Muitos ativistas antirracistas estão chocados com as bizarrices que ocorrem todo santo dia no Big Brother Brasil 21 (BBB21). Alguns dizem que “estão desmoralizando nossas pautas”, enquanto outros enfatizam que “estão expondo nossa raça”.

Essas preocupações não são delírios, elas existem e merecem nossa atenção e posicionamento. Mas antes queremos reafirmar que deveríamos exigir que a Rede Globo suspenda esse espetáculo de horrores, no qual seres humanos são confinados e vigiados vinte e quatro horas por dia em plena pandemia. Essa pressão psicológica pode levar algumas pessoas ao colapso mental. Sabemos que existem dezenas de ações no Ministério Público contra a rapper Karol Conká, enquanto a Globo segue ilesa.

Dito isso, vamos ater-nos ao elemento político da repercussão desse BBB que, em nossa opinião, gira em torno três posições que ganharam os holofotes.

A primeira é a da utradireita bolsonarista, que se apega a frases soltas para defender a ideia de que os negros são os verdadeiros racistas. Foi exatamente isso que afirmou Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares e capitão-do-mato do clã Bolsonaro: “É inegável que essa edição do BBB tem um benefício. Mostra, em tempo real, que há pretos racistas no Brasil. E são todos crias do esquerdismo que tenta nos dividir. Finalmente a máscara caiu…”

Mesmo sendo a voz do grupo que está no governo e, portanto, preocupante, essa não é a posição da maioria da população brasileira, mas é preciso combatê-la sem trégua.

Porém existem outras posições que emanam de algumas vozes do próprio movimento negro e da esquerda. Vamos a elas.

Existem aqueles que acreditam que a Rede Globo armou tudo, que estudou de forma meticulosa os temperamentos e os históricos de cada participante do BBB21 para depois jogá-los na arena da discórdia com um único objetivo: desmoralizar a pauta negra e a luta dos oprimidos.

Não que a Rede Globo não seja manipuladora. Na verdade, manipular está no DNA dessa emissora, é parte da sua essência ou a causa de sua existência. Mas acreditamos que não se trata disso.

Há tempos que a direção de jornalismo da Rede Globo mudou sua postura em relação à pauta negra. Aprenderam na experiência concreta que essa pauta tem duas dimensões centrais: uma jurídica e política e outra de cunho econômico-social. As duas se combinam, mas a primeira não ameaça a propriedade privada.

Em relação à primeira, podem até fazer concessões; não sem luta, mas podem. Cotas raciais; mais negros no parlamento, no cinema, nas novelas, nos telejornais; mais alguns direitos; etc. Temos visto isso cada vez mais nos últimos anos. Só para refrescar a memória, a vencedora do BBB20 foi a médica e jornalista negra Thelma Cristina, contratada logo em seguida para apresentar um quadro no programa “É de Casa”, ao mesmo tempo em que Rede Globo promovia vários jornalistas negros, principalmente mulheres.

Quanto à segunda dimensão, a econômico-social, a que toca nas questões estruturais determinantes da relação entre as classes e que pode ameaçar a grande propriedade privada, a burguesia de conjunto não se dispõe a fazer grandes concessões. O que pretendem fazer é justamente o oposto. A Rede Globo que combate os arroubos autoritários de Bolsonaro é a mesma que apoia as reformas econômicas que esse governo vem nos impondo. E os negros são os principais prejudicados.

Nego Di, Karol Conká, Lumena ou qualquer outro “brother” ou “sister” negro que passou por aquela Casa não representam ameaça nenhuma a esses projetos de arrancar direitos, reduzir salários e de enegrecer ainda mais o exército de desempregados e subempregados do nosso país, bem como os presídios e a massa de homens e mulheres que se encontram abaixo da linha de pobreza neste que é o país mais desigual do planeta. Muito pelo contrário, são – até certo ponto – personagens necessários para desvirtuar a questão negra dos seus problemas estruturais.

Assim como brancos, negros policlassistas também podem servir a causas contrarrevolucionárias no interior da nossa comunidade.

