pois era destinada ao mercado internacional. Assim, 70% da população somali era nômade em 1994-95, de acordo com os dados da CIA.

Numa nova manipulação dos clãs do país, o imperialismo resolveu patrocinar uma intervenção militar, sob a cobertura da ONU, em 1992. Exércitos de vários países foram escalados para formar a força de ocupação. Os EUA, na época sob o governo Clinton, foi um dos países que mais enviou soldados.

Mas a presença dos “Capacetes Azuis” não trouxe uma migalha de paz à região. Pelo contrário. No dia 5 de junho de 1993, a ONU sofreu as primeiras baixas em combate, uma unidade do Paquistão encarregada de desarmar as milícias somalis foi emboscada, onde 25 soldados paquistaneses foram mortos, 10 desapareceram e 54 foram feridos.

Em seguida, os EUA lançaram-se na caçada ao General Aiddid, líder clânico acusado pelo imperialismo de realizar distúrbios na capital. Os serviços de inteligência das Forças Armadas ianques descobriram que, em 3 de outubro de 1993, haveria uma reunião da cúpula de Aiddid no centro da capital. Soldados, apoiados por helicópteros, se deslocaram até local para capturar Aiddid e seus homens.

A operação, porém, terminou num desastre completo para as forças norte-americanas, que foram emboscadas e sofreram várias baixas. No total, os norte-americanos perderam 18 Rangers e dois membros da Força Delta, além de membros de duas tripulações de helicópteros do Exército dos Estados Unidos da América abatidos. Esse episódio levou a opinião pública dos EUA a se perguntar sobre quais as razões do país estar envolvido nesse conflito. A pressão sobre o governo Clinton e a cenas dos corpos dos soldados esquartejados levaram o imperialismo a retirar as tropas do país no ano seguinte. No entanto, a sanha imperialista continuaria a desestabilizar a região.

Limitações
A derrota militar de 1993 – retratada por Hollywood no filme Falcão Negro em Perigo – impediu uma nova intervenção direta imperialista na Somália. A atual crise que o governo Bush vive no Iraque, tampouco permite um deslocamento de tropas para a região.

Nesse quadro, Bush teve de apelar para o governo da Etiópia, seu aliado na região. As tropas de ocupação não têm prazo para se retirar. No início de dezembro, a ONU aprovou o envio de 8 mil homens da União Africana à Somália, numa nova “missão de paz” em socorro a Washington. O episódio da Somália revela, na verdade, a fragilidade do imperialismo em controlar a região, em boa medida por conta da guerra.