Nasi: ‘Espero que tudo acabe com a vitória da vontade da maioria dos professores e alunos´

Na noite da última quinta-feira, a mais fria do ano em São Paulo, a ocupação da reitoria da USP recebeu a visita de Nasi, vocalista da banda de rock Ira!. O músico conversou com o estudante Ivan Valério, correspondente do Portal do PSTU.

Nasi, que é conhecido por sempre ter assumido posições políticas diante da realidade, apoiou o movimento dos estudantes, funcionários e professores e aproveitou para falar de sua decepção com o atual governo federal. Leia, abaixo, o apoio à ocupação.

Portal do PSTU – Nasi, por que você está aqui na ocupação em apoio ao movimento, você tem alguma relação com a USP? Por que vem aqui apoiar a ocupação?

Nasi – A minha relação com a USP, eu cheguei a cursar História aqui. Não me formei, isso foi no início da década de 80. Meu tio é professor de História e Geografia aqui. Eu acompanho através da mídia a situação da questão da autonomia da universidade, a questão das verbas de pesquisa, que agora querem tirar do controle da universidade para um controle do governo do Estado. Acho que isso foge, modestamente, na minha opinião, da orientação que se tem de ter para os vínculos. É muito difícil, a gente não sabe nunca qual governo que vai estar no Estado, qual a idéia que ele tem. Acho que isso tem de pertencer aos professores, aos alunos, enfim.

Agora, toda esta situação de terror, de invasão iminente da tropa de choque, acho que isso não cabe mais hoje em dia. Tem que haver uma conversa para que uma situação que seria catastrófica, que seria completamente anacrônica nos termos de hoje, porque nós vivemos num Estado de Direito. Então eu venho aqui não só pra dar uma força pro meu tio como para, humildemente, dar um abraço na rapaziada que está aqui.

Num país que tem o ensino e a educação em si tão sacrificada, governo após governo. Eu me sinto decepcionado. Votei, em 2002, num projeto que eu pensei que ia ser um projeto socialista, democrático, de esquerda no sentido mais pleno da palavra, e o que a gente vê hoje é esta situação, inclusive com a preocupação com a questão da privatização do ensino público, que é sempre um fantasma que ronda por cima da universidade pública, desde os tempos em que eu era aluno. E já faz muito tempo, né? [risos].

Então, a gente precisa estar atenta. Acho que o momento é uma oportunidade. Nos últimos tempos, a gente recebeu uma desideologização, ou seja, falta de ideologia muito grande dos estudantes. Eu percebo isso muito diferente do meu tempo de estudo secundário, do estudo universitário, da mobilização que se tinha. Acho que hoje é uma oportunidade para os alunos, em todas as suas tendências, em todas as suas formações, poderem discutir, através dessa oportunidade, os seus reais interesses, as prioridades e a independência da universidade pública.

A gente vê toda a grande mídia fazendo uma lavagem cerebral de fato do que é essa ocupação. Poucos jornalistas têm colocado uma visão diferente. Você, que não necessariamente é jornalista, não é um dono de meio de comunicação, mas um artista, o que você acha dessa visão única de chamar isso aqui de invasão, de baderneiros, sem colocar que a pauta que a gente coloca, que o que a gente luta aqui é conseqüente?

Nasi – É uma tristeza. Tanto que eu, para vir aqui, o taxista não queria nem entrar dentro da USP [risos]. E o que eu vejo aqui e posso retratar é que existe o maior clima de paz e harmonia.

A gente vive, infelizmente, a continuação de um governo neoliberal. Toda a nossa imprensa faz coro muito bem afinado a toda essa campanha que se faz, há muitos anos, desde a volta da democracia, de que tudo que é ligado a reivindicação, tudo que é contra o que está estabelecido, é anarquia, é bagunça, é terrorismo. Na verdade, o terrorismo está lá fora, porque esse clima de invasão da Universidade de São Paulo [pela tropa de choque], que tem como uma de suas grandes conquistas a sua autonomia e a sua independência, é uma coisa que eu acho completamente absurda. Eu espero que impere o bom senso, porque para mim está nítido que todo mundo que está mobilizado aqui não é para bagunça. É simplesmente para preservar um direito adquirido dessa universidade de controlar as suas verbas. Espero que tudo acabe em paz e, principalmente, com a vitória da vontade da maioria dos professores e da maioria dos alunos.