O marxismo de Leon Trotsky

Leon Trotsky, assassinado a mando de Stalin há 65 anos, no dia 21 de agosto de 1940, era um homem de ação. Orador excepcional e escritor talentoso, teve um lugar destacado nas revoluções russas de 1905 e de 1917. Organizador eficaz e dirigente político, ocupou as principais funções na administração do novo Estado soviético e fez da construção da Quarta Internacional a obra mais importante de sua vida. Sua vida atribulada e sua morte trágica o fizeram personagens de filmes, romances e de duas biografias exemplares: a trilogia de Isaac Deutscher – O profeta armado, O profeta desarmado e O profeta banido – reeditada recentemente pela Civilização Brasileira, e o grosso volume publicado pelo falecido Pierre Broué na França, infelizmente ainda inédito no Brasil.

A presença dessas duas monumentais biografias oculta, entretanto, a ausência de um tratamento minucioso da obra teórica do revolucionário russo. Raros são os estudos dedicados a uma reconstrução criteriosa do desenvolvimento do conjunto de seu pensamento ou de aspectos particulares de sua teoria social e política. Essa sobrevalorização do homem de ação, em detrimento do teórico do marxismo tem como conseqüência empobrecimento do legado de Trotsky. Para valorizar esse legado de modo adequado é preciso restabelecer sua contribuição original à teoria marxista.

Trotsky possuía uma concepção aberta do marxismo e se recusava a tratá-lo de modo dogmático. Para ele, “o marxismo é acima de tudo um método de análise – não de análise de textos e sim das relações sociais.” [1] A originalidade de seu marxismo reside em sua particular contribuição ao desenvolvimento desse método de análise das relações sociais. Duas são as novidades teóricas desenvolvidas por Trotsky que permitem afirmar essa originalidade: o internacionalismo metodológico e a centralidade da política nos processos revolucionários.

O internacionalismo metodológico e a centralidade da política afirmados por Leon Trotsky têm como síntese a construção da Quarta Internacional. Seu empenho para a construção de um novo partido mundial da revolução socialista depois da falência da Internacional Comunista era conseqüência de uma exigência, ao mesmo tempo, da política e da teoria. Como lugar da unificação entre teoria e prática o partido mundial seria condição tanto da interpretação do mundo como de sua transformação.

Internacionalismo metodológico
Trotsky era um defensor intransigente do internacionalismo político. Como a maior parte de sua geração, circulou muito cedo pela esquerda européia, não se restringindo aos círculos de emigrados russos e participando ativamente, por meio de seus artigos, dos debates de então. Sua dedicação às questões de política internacional nos primeiros anos da Revolução Russa e seu empenho na organização da Quarta Internacional costumam ser os exemplos apresentados para comprovar essa filiação. Mas não é de uma prática política que aqui estou falando e sim de uma concepção da história e da política que encerra uma dimensão metodológica profundamente internacionalista. O internacionalismo é, desse modo, parte constitutiva do método de análise das relações sociais.

Esse internacionalismo metodológico aparece já plenamente em sua obra, Balanço e perspectivas, de 1906. Segundo Trotsky, para compreender a Rússia, era preciso perceber o lento desenvolvimento das forças produtivas locais e a conseqüente precariedade das bases materiais para a formação das classes modernas. Esse desenvolvimento lento constituía a particularidade da Rússia. Mas, por outro lado, era preciso perceber que a Rússia encontrava-se inserida no sistema político e econômico do capitalismo mundial. A penetração do capital industrial e financeiro europeu havia forçado a modernização de setores dessa sociedade e a constituição de um proletariado altamente concentrado em alguns grandes centros urbanos.

É, portanto, a partir do nexo nacional-internacional que Trotsky analisa o modo particular de desenvolvimento do capitalismo na Rússia e a possibilidade de construção do socialismo. Mas esse critério metodológico não deve se restringir à análise da formação social russa. Ele é um critério de aplicação universal próprio do marxismo de nosso tempo. É por meio desse internacionalismo metodológico que se torna possível compreender as diversas dinâmicas nacionais do capitalismo contemporâneo: “O marxismo procede a partir da economia mundial considerada não como a simples adição de suas unidades nacionais, mas como uma poderosa realidade independente criada pela divisão internacional do trabalho e pelo mercado mundial que em nossa época domina todos os mercados nacionais”. [2]

As conseqüências políticas desse internacionalismo metodológico são evidentes e marcarão profundamente a ação política de Trotsky, principalmente após a Primeira Guerra Mundial: “Em nossa época, que é a do imperialismo, isto é, da economia mundial e da política mundial sob a hegemonia do capital financeiro, nenhum partido comunista pode estabelecer seu programa partindo apenas ou principalmente das condições e tendências de desenvolvimento de seu próprio país.” [3] A ação eficaz contra a ordem mundial do capital deveria ser, portanto, uma ação internacional.

