Guilherme Boulos e o deuptado do bolsonarista Republicanos, Marcos Pereira

Às vezes, sinceramente, por mais que conheçamos as posturas políticas de setores da esquerda brasileira, não há como não ficarmos chocados com a capacidade de alguns de seus dirigentes em buscar conciliar o inconciliável.

Exemplo recente disto, foi o jantar, em altíssimo estilo, que reuniu, em 18 de abril, Guilherme Boulos, do PSOL, e Marcos Pereira, advogado, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, deputado federal e, além disso, presidente nacional do Republicanos (PRB), legenda de aluguel não só igreja de Edir Macedo, mas também para dois filhos do presidente-genocida, o senador Flávio e o vereador Carlos Bolsonaro.

Segundo o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), o encontro teve como objetivo buscar “reaproximação” e “diálogo” com os evangélicos. Uma desculpa que ninguém realmente engole, já que se sabe que todo mundo sabe que Boulos está com fome e sede de alianças para 2022, para que se candidatar ao governo de São Paulo (no mínimo).

O jantar foi tão inusitado que causou alvoroçou na imprensa e a deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL-SP) criticou Boulos publicamente, dizendo que o evento causou “muito desconforto nas bases” do partido, até mesmo por ser noticiado, com pompa e circunstância, na página oficial do partido. Um aviso aos militantes do partido: está só começando.

“Desconforto”, contudo, que parece ser relativo, já que o jantar de Boulos é uma mera “entrada” diante de uma festança ainda mais intragável que está sendo preparada para o próximo 1º de Maio, para a qual PT, PSOL, e PCdoB convidaram para a mesma mesa, que deveria ser reservada única e exclusivamente para os trabalhadores e suas lutas, alguns dos nossos mais destacados inimigos de classe, como Rodrigo Maia (DEM), Renan Calheiros (MDB), FHC (PSDB), Ciro Gomes (PDT), os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), além de auxiliares de genocídio como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

“Advinhe quem vem para jantar?”

Este é o título de um “clássico”, de 1967, que, realizado no calor das lutas negras daquele período, acompanha o “desconforto” de um médico negro ao ser convidado para jantar com os pais brancos, milionários, mas liberais e “progressistas”, de sua noiva. Na história, os bons modos à mesa e o “progressismo” do casal de anfitriões vão, rapidinho, ralo abaixo, e o que é servido, em abundância, é preconceito, discriminação e violência.

Contudo, no caso de Boulos, o tal jantar não nos serve nem mesmo como metáfora da incompatibilidade entre os interesses irreconciliáveis. Pelo contrário. Tanto o dirigente do PSOL quanto o do Republicanos saíram pra lá de satisfeitos do encontro festivo.

A confraternização foi no apartamento (de 1.000 metros quadrados, no chiquérrimo bairro dos Jardins, em São Paulo) do advogado Walfrido Warde, amigo de Boulos, dos tempos da faculdade, e, hoje, defensor dos interesses e negociatas de grandes empresas, com uma clientela que inclui algumas das maiores companhias dos Estados Unidos, China e, se não bastasse, do Estado-apartheid de Israel.

E não é de hoje que o advogado tem tentado (e conseguido) aproximar seu amigo de seus clientes. Na campanha de 2020, Walfrido não só fez doações para o então candidato à prefeitura, como também promoveu sua aproximação com setores da burguesia paulistana, convicto de que “Boulos não tem uma pauta antiempresas”, como declarou para a revista “Veja”, em 06/11/2020.

Seja como for, o convidado especial, desta vez, é toda uma história à parte. Além de seu papel tanto na ultra conservadora e fundamentalista instituição dirigida por Edir Macedo (o que, é importante que se diga, não tem nada a ver com a fé popular e os fiéis que ele explora), quanto nos Republicanos (PRB), Marcos Pereira tem uma longa ficha corrida de serviços prestados ao que há de mais podre da burguesia.

“Golpista”, fundamentalista, aliado de milicianos…possível aliado?

Pra começar, Pereira é um dos supostos “golpistas”, como o PSOL insiste em alardear, já que foi Ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, entre e maio de 2016 e janeiro de 2018, servindo a Michel Temer, quando o ex-vice de Dilma Rousseff assumiu o poder, depois do impeachment. Cargo que deixou, diga-se de passagem, após ser mencionado na Operação Lava Jato, como beneficiário de propina da empresa Odebrecht.

O fato do PRB abrigar os Bolsonaros “01” (o senador Flávio) e “02” (o vereador Carlos) dispensa comentário. Aliás,vale citar apenas que, um dia depois do jantar, este último teve um verdadeiro chilique e fez uma enorme lambança numa audiência na Câmara carioca, só por escutar a sigla “LG”, referente a um projeto sobre proteção de dados, que ele confundiu com algum possível, e “inaceitável”, direito LGBT. Isso pra não falar de Celso Russomanno, que, meses atrás, Boulos “hostilizava” como principal porta-voz de Bolsonaro na eleição em São Paulo.

Mas, vale lembrar que o partido presidido pelo anfitrião de Boulos, ao ocupar o Ministério da Cidadania, é parte integral do governo que está à frente do genocídio em curso, sendo, ainda, responsável por naufragar o país numa desesperadora situação de desemprego, miséria e fome.

