Metrô de São Paulo: o ‘bacalhau´ das PPPs

Laudo mostra mais uma falcatrua feita pelo consórcio da Via Amarela do MetrôMas uma falcatrua das obras da Linha 4 do Metrô de São Paulo vem à tona. Uma reportagem do Jornal Nacional do dia 13 de fevereiro mostrou um relatório que aponta mais de 15 irregularidades na futura estação Fradique Coutinho, localizada em região nobre da capital. O laudo, elaborado a pela empresa Tecnoplani Inspeções, a pedido do próprio consórcio responsável pelas obras, mostra que há problemas na estrutura metálica que sustenta as paredes de concreto da estação que poderia causar acidentes de “proporções imprevisíveis”. As obras vêm sendo realizadas pelo Consórcio Via Amarela, composto pelos grupos Queiroz Galvão, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, OAS, entre outros, sob a liderança da Odebrecht.

Segundo o documento, foi utilizado o recurso do “bacalhau” que consiste em preencher os espaços entre as vigas de aço com pedaços de metal, vergalhões, etc. Dessa maneira se passa um revestimento de solda que dá a aparência de que a soldagem é maciça, mas é na verdade é apenas uma casca. No dito popular, a expressão “bacalhau significar”, “gambiarra”, “dar um jeitinho”.

E foi uma gambiarra que o consórcio fez para faturar maiores lucros. Algo que já tinha sido realizado nas obras da futura estação Pinheiros, onde o consórcio optou pela forma de construção mais barata – retroescavadeiras para a abertura do túnel, ao invés do chamado “tatuzão”, mais caro. Foi a receita para a tragédia.

A vistoria foi realizada há duas semanas e recomendou a paralisação dos trabalhos, porém, o metrô e o consórcio deram de ombros a advertência.

O secretário estadual dos Transportes, José Luís Portela se disse “surpreso” com o laudo e pediu explicações do consórcio. Pura hipocrisia, uma vez que o governo tucano anterior fechou um contrato transferindo toda a responsabilidade – inclusive da fiscalização da obra (!) – para as empresas privadas do consórcio. Ao Estado restaria apenas garantir os pagamentos às empresas.

Pior ainda foi a declaração do presidente do Metrô. “Estão transformando um relatório de solda de rotina em uma questão nacional” disse, e ainda completou. “Precisamos parar de alarmar a população.” Quer dizer, para ele laudos não apontam problemas técnicos, servem apenas para gerar “pânico” entre a população.

Desmoralização
As novas denúncias ocorreram a pouco mais de um mês do desabamento nas obras da futura estação de Pinheiros do metrô, onde sete pessoas morreram.

Mais uma vez fica evidente os dramáticos perigos do avanço da privatização e terceirização no setor público. As falcatruas desmoralizam as tão celebradas Parcerias Público-Privada (PPP´s) e coloca por terra o discurso da dita “eficiência” privada. As PPP´ apenas inauguraram uma nova modalidade de capitalismo: o investimento sem riscos, onde as empresas privadas recebem dinheiro público e poderão explorar a concessão das obras (no caso da linha 4 o consórcio terá 30 anos de concessão). Se a empresa não conseguir o mínimo de lucros garantido em contrato, esse déficit é coberto pelo orçamento público.Isso pra não dizer da enorme fonte de corrupção em que se convertem tais parcerias, onde licitações fraudulentas e compra de políticos são uma norma no mundo milionário das empreiteiras.

Mas a responsabilidade não é apenas do governo tucano. Também é do governo federal, uma vez que a lei das PPP´s foi aprovada por Lula em dezembro de 2004.