Essa tarefa não caberá a negros do tipo Sérgio Camargo, que negam a existência do racismo. Capitão-do-mato não vence no convencimento, abate a bala. Essa tarefa caberá àqueles negros supostamente antirracistas que podem convencer com a palavra, que têm autoridade midiática, trânsito institucional e relações íntimas com uma parte importante da burguesia brasileira.

A direção da Rede Globo sabe disso e não vai agir por instinto, ela é cautelosa. Boninho não pretende queimar tantos fusíveis ideológicos em uma única edição do BBB. Essa emissora é um dos principais canais da propagação de ideologias como empoderamento individual, empreendedorismo e meritocracia negra. Por que, então, chutariam o pau da barraca agora?! Eles agem sempre pensando no dia de amanhã.

Porém, se os certos forem aqueles que dizem que a Globo planejou para que tudo ocorresse como estamos vendo, somos obrigados a admitir que esta emissora perdeu a sua capacidade de manipular opiniões e guardar os interesses da burguesia deste país. Não achamos que é isso que está acontecendo. Existe uma explicação racional, da qual trataremos mais à frente.

Existe ainda outra posição, que é aquela dos neoestalinistas. Para estes, o BBB21 demonstrou que a questão racial não tem lá tanta importância. Para fazer valer suas posições historicamente vacilantes no tema das opressões, tentam enquadrar todas as lutas negras no rótulo de “identitárias”.

Defenderam isso durantes décadas no Brasil e mundo afora. Assim impuseram muitas derrotas, não somente aos negros, mas à classe trabalhadora de conjunto. Quando se viam obrigados a disputar a direção desses movimentos, era para canalizá-los para a conciliação de classes. Foram tantas as atrocidades que não daria para citar neste breve texto.

Se para os racialistas a classe é um empecilho à unidade da raça, para os stalinistas é a raça que divide a classe. Sendo assim, o BB21 estaria apenas demonstrando que esse tema da identidade racial é um desserviço à luta dos trabalhadores.

Em nossa opinião todas essas posições são equivocadas, insuficientes e penduram-se num pedacinho da realidade para construir narrativas unilaterais que nada tem a ver com a realidade dos fatos.

Na verdade, o que o BBB21 tem revelado é o fracasso de uma série de ideologias que ganharam muita força nos últimos anos e banalizaram as bandeiras históricas das demandas negras. Karol Conká, por exemplo, tornou-se expoente do empoderamento negro, do feminismo negro e do colorismo, não sem a mão amiga da Rede Globo.

Essas ideologias tentam desvincular a luta negra da luta de classes e do combate ao capitalismo. Criaram um selo de “ativistas sem movimento”, de intelectuais orgânicos sem partidos e apontaram saídas individuais e meritocráticas para graves problemas coletivos. Todos os negros do BBB21, para mais ou para menos, enquadram-se nesse tipo de ideologias e posições.

A questão é que, com o endurecimento da luta de classes e de raça, essas ideologias começaram a chocar-se com os limites de suas próprias elaborações. Não são meros personagens que estão sendo expostos no BBB21, mas posições políticas e ideológicas, reformistas, conservadoras e até reacionárias que estão sendo colocadas à prova.

Daí decorre tanto malabarismo político dos defensores dessas ideologias para explicar de forma evasiva problemas que estão presentes na realidade política e social. Muitos “castelos de cartas” erguidos em base a essas ideologias têm desmoronado um a um. E muita coisa ainda estar por vir.

A posição do respeitadíssimo rapper Emicida contrário às manifestações contra Bolsonaro porque, segundo ele, seria o pretexto que o clã deseja para dar o golpe de Estado; ou a propaganda que a intelectual negra Djamila Ribeiro fez para a empresa de aplicativos de transportes “99” no calor da greve dos entregadores de aplicativos; são alertas sobre questões que não podemos deixar de debater publicamente sob a alegação de “fazer o jogo dos brancos”.

