Rio de Janeiro RJ 27 08 2018 Guilherme Boulos ,candidato a presidencia pelo PSOL durate campanha no Rio de Janeiro ao lado de candidato a deputado federa lMarcelo Freixo foto Campanha

Em meio a uma explosiva situação social, o PT e o PSOL se movimentam, fixados nas eleições de 2022. O PT se fortaleceu com a liberação de Lula, novamente viável como candidato a presidência. E está buscando costurar uma “Frente Ampla”, que inclua partidos tradicionais da burguesia, negociando com siglas como o PSDB e o DEM. Não foi por acaso que o ato de 1º de maio promovido pela CUT, Força Sindical e outras centrais, incluiu FHC e Ciro PDT). O presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM) e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), foram convidados, mas não compareceram.

O PT argumenta que a essa frente amplíssima é para derrotar Bolsonaro. Lula está tentando esvaziar a movimentação da grande burguesia para encontrar um candidato liberal de direita, como Luiz Henrique Mandetta (ex-ministro da Saúde de Bolsonaro), Ciro, Doria (governador tucano de São Paulo) ou outro. Ou, pelo menos selar, desde agora, um acordo para um segundo turno, atrelado a um projeto de governo de unidade nacional

No campo do PSOL já está instalado um debate público sobre o tema. A maioria da direção defende o apoio a Lula já no primeiro turno. A isso se somam negociações para os governos estaduais.

No Rio de Janeiro, Marcelo Freixo anunciou a defesa de uma frente com Eduardo Paes (DEM) e Rodrigo Maia para o governo do estado. Lula já manifestou apoio a Freixo. Em São Paulo, Boulos anunciou sua intenção de ser candidato da frente eleitoral capitaneada por Lula. Logo depois, o psolista foi aos Jardins, jantar e conversar com Marcos Pereira, presidente do Republicanos, partido ligado á Igreja Universal e que abriga os filhos de Bolsonaro. Depois, discutiu com o PT , PCdoB e PSB. Essas movimentações levaram a distintas declarações de setores da esquerda do PSOL.

Da crise atual às eleições

Vivemos uma crise social e política gigantesca. Os efeitos de um dos maiores desastres sanitários da historia se somam à dura crise econômica, causando miséria e fome. A polarização política vai crescendo, com a passagem para a oposição da maioria dos trabalhadores e da classe média, e um aumento do ódio contra Bolsonaro, que, contudo,  mantém uma base de apoio minoritária, não desprezível.

Os trabalhadores estão em uma situação defensiva. Sofrem um ataque brutal e, nesse momento, a possibilidade de grandes mobilizações é bloqueada por temor ao desemprego e a luta pela sobrevivência na pandemia. Muitos estão enterrando seus mortos, abalados por suas perdas e buscando sobreviver como dá. O ódio cresce, mas sem gerar grandes mobilizações, ao menos até o momento

PT, a maioria da direção do PSOL, a CUT e as demais Centrais (com exceção da CSP-Conlutas e da Intersindical – Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora) não ajudam a fortalecer as mobilizações e a construir uma Greve Geral Sanitária. Ao contrário, jogam a favor de apontar para as eleições de 2022

Pode ser que exista uma grande explosão social, como ocorreu no Chile ou nos EUA? Pode acontecer, pela gravidade da situação e porque a classe não está derrotada, como mostra a greve das fornecedoras da LG e da própria LG, na região de São José dos Campos (SP). Mas isso não está assegurado. A conjuntura defensiva favorece a política das direções majoritárias, com a canalização de toda essa insatisfação para as eleições de 2022.

O peso da candidatura Lula

A seu favor, Lula conta com o crescente anti-bolsonarimo, que deve aumentar até as eleições. Além disso, o governo Lula está na memória das massas, não apenas pela corrupção, mas também pelo crescimento econômico daquele momento, bem distinto da crise atual.

Nada está assegurado em termos eleitorais. Estamos longe de 2022. Tanto pode haver uma explosão social, como o próprio Bolsonaro pode recuperar parte de seu prestígio. Mas é inegável que o argumento “é preciso derrotar Bolsonaro” vai ter eco nas massas. E pode ser majoritário.

Também, caso a alternativa da “terceira via” da burguesia não vingue, Lula pode ter sucesso em obter apoio majoritário do grande capital e pode chegar às eleições como expressão de um governo de “unidade nacional” contra Bolsonaro. Ele está disposto a tudo para concretizar esta hipótese, como declarou em entrevista, no dia 17 de abril, à agência de notícias “Al Jazzera”: “Os empresários brasileiros, os donos de fundos, os banqueiros deveriam estar todo dia fazendo uma reza e pagando promessa para que eu voltasse a governar o Brasil.”

A maioria da burguesia pode aceitar essa proposta. Basta lembrar que, nos oito anos dos governos de Lula, os lucros dos bancos foram de R$ 254,76 bilhões, quatro vezes mais que os R$ 63,63 bilhões dos dois governos FHC.

