Manaus 15 04 2020 O Amazonas contabiliza mais de 1,4 mil casos confirmados de Covid-19 e 90 mortes no período de 1 mês. A pandemia foi registrada pela primeira vez no estado, em 13 de março Enterro de dona Esther Melo da Silva no cemitério Parque Tarumã, em Manaus( Foto: Amazônia Real)

O Brasil ultrapassou as 400 mil mortes por Covid-19, segundo dados oficiais. A tragédia é gigantesca e tende a se aprofundar. De acordo com os dados, o Brasil registrou como média diária 2.375 mortes por Covid entre os dias 27 de abril e 4 de maio, em uma tendência de queda.

Mas atenção! Os cientistas alertam que essa tendência pode ser apenas um curto intervalo e que uma terceira onda da pandemia virá no inverno.

Até 1º de agosto, o Brasil pode chegar a 575,6 mil mortes, segundo projeções do Instituto de Métricas de Saúde e Avaliação (IHME) da Universidade de Washington. No pior cenário, o país atingirá 688,7 mil óbitos no mesmo período, conforme sua análise.

Governos relaxam medidas

Dados do boletim epidemiológico mais recente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com base em números oficiais de 19 de abril, mostram que 17 capitais brasileiras tinham taxas de ocupação de leitos de UTIs em hospitais públicos superiores a 90%. Em outras cinco, estavam acima de 80%. Apenas cinco capitais tinham ocupação menor do que oito a cada dez leitos.

Isso fez com que muitos governos estaduais e prefeituras reabrissem quase que totalmente o comércio. E ainda pressionam pela retomada das aulas presenciais, o que só pode ser qualificado como homicídio premeditado.

Ag Para

Terceira onda da pandemia

O problema é que essa queda nas ocupações de UTIs é pequena e temporária. No final das contas, essas iniciativas geram um relaxamento nas medidas necessárias à prevenção, aumentam a circulação do vírus e, portanto, sua possibilidade de sofrer novas mutações com variantes ainda piores do que a P1. Ao mandar novamente os trabalhadores para o abate, não garantindo isolamento social com um auxílio emergencial decente a eles e aos pequenos comerciantes, gesta-se no país uma terceira onda, mais mortífera do que a anterior.

Outra situação que terrivelmente colabora para isso vem da Índia, que se tornou agora o epicentro da pandemia. Motivos para se preocupar não faltam. São do tamanho da população do país, mais de 1,3 bilhão. Com tamanha densidade demográfica, combinada com o mais completo descontrole da propagação do vírus, a Índia pode “fabricar” com muita facilidade muitas variantes que, inclusive, escapem da imunidade proporcionada pelas vacinas atuais.

A subnotificação por lá consegue ser ainda pior do que no Brasil. Segundo os dados oficiais, a média diária de novos casos estava em mais de 373 mil. E certamente, os números de mortos são muito maiores do que os 220 mil óbitos registrados oficialmente. A situação é desesperadora. Piras funerárias ardem 24 horas por dia nas maiores cidades, enquanto o país asiático – que tem uma das maiores capacidades de produzir vacina no mundo – não consegue fornecer oxigênio e insumos médicos para a população. Combina-se a isso o fato de o sistema de saúde da Índia possuir um alto grau de privatização e contar com baixo investimento governamental. O resultado é um colapso que vai repercutir em outras partes do mundo. A imensa demanda naquele país por vacinas e insumos vai atrasar o processo de vacinação mundo afora, inclusive no Brasil, que conta, entre suas poucas vacinas, com o imunizante da Oxford/AstraZeneca, fabricado na Índia. Ou seja, a vacinação no Brasil vai ser ainda mais lenta.

No ritmo atual, nós não vamos nem conseguir vacinar as pessoas antes que alguma variante brasileira, ou da África do Sul, ou da Índia, ou da Inglaterra, escape às vacinas. Essa variante indiana é assustadora. Se as variantes entrarem aqui e passarem a competir com a P-1 (variante brasileira), e as vacinas que temos não derem conta, podemos ter um milhão de óbitos até 2022”, explicou o neurocientista Miguel Nicolelis.

CRIMINOSOS

Governos pressionam pela retomada das aulas presenciais

Professores protestam contra retomada das aulas presenciais em plena pandemia

Flávia Bischain, de São Paulo (SP)

Existe uma pressão generalizada nos estados e municípios pelo retorno presencial ou híbrido (parte presencial, parte à distância), apesar da gravidade da pandemia. Até o momento, a suspensão das aulas presenciais é uma das poucas medidas que garante algum tipo de isolamento.

Em São Paulo, João Doria (PSDB) se antecipou e decretou a educação como serviço essencial antes mesmo que a Câmara dos Deputados votasse favorável ao Projeto de Lei (PL) 5.595/2020, que proíbe a suspensão das aulas presenciais em qualquer momento epidemiológico. O PL foi retirado da pauta do Senado no dia 29 de abril último.