Fatos que seriam suficientes para Boulos ter vergonha e nojo de sequer experimentar as iguarias e vinhos portugueses que, segundo a imprensa, foram servidos em abundância no rega-bofe. Contudo, parece que Boulos e Pereira se deliciaram, sem constrangimentos, considerando, por exemplo, um artigo de opinião escrito pelo próprio presidente do PRB no portal “Poder 360”, no dia 21 de abril, o encontro foi regado por troca de gentilezas e simpatias.

Mesmo admitindo que há um abismo entre os dois, “sobretudo no campo comportamental”, Pereira saiu do jantar convencido de que “é possível convergir naquilo que nos une, que é a preocupação com o Brasil, com o ser humano e seu desenvolvimento”. Aqui cabe a pergunta: De quais seres humanos e qual o desenvolvimento o pastor está falando? E, ainda, deixou o caminho aberto, mesmo que discretamente, como manda a hipócrita “etiqueta” da burguesia, para novos encontros, inclusive no campo eleitoral.

“Em um país tão polarizado e tensionado como o nosso, vozes moderadas e abertas ao diálogo deveriam ganhar mais espaço (…). Não podemos mais imaginar que um presidente da República, um governador ou um prefeito devam governar apenas para ‘30% de seguidores’. (…) Saímos daquele jantar bem longe de estarmos “aliançados” para as eleições de 2022, até porque não tomo nenhuma decisão sem consultar a Executiva Nacional (…) do Republicanos. Mas a conversa com Boulos me deu ainda mais certeza de que o caminho para um país mais justo e eficiente é a moderação”, concluiu o bispo republicano.

Não é hora pra “moderação”, muito menos conciliação de classes

Em seu artigo, Pereira ainda destacou que tem a impressão de que Boulos saiu do jantar com a mesma percepção que a sua. “Não chegaremos a lugar algum com ódio, tensão e gritaria”, disse o líder o Republicanos, concluindo que prefere “o caminho do meio”.

Nós discordamos categoricamente. O que mais precisamos, agora, é expressar nosso ódio a uma burguesia genocida e desumana; é tensionar os movimentos sociais para resistir, da forma que for possível, à crise sanitária e socioeconômica; é fazer ecoar a “gritaria” que já se houve nas periferias, aldeias, quilombos. Não só a provocada pelo choro e pela dor. Mas, também, pela revolta.

O que precisamos é fazer ouvir, ao contrário de conversas ao pé do ouvido em torno da mesa dos poderosos, é amplificar a “gritaria” que ouvimos, na semana, de uma maioria de mulheres trabalhadoras na assembléia da fábrica da LG, em Taubaté (SP), que repudiaram a proposta de fechamento da fábrica, atropelaram o vacilo da direção da CUT e se mantiveram em greve, ao lado de suas companheiras e companheiros das empresas Sun Tech, em São José dos Campos, Blue Tech e 3C, em Caçapava.

E lamentamos, muitíssimo, que seja esta não seja a opção de Boulos. Não que isso nos surpreenda, ou seja novidade. Em campanha como candidato a prefeito de São Paulo, Boulos já tinha visitado a grande burguesia comercial paulistana, que se reúne da Faria Lima e lá se apresentado como aquele que a burguesia não precisa temer. E, agora, em pré-campanha para 2022, recomeça os contatos pelo que há de mais conservador.

Qual é o “meio caminho” possível com estes senhores? Quais são os “interesses comuns” possíveis entre os grandes capitalistas, que estão lucrando tubos de dinheiro e ficando ainda mais ricos, e as necessidades da classe trabalhadora, que está sendo mandada para a morte, desempregada, passando fome, morando em barracos e sendo despejadas com suas famílias em meio à pandemia? Absolutamente nada.

E, convenhamos, Boulos não é nenhum ingênuo. Por isso, dizemos aos militantes do MTST que Boulos não está “enganando” a burguesia para ganhar as eleições. O mesmo vale para militantes e simpatizantes do PSOL. Ao se sentar à mesa de nossos inimigos de classe, Boulos e seus apoiadores dentro do partido, já estão anunciando a possível sobremesa que quer servir em 2022: uma traição, levando o PSOL pelo mesmo caminho já trilhado pelo PT.

Na política, são pelas sombras do “caminho do meio” que rastejam alguns dos burgueses mais cruéis, sob o disfarce de cidadãos de bens, afáveis e educados. Os tais “progressistas”. E, convenhamos, Pereira sequer é um representante disto. E, se hoje, quer se fazer passar por tal, é exatamente por temer a “polarização” que ele próprio vê como um perigo. Como tanto outros de seus pares, ele teme que as consequências dramáticas da fome, da morte, da humilhação, do desemprego possam levar a uma explosão, que ameace seus privilégios. E que Boulos se preste como coadjuvante neste espetáculo de hipocrisia e horror, é realmente lamentável.

E o que mais deixa qualquer socialista enraivecido é ver os reformistas, que parecem buscar grandes coisas, contentarem-se em sentar a mesa com os nossos algozes, se alimentando das migalhas que lhe servem a mesa.

Isso principalmente no momento em que estamos vivendo, quando a única saída possível para aqueles e aquelas que têm nada ou quase nada em suas mesas, que estão enlutados pelos quase 400 mil mortos já levados pelo tratamento propositalmente genocida diante da Covid-19 e sofrendo com os milhões deixados à míngua nas filas de um sistema hospitalar colapsado, é unir forças entre seus iguais: os trabalhadores e trabalhadoras, os mais oprimidos, os mais marginalizados. E não com nossos inimigos de classe e algozes.

Porém, nada disso surpreende quando as estratégias do partido e do candidato sejam as eleições. E se satisfaçam apenas com isto.

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