Concordamos que é necessário derrotar Bolsonaro. É por isso que estamos na linha de frente da defesa de um movimento de massas para derrotá-lo através das mobilizações de massas. Polemizamos com o PT e a direção da CUT porque eles querem levar tudo para as eleições. Também achamos importante derrotar Bolsonaro nas eleições de 2022, quando chegar a hora. Mas não para respaldar outro governo burguês, apoiado pela burguesia e o imperialismo, como se anuncia, num possível novo governo PT. Mais uma vez, como foi nos anos de governos petistas, as grandes empresas que apoiaram Bolsonaro nos últimos anos seguirão mandando.

Os debates no PSOL

As polêmicas das correntes do PSOL são públicas. E, evidentemente, o que está em debate, tanto em nível nacional quanto nos estados, não é apenas uma tática eleitoral. A discussão é sobre o fato do PSOL aceitar, ou não, ser parte de um governo nacional, assim como estaduais (como no Rio de Janeiro e São Paulo, dentre vários outros), junto com o PT e partidos da burguesia.

O debate ao redor da proposta de Freixo, no Rio, já evoluiu para uma crise, em função da proposta de bancar uma frente com Eduardo Paes e Rodrigo Maia, do DEM. Boulos faz movimentos para ser o candidato da frente em São Paulo, e, com o encontro com Marcos Pereira, já sinalizou sua disposição em ter a mesma “fexibilidade” de Freixo.

A participação do PSOL em governos juntamente com a burguesia não seria exatamente uma novidade, porque, em nível municipal, já se deu, como nas alianças para a prefeitura de Macapá (AP). Já em Belém (PA), Edmilson Rodrigues faz um governo estreitamente ligado ao governador Elder Barbalho, do PMDB. Porém, em nível nacional, o PSOL, até hoje, não fez parte dos governos do PT, nem nos estados. Seria uma importante mudança de rumos.

O PSOL é essencialmente um partido eleitoral, que defende reformas nos limites do sistema capitalista e da democracia burguesa. Não é um partido revolucionário e nem mesmo um partido centrista; ou seja, que possa vir a oscilar entre a revolução socialista e a manutenção da democracia burguesa. À semelhança do Syriza (Grécia) ou do Podemos (Estado Espanhol), o PSOL é um partido eleitoral, que se propõe, como seus similares europeus, a compor um governo com o PT, de aliança com a burguesia. Mas, vale ressaltar, o PSOL, hoje ocupa um papel importante, capitalizando o desgaste do PT, conseguindo aglutinar setores importantes de vanguarda.

Sabemos que na base do PSOL há muitos ativistas que são socialistas, querem acabar com o capitalismo e acreditam que o PSOL é (ou pode vir a ser) um instrumento para essa luta. Mas é um fato que a direção deste partido, assim como as suas principais correntes internas, estão concentradas na busca de alternativas para as eleições, mesmo diante desta situação dramática do país .

As concepções de “Frente” do Resistência e do MES

Uma das interessantes polêmicas internas do PSOL é a que envolve Valério Arcary, figura pública da Resistência, parte do setor majoritário da direção, e Roberto Robaina, principal dirigente do Movimento Esquerda Socialista (MES), da ala esquerda do partido.

Valério defende que o PSOL apoie Lula já no primeiro turno, “defendendo um programa anticapitalista”. Roberto defende que o PSOL lance candidatura própria, caso não se conclua uma aliança da “esquerda e centro-esquerda”, que envolva o PT e o PDT. O debate é interessante porque envolve correntes que têm uma origem e se julgam trotsquistas.

Valério caracteriza que Lula não vai poder atrair nenhum setor de peso da burguesia. “Mas nenhum setor da classe dominante parece disposto, por enquanto, porque mantém a defesa do projeto estratégico de reposicionamento no mercado mundial para atrair investimentos. Uma solução possível para Lula seria encontrar um aventureiro que pudesse simbolizar a aliança como uma ‘sombra’ da burguesia, ou o lançamento de uma nova ‘Carta aos brasileiros’, imitando a iniciativa de Palocci em 2002”, escreveu o militante do Resistência/PSOL, no artigo “Por uma Frente Única com um programa anticapitalista”, publicado em 23 de abril.

Realmente, não se sabe como Valério chega a essa conclusão, contrária aos fatos. Mas logo se entende, ao vermos que ele defende uma “frente única” contra Bolsonaro, capitaneada por Lula, com “um programa anticapitalista”.  Valério, surpreendentemente, justifica essa tática citando Lênin: “Essa é a maior lição que herdamos de Lênin. Esse foi o segredo da política bolchevique entre fevereiro e outubro. Lênin e Trotsky defendiam a agitação de todo o poder aos sovietes. Quem dirigia os sovietes? As lideranças moderadas mencheviques e esseristas.”

Em primeiro lugar, Valério sabe muito bem que não existe nenhuma hipótese de uma candidatura Lula com um programa anticapitalista. O PT e Lula governaram o país durante 14 anos, com um programa inteiramente capitalista e social liberal. Lula está, ativamente, buscando acordos ainda mais amplos com setores pesados da burguesia e seus partidos.