Dizer que a educação é serviço essencial na pandemia significa levar mais desgraça a população, impondo aulas presenciais em um momento em que o número de mortes e contaminação segue muito alto. Uma simulação feita por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que um aluno infectado em sala de aula pode transmitir Covid para 60 pessoas.

Isso afeta especialmente os mais pobres. A pobreza também é fator de risco para Covid e são exatamente os negros e moradores das periferias, onde ficam a maior parte das escolas, que estão entre as principais vítimas. Na periferia de São Paulo, por exemplo, o número de mortes é três vezes maior do que nos bairros ricos.

Enquanto a vacina não chega para todos, é preciso garantir as condições ao isolamento. Isso significa garantir auxílio emergencial digno, auxílio alimentação aos estudantes e suas famílias e condições para que todos tenham acesso ao ensino remoto em caráter temporário e emergencial.

É bom lembrar que o PL 3.477/2020, que garantia internet para estudantes e professores das escolas públicas, foi integralmente vetado por Bolsonaro. Enquanto isso, 5,5 milhões de crianças e adolescentes continuam sem acesso ao ensino remoto e, portanto, têm o seu direito à educação negado.

A Secretaria Estadual da Educação de São Paulo alega que as escolas são seguras para o retorno, mas não publica os dados de contaminação nas escolas. Há inúmeros relatos de professores que se contaminam e são impedidos de avisar a comunidade escolar.

A Secretaria da Educação ainda diz que o risco de contaminar é menor na escola do que fora dela. Mas uma pesquisa realizada pela Rede Escola Pública e Universidade (Repu) contesta a informação e afirma que o índice de contaminação dos professores é três vezes maior do que na população na mesma faixa etária (25 a 59 anos). Em São Paulo, só na rede estadual, 2.412 pessoas se contaminaram, das quais 83 vieram a óbito, a maioria professores e funcionários.

No Rio Grande do Norte, o governo foi derrotado na justiça e revogou o decreto que obrigava o retorno às aulas presenciais. No Rio Grande do Sul, o processo segue judicializado, e o governo tenta burlar a decisão da justiça contra o retorno na fase preta. Em São Paulo, uma sentença da justiça impede o retorno nas fases vermelha e laranja, mas não está sendo cumprida nem pela Secretaria da Educação, nem pelos donos das escolas privadas. Em Pernambuco, Florianópolis, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Araraquara os trabalhadores da educação estão em greve.

SENADO APROVOU MEDIDA

Quebrar patentes e garantir vacinação pra todos

No dia 29 de abril último, o Senado aprovou PL que permite a quebra de patentes de vacinas contra a Covid-19, de medicamentos e também de testes de diagnóstico. O projeto de lei agora vai para a Câmara de Deputados, onde Bolsonaro trabalha para derrubá-lo.

As patentes são o monopólio de produção e comercialização que a grande indústria farmacêutica tem sobre as vacinas. Hoje meia dúzia dessas empresas tem o direito exclusivo de produção e venda delas – a maioria desenvolvida com dinheiro público –, o que impede a fabricação massiva dos imunizantes. Essa situação tem produzido a escassez de vacinas nos países pobres e periféricos do sistema. A Índia, por exemplo, tem uma das maiores capacidades de produção de vacinas do mundo. Enquanto sua população morre de Covid, sua capacidade de fabricar vacina em massa é paralisada para que as grandes farmacêuticas lucrem bilhões. Para essas empresas, o lucro não é mais importante do que a vida, e vão faturar mais de R$ 50 bilhões somente este ano.

O Brasil está prestes a enfrentar a terceira onda da pandemia. Ao mesmo tempo, a vacinação anda a passo de tartaruga. No melhor dos cenários, o país terá algo superior a 100 milhões de imunizantes apenas em setembro próximo.

Por isso a quebra de patentes é urgente. Permitirá a produção em massa no país e a rápida vacinação da população brasileira, uma vez que Sistema Único de Saúde (SUS) tem capacidade de vacinar mais de 2 milhões de pessoas por dia. Além do Instituto Butantã e da Fiocruz, há 30 laboratórios de saúde animal que afirmam ter condições de entregar 400 milhões de doses de imunizantes contra o coronavírus em um prazo de apenas três meses.

Mas Bolsonaro já mandou avisar que não quer enfrentar os capitalistas da indústria farmacêutica, nem as potências imperialistas que são contra a quebra de patentes. Como um bom capacho, ordenou que o Brasil votasse contra a quebra das patentes proposta pela África do Sul na Organização Mundial do Comércio (OMC). E, agora, o genocida vai tentar comprar os deputados da Câmara para engavetar a proposta.

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