Malcolm X e o Partido dos Panteras Negras, por exemplo, nunca foram adeptos desse tipo de comportamento. Nem durante a escravidão, quando éramos praticamente um povo-classe, não existia igualdade entre todos os negros. Até a unidade entre escravos e libertos durante esse longo período foram raríssimas. Imagine na atualidade, em que, enquanto uma ínfima parte da comunidade negra pretende aburguesar-se, mais de 100 milhões de afro-brasileiros lutam para que a burguesia não lhes tire o direita à vida! Essa contradição não se resolve no campo da identidade epidérmica.

Se é assim, então os neoestalinistas estariam corretos? Não, não só não estão corretos, como continuam politicamente cegos.

Ao desmascarar essas teorias liberais que ganharam força nos últimos anos, a luta negra pode – não quer dizer que vá – ganhar conteúdos mais classistas e revolucionários, principalmente dentro do seu universo proletário. Aqui os brancos pobres e os negros de pele mais clara são bem-vindos, desde que sem arrogância, apoiando nossas reivindicações, unindo a luta contra a opressão à luta contra a exploração.

Os fatos são pedagógicos. Quando Barack Obama se tornou o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos e na sequência atacou os próprios negros como parte dos ataques ao conjunto dos trabalhadores, nós fazíamos essa mesma afirmação. Ou seja, que a desmoralização de Obama e da classe média negra “empoderada” não significava de maneira alguma a desmoralização da verdadeira luta negra. Essa luta seguia mais latente do que nunca.

Afirmávamos que quem perderia força seriam as ideologias liberais e racialistas que venderam a ilusão da possibilidade de construção de um capitalismo negro no coração do império. As rebeliões que explodiram naquele país em 2014 nos cobriram de razão. Àquela época, dizíamos, no prefácio do livro O Mito da Democracia Racial, do camarada Wilson Honório:

“Em Baltimore e outras cidades dos Estados Unidos, os conflitos raciais têm sido mais explosivos do que os da décadas de 1950 e 1960. As ilusões de que o ‘empoderamento’ individual resolveria todos os problemas bateram no muro do capitalismo. E os negros trabalhadores têm, nessa luta antirracista, se enfrentado com os afro-americanos ‘empoderados’ (que vão desde a prefeita de Baltimore até a maioria dos vereadores, secretários, o comissário de polícia, sem nem citarmos Obama), e constatam que, apesar desses ‘empoderados’, o que continua prevalecendo nos EUA é o white power (poder branco) dos banqueiros, empresários e latifundiários.”

As rebeliões que ocorreram em 2020 após o assassinato de George Floyd nos deram mais razão ainda, à medida que colocaram na ordem do dia a questão do poder. Sua composição mais multirracial esbugalhou os olhos dos supremacistas brancos e dos racialistas negros, cada um ao seu modo contrários à unidade racial da nossa classe. Já o seu caráter menos policlassista, acendeu mais ainda o sinal de alerta. Pena que as massas em todo o mundo ainda padeçam muito pela ausência de direções revolucionárias que possam levar essas lutas até expropriação dos grupos que usam o racismo para oprimir a nossa raça e para dividir a nossa classe.

Esse debate tão estratégico não pode ser negligenciado. As ideologias não são elaboradas sem propósitos políticos definidos, e elas refletem alguma parte da realidade, na maioria das vezes como unilateralidade. Pode ser até que os seus receptores não vejam assim, mas seus emissores sabem disso.

O colorismo serve para dividir os negros da nossa classe pela tonalidade das suas peles, o racialismo se apega ao essencialismo racial para dividir a nossa classe e o stalinismo se apega ao economicismo para negar existência do racismo no interior da nossa classe e se negar a combatê-lo para unir a classe, o que só reforça o mito da democracia racial, uma ideologia puramente burguesa. No final das contas, todos eles servem aos interesses da burguesia, porque suas ideologias são todas burguesas.

É preciso um debate duro para limpar o terreno das nossas lutas dessas distorções e confusões que foram elaboradas nos últimos anos sob a capa de progressistas e inovadoras. Sem fazer isso, a nossa causa poderá ser conduzida para terrenos movediços. É isso que o BBB21 expôs, um dilema que já estava latente na realidade.