Centralidade da política
Durante toda sua vida, Trotsky foi um tenaz opositor do determinismo econômico que caracterizava tanto a social-democracia como o stalinismo. Repetidas vezes contestou a tentativa de estabelecer um sinal de igual entre a crise da economia e a crise política. Sobre isso são importantes os esclarecimentos dados pelo próprio Trotsky em um artigo a respeito da situação espanhola escrito em 1937.

Dizia ele que os reformistas justificavam sua política antes da Primeira Guerra Mundial afirmando que ela era adequada ao forte desenvolvimento do capitalismo, à elevação do nível de vida das massas e à estabilidade da democracia. Os sectários, por sua vez, justificavam sua política falando do declino do capitalismo, da queda do nível de vida das massas e da decomposição da democracia. Ambos estavam errados: “assim como o reformismo da época precedente, o sectarismo transforma as tendências históricas em fatores onipotentes e absolutos.” [4]

Segundo Trotsky, uma análise da “situação presente com toda a sua particularidade” não pode ter como ponto de partida a “dissolução do momento presente em uma situação geral”.[5] Desse modo, a afirmação de que o capitalismo imperialista não é capaz de desenvolver as forças produtivas nem de realizar concessões materiais ou reformas sociais “efetivas” só é correta na “escala de uma toda uma época”.[6] A estagnação do desenvolvimento das forças produtivas não impede, afirma Trotsky, os ciclos conjunturais de fluxo e refluxo da economia mundial ou o desenvolvimento de certos setores da economia ou de regiões específicas. A época imperialista não pode ser reduzida à situação ou à conjuntura.

Em seu discurso de julho de 1921 a respeito do Terceiro Congresso Mundial da Internacional Comunista, Trotsky desenvolve sua concepção a partir do conhecido “Prefácio de 1859” à Crítica da Economia Política, de Karl Marx. Com relação à revolução, afirmava o revolucionário russo, o Prefácio estabelecia que “nenhum sistema social deixa a arena até que tenha desenvolvido as forças produtivas até o máximo grau possível sob esse dado sistema; e nenhum sistema social aparece no cenário a menos que as premissas econômicas necessárias para tal já tenham sido preparadas pelo velho sistema social”. Mas alertava logo a seguir: “mais de uma vez o marxismo compreendeu [essa afirmação] mecanicamente, unilateralmente e, portanto, erroneamente.”[7]

Qual o significado desse alerta? Trata-se de um alerta contra o fatalismo decorrente do economicismo. As condições para a revolução socialista são criadas quando a velha ordem não permite mais o desenvolvimento das forças produtivas. Mas essa afirmação não significa o colapso automático da velha ordem social. A queda da burguesia não é “automática ou mecanicamente pré-determinada”, afirmava Trotsky.[8] Ela é o resultado apenas da luta de classes: “Se o desenvolvimento das forças produtivas é concebível nos marcos da sociedade burguesa, então a revolução será, geralmente, impossível. Mas desde que o desenvolvimento das forças produtivas nos marcos da sociedade burguesa é inconcebível, a premissa básica da revolução está dada. Mas a revolução, em si, significa uma viva luta de classes.” [9]

A burguesia não é um ator passivo desse drama histórico. Ela é uma força histórica viva, dinâmica e ativa. Contraditoriamente, segundo Trotsky, a burguesia obtém, justamente neste momento seus maiores poderes, a “maior concentração de forças e recursos, de meios políticos e militares de fraude, coerção e provocação”. O que o “Prefácio de 1859” escrito por Marx fez, então, foi apresentar o desafio histórico. Mas a solução deste, segundo, Trotsky, cabia à “classe trabalhadora”, “aos dirigentes da classe trabalhadora”, “aos comunistas” e o resultado dessa luta não poderia ser previamente definido.[10] A concepção antideterminista e antidogmática da história desenvolvida por Trotsky e sua rejeição de todo automatismo economicista o leva a afirmar a centralidade da política nos processos revolucionários. O determinante para a vitória ou a derrota desses processos não era a crise econômica e sim o grau de desenvolvimento do partido revolucionário e sua capacidade de dirigir os trabalhadores nessas situações.

NOTAS
[1] Leon Trotsky. 1905. Resultados y perspectivas. Paris: Ruedo Ibérico, v. 2, 1971, p. 172.
[2] Leon Trotsky. A revolução permanente. São Paulo: Kairós, 1985, p. 4.
[3] Leon Trotsky. The Third International after Lenin. Londres: New Park, 1974, p. 3
[4] Leon Trotsky. Les ultra-gauches en général et les incurables en particulier. Quelques considérations théoriques. (29 septembre 1937). In Œuvres (sept. 1937/dec. 1937). Grenoble: Institut Léon Trotsky, 1983, v. 15, p. 97.
[5] Idem.
[6] Idem,p. 98.
[7] Leon Trotsky. The first five years of the Communist international. Londres: New Park, 1973, v. 2, p. 1
[8] Idem, p. 4.
[9] Idem.
[10] Idem, p. 6.

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