Esse fato, presente todos os dias no noticiário, não existe nos textos de Valério. Na verdade, o “programa anticapitalista” é mera desculpa para justificar o apoio a Lula; pois, além do Valério, poucos apoiadores de Lula, por mais fervorosos que sejam, têm a ilusão de que Lula defenda tal programa.

A comparação com a tática bolchevique de “todo o poder aos sovietes” é, ainda, mais deslocada. Não se trata só da comparação entre duas realidades distintas, entre o processo revolucionário de fevereiro a outubro de 1917, na Rússia, e a conjuntura brasileira.  O poder para os soviets não era a defesa de um governo com a burguesia. Muito pelo contrário. Era um governo de ruptura com a burguesia, inclusive na via da destruição do Estado da burguesia, para impor o poder do proletariado e dos camponeses.

Além disso, é a extensão, para o terreno eleitoral, da tática da frente única que os bolcheviques aplicaram para a luta direta. A tática da frente única nas lutas diretas é muito importante, porque, caso se concretize, fortalece as lutas. Caso as direções reformistas neguem, se desgastam perante as massas. Nas eleições burguesas, o critério, em geral, é completamente distinto, segundo Lênin, sendo fundamental apresentar o programa dos partidos revolucionários, e não a unidade eleitoral. Como dizia Trotsky:

Vale lembrar, aqui, a tradição trotsquista. “Marchar separadamente, lutar juntos. O bloco é unicamente para ações práticas de massas… A ideia de propor o candidato à presidência pela frente única operária é uma ideia radicalmente errônea. Só se pode propor um candidato em base de um programa definido. O partido não tem o direito de furtar-se, durante a eleição, de mobilizar os seus simpatizantes e de contar as suas forças”, escreveu Leon Trotsky, em “Como esmagar o fascismo” (1931).

Além disso, é preciso um mínimo senso de proporções. Essa discussão feita por Valério se dá no interior de um partido reformista eleitoral, como o PSOL, que não defende e não aplica nem mesmo a independência de classe.  Esse partido não vai propor um programa anticapitalista em nível nacional, mesmo que apresente candidatura própria. No máximo, o PSOL defende a taxação das grandes fortunas, medida correta e necessária, mas dentro da ordem capitalista, encampada até pelo governo imperialista de Biden.

Roberto Robaina critica a posição de Valério, defendendo que o PSOL apresente candidatura própria no primeiro turno, como uma de duas táticas possíveis. É interessante a argumentação, porque Roberto cita a discussão interna do PSTU que precipitou a ruptura da atual corrente Resistência com nosso partido:

“É curioso que a ala do PSTU que rompeu e aderiu ao PSOL sustentou uma posição globalmente equivocada enquanto a ala majoritária estava certa na essência do debate em seu aspecto teórico, embora tivesse muitos erros, também, na teoria e, mais ainda, na linha prática. Refiro-me, então, às conclusões teóricas, não à análise concreta da situação concreta acerca de quem deveria ser aliado do PSTU, já que o setor minoritário defendia alianças com o PSOL – e, portanto, do meu ponto de vista, acertava em ver o PSOL como aliado –, enquanto a maioria era contra a aliança com o PSOL e defendia apresentação de candidatura própria. Mas, no aspecto teórico, a maioria tinha razão, e a posição teórica da minoria era falsa”, escreveu o dirigente do MÊS, no documento intitulado “As lições de Lênin e as eleições de 2022”, publicado em março de 2021.

É realmente interessante que Roberto defenda a correção da postura leninista da direção do PSTU, contra a da minoria. No entanto, depois, mesmo aceitando essa postura, passa a defender que, no caso concreto, ela estava errada.

Roberto a citação de Lênin para defender o lançamento de candidatura própria pelo PSOL como uma das primeiras hipóteses de tática eleitoral. Mas, depois, também defende outra hipótese de frente eleitoral com o PT, com Lula como candidato, em aliança com o PDT, um partido burguês.

Como se pode combater a proposta de Valério, aceitando apoiar a candidatura de Lula, desde que ela seja também apoiada por um partido burguês como o PDT? Lênin nunca defendeu candidatura ou governo de aliança com a burguesia.

Mesmo com essas diferenças, é preciso reconhecer que tanto Valério como Roberto defendem que a entrada do PSOL em um governo do PT, junto com setores da burguesia, seria um erro de princípio. Trata-se de uma posição correta. No entanto, vale levantar algumas questões: O que a Resistência e o MES vão fazer perante a hipótese (mais que provável) de uma candidatura Lula, aliada ao PSOL e setores de peso da burguesia? Vão se engajar nessa campanha “criticamente”? E o que vão fazer, caso Lula vença e componha um governo junto com o PSOL e a burguesia? Vão romper com o PSOL?

O PSTU defende a mais ampla unidade de ação pela derrubada do governo Bolsonaro, já. E defenderemos, nas eleições de 2022, uma alternativa socialista, independente de todos os setores da burguesia. Nossa proposta é categoricamente distinta dessa “frente ampla” do PT, PSOL e partidos da burguesia que está sendo montada.