O Partido e as massas

“Quando Trotsky construiu a IV Internacional, estava consciente de que ‘nadava contra a corrente’. Sua intenção era que a IV fosse a continuidade da III Internacional da época de Lenin. Porém, os contextos mundiais em que se construíram essas duas internacionais foram opostos. A III Internacional foi o subproduto do triunfo da maior revolução da história: a Revolução de Outubro. A IV Internacional foi o subproduto do maior processo contra-revolucionário: o fascismo, de um lado, e o stalinismo, do outro.

Para Trotsky, se não se construísse a IV, o stalinismo e o fascismo acabariam com qualquer tipo de vestígio de programa e organização revolucionária (…)
A derrota do fascismo durante a Segunda Guerra Mundial abriu uma situação revolucionária como nunca antes ocorrera. Mas isso não fortaleceu a IV Internacional, e sim o stalinismo, que usurpou as conquistas da Revolução de Outubro em seu proveito, e foi visto pelas massas como o bastião da luta contra o fascismo. Essa realidade condenou a IV Internacional ao isolamento e, mais ainda, à marginalidade por várias décadas.

O movimento trotskista foi heróico por ter lutado durante muito tempo para manter vivo o programa da revolução proletária contra aparatos tão poderosos como o fascismo e o stalinismo. Mas, tal como assinalava Marx, ‘a existência determina a consciência’ e, no caso do trotskismo, uma existência marginal levou, na maioria dos casos, a processos degenerativos e ao abandono, na prática, do programa revolucionário.

Muitas organizações trotskistas se adaptaram à marginalidade a tal ponto que, durante várias décadas, se construíram centenas de pequenos grupos que tiveram, e têm, como prática central, procurar destruir outro grupo trotskista, na maioria das vezes tão pequeno como os primeiros, para ganhar para seu ‘partido’ um ou dois militantes da outra organização. Para cumprir esse objetivo, normalmente se valem de qualquer expediente, desde manobrar até caluniar. Esse setor do ‘trotskismo’, vítima da marginalidade, renunciou na prática à eterna batalha de Trotsky: encontrar, com um programa revolucionário, o caminho das massas.

Como dizíamos anteriormente, Nahuel Moreno se recusou a se adaptar à marginalidade. A obsessão de toda sua vida foi encontrar o caminho para as massas e, em especial, em direção à classe operária. Moreno era obcecado por encontrar as palavras de ordem e as táticas que pudessem estabelecer uma ponte entre os trotskistas e as massas. Mas seríamos injustos com o movimento trotskista se disséssemos que Moreno foi o único que buscou esse caminho. Isso não é verdade. Houve muitas organizações e dirigentes trotskistas que também buscaram. Mas, o que sim é verdade, é que Moreno foi um dos poucos que lutou para encontrar o caminho em direção às massas no marco do programa trotskista.

A nova direção da IV Internacional depois da morte de Trotsky (Michel Pablo e Ernest Mandel) não atuou como uma seita marginal frente às massas que, depois da Segunda Guerra Mundial, se agruparam em torno aos partidos comunistas. Pelo contrário, tentou romper com a marginalidade, mas fez isso com uma orientação contrária ao programa trotskista. Convocou os trotskistas a entrar nos partidos comunistas para atuar, na prática, como conselheiros das direções stalinistas. A tal ponto foi assim que, em 1953, quando os operários da Alemanha Oriental se levantaram contra o governo da burocracia, a direção de Pablo e Mandel, num primeiro momento, se colocou do lado do governo contra as massas.

No caso da Revolução Boliviana de 1952, o trotskismo tampouco foi marginal. Pelo contrário. No processo revolucionário, o Partido Operário Revolucionário (POR), a seção da IV Internacional, ganhou influência de massas. Mais ainda, ocupou um papel de destaque à frente das milícias armadas que agrupavam mais de 100 mil operários e camponeses. Mas a direção da IV Internacional, Pablo e Mandel, novamente procurou ir ao encontro das massas por fora do programa trotskista. Sua orientação foi dar apoio crítico ao governo burguês do MNR (Movimento Nacional Revolucionário). Foi a primeira traição do trotskismo a uma revolução.

