No chão da fábrica e nos canteiros

Há cada vez mais mulheres nos canteiros de obra, nas mineradoras e nas fábricas. Mas a opressão impõe a elas os piores salários, péssimas condições de trabalho, doenças ocupacionais e jornada de trabalho sacrificante.

Independentemente de sua formação técnica, elas estão sujeitas aos piores salários e passam anos nos piores postos de trabalho. Suas funções, ligadas a movimentos de repetição em ritmo frenético, somadas ao trabalho doméstico, causam inúmeras doenças.
Não são raros os casos de assédios moral e sexual, na maioria das vezes exercidos pelos chefes, que se sentem no direito de pressioná-las para que produzam mais. Como se não bastasse, ainda se sentem no direito de tratá-las como objetos sexuais.
A opressão das mulheres só beneficia os patrões, pois assim exploram mais o conjunto dos trabalhadores, rebaixando os salários e piorando as condições de trabalho. Toda vez que um empresário contrata uma mulher com salário inferior, ele desvaloriza aquela função e passa a pagar menos para todos. Além disso, o machismo faz com que os operários oprimam também suas companheiras de classe, ao invés de estarem unidos para lutar contra seus verdadeiros inimigos: os patrões.

As necessidades das operárias são necessidades de toda a classe. Suas bandeiras de luta são parte das bandeiras dos trabalhadores. E por isso elas precisam ser encampadas por homens e mulheres.

‘Hoje algumas mulheres arrastam os homens de dentro da obra, no piquete’
Ana Lucia Souza da Silva, conhecida como “Seu Alex”, trabalha há 24 anos na construção civil, como servente. Lésbica, está no segundo mandato no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Belém (PA), na Secretaria de Mulheres, ao lado da companheira Deusinha

Como é a situação das mulheres na construção civil de Belém?
Seu Alex – Elas são bastante exploradas, a maioria trabalha no jaú ou nos andaimes da aérea externa, ou seja, em atividades de alto risco, e não há uma classificação dessas funções, se é meio-oficial ou oficial, enquanto isso, elas continuam todas serventes. Elas perguntam quando essa classificação vai chegar. Nós dizemos para elas: ‘Acreditem e venham para a luta conosco. Só assim conseguiremos’.

Como foi construir uma Secretaria de Mulheres em um sindicato majoritariamente masculino?
Seu Alex – Foi bastante difícil, porque éramos somente duas mulheres na direção. As companheiras do canteiro de obras são mais difíceis de participar no cotidiano, por causa da perseguição e do assédio que sofrem. A Secretaria é para correr atrás das companheiras e ganhá-las para a luta. Porque as mulheres são muito oprimidas e a Secretaria faz essa discussão política.

Como se deu a preparação para trazer as mulheres para a greve do ano passado?
Seu Alex – Foi com muita garra e muito convencimento. Hoje, algumas mulheres são vanguarda e arrastam os homens de dentro da obra, durante os piquetes. Mas têm aquelas que ainda têm medo por causa da opressão e do assédio. Fizemos atividades de preparação, explicando a importância da presença delas e o papel da Secretaria e do sindicato e muitas atenderam ao chamado.

Você é lésbica. A luta contra a opressão da mulher tem lhe ajudado na luta contra a homofobia?
Seu Alex – Bastante. Apesar das diferenças, hoje me sinto mais fortalecida na minha orientação. Assim como eu, várias companheiras da base também sofrem com o preconceito. Hoje me sinto bastante respeitada quando passo nos canteiros de obra.

Qual é outra forma de organização e participação das operárias?
Seu Alex – As Cipas. Hoje nosso sindicato, através da Secretaria de Mulheres, incentiva as operárias a se inscrever nas Cipas, onde a maioria é de homens, e vem dando certo. Já elegemos, nesse mês, três operárias. Na Cipa, temos mais possibilidades de fazer com que as operárias lutem no cotidiano, não só na campanha salarial, mas levando suas reivindicações especificas e a luta pela classificação profissional.