Nessa época, o jovem Moreno teve uma posição oposta. Ele também buscou o caminho das massas, mas não a ponto de capitular à consciência atrasada delas, que apoiavam o governo burguês do MNR. Moreno orientou a não ter nenhuma confiança no governo do MNR e afirmou que o poder deveria ser tomado pelo organismo que as massas tinham construído durante a revolução, a Central Operária Boliviana (COB). Propôs, de forma coerente com o programa trotskista: Todo o poder à COB!

Na Nicarágua, no final da década de 70, as massas se insurgiram contra a ditadura de Somoza. À sua frente se colocou a FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional). A Fração Bolchevique, dirigida por Moreno, lançou como consigna: Vitória à FSLN! Diante desse mesmo fato, o SWP dos EUA atuou como uma seita marginal. Dizia, com razão, que a FSLN era uma direção pequeno-burguesa, mas não teve política nenhuma ou, melhor dizendo, sua política se limitou a agitar essa caracterização.

Moreno, pelo contrário, além de defender a palavra de ordem Vitória à FSLN!, convocou a formação de uma brigada internacional (a brigada Simon Bolívar) para intervir, junto com os sandinistas, na luta armada contra Somoza. A brigada se formou, entrou na Nicarágua e participou dos combates que levaram à queda da ditadura Somoza.

O prestígio que a brigada adquiriu na Nicarágua foi muito grande, e foi usado, por orientação de Moreno, para organizar, depois da vitória, várias dezenas de sindicatos operários. Essa política levou a um enfrentamento com a direção sandinista, que acabou expulsando a brigada da Nicarágua e entregando-a à polícia do Panamá, que prendeu e torturou os brigadistas.

O SWP dos EUA, que havia atuado como uma seita marginal, procurou ir ao encontro das massas, mas o fez de forma desastrosa. Parou de agitar a caracterização de que a FSLN era pequeno-burguesa e passou a apoiar a frente, no mesmo momento em que essa direção, que havia desempenhado um papel muito progressivo na luta contra Somoza, passava a desempenhar um papel regressivo, ao reorganizar o Estado burguês.

Mas o SWP não se limitou a isso. Quando os sandinistas expulsaram a brigada Simon Bolívar, a direção do SWP, em conjunto com o resto da direção do Secretariado Unificado da IV Internacional, formou uma delegação que se encontrou com a direção sandinista para lhe dar seu apoio e para denunciar os trotskistas da brigada como ultra-esquerdistas. Foi uma nova traição.

O trotskismo operário
A relação de Nahuel Moreno com a classe operária surgiu em seus primeiros anos de militância. Ele foi ganho para o trotskismo argentino em 1939 (quando Trotsky ainda estava vivo). O trotskismo argentino não era apenas marginal. Era pior que isso. Como Moreno bem assinalava, o trotskismo argentino daquela época ‘era uma festa’. Ser trotskista significava participar de reuniões intermináveis, de intelectuais pequeno-burgueses, que se reuniam em distintos bares de Buenos Aires para debater sobre os mais diversos temas políticos.

Por isso, não deixa de ser curioso que Moreno tenha sido ganho para o trotskismo por um dos poucos operários que existiam nesse movimento: um trabalhador marítimo chamado Faraldo. (…) De tal forma que no primeiro documento político que Moreno escreveu (em 1943), intitulado ‘O Partido’, assinala: ‘[A necessidade] mais urgente, mais imediata, hoje como ontem é: nos aproximar da vanguarda proletária, sempre que isso se apresente como uma tarefa possível, e rechaçar como oportunista toda intenção de nos desviar dessa linha’. Conseqüente com essa conclusão, em 1945 a maioria dos militantes do GOM (Grupo Operário Marxista), com Moreno à cabeça, rompeu definitivamente com o trotskismo dos bares de Buenos Aires. Foram morar na Villa Pobladora, que era a principal concentração operária do país e que se transformaria em uma ‘fortaleza trotskista’.

Essa orientação de Moreno em relação à classe operária, que manteve até sua morte, o diferenciou profundamente não de todos, mas da maioria dos outros dirigentes trotskistas”.

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