Marx e o papel da classe operária, das lutas econômicas e dos sindicatos

Na medida em que a classe operária se desenvolvia e se organizava surgiu, no interior do movimento operário, um intenso debate: qual objetivo da luta dos explorados? Qual o papel da classe operária nestas lutas? Que tipos de organizações deveriam os explorados construir? Qual a função dos sindicatos? Marx e Engels tiveram uma intervenção ativa nesses debates e fizeram a defesa do papel revolucionário da classe operária, da importância das lutas econômicas e dos sindicatos.

O debate com Weitling
O alfaiate alemão Wilhein Weitling (1806-1871), foi um dos primeiros revolucionários alemães. Em 1844 era um dos homens mais conhecidos e populares na Alemanha. Autoditada talentoso, acreditava que o proletariado não era uma classe especial, com interesses próprios, mas somente uma parte da população pobre e oprimida. Defendia que o elemento mais revolucionário, capaz de derrubar a sociedade capitalista, era o proletariado desocupado, o “lumpem-proletariado”. Atribuía à “bandidagem” um papel revolucionário.

Sua concepção se contrapunha a Marx e Engels que viam no proletariado a classe revolucionária. Os utopistas já tinham fixado seu olhar sobre “a classe mais numerosa e mais deserdada”. No entanto, acreditavam que pela sua condição miserável de existência era necessário que as classes superiores e mais cultas tomassem conta dela, ou seja, tinham uma visão filantrópica frente à classe operária. Não viam o fator revolucionário que se oculta na miséria. Marx é o primeiro a revelar o papel ativo, revolucionário, do proletariado na luta contra a sociedade burguesa.

Essa idéia – que já havia sido exposta por Marx em 1844 – é desenvolvida em 1845, na obra A Sagrada Família, escrita conjuntamente com Engels. Nela polemizam com os irmãos Bauer, ridicularizando todas as tentativas dos intelectuais alemães de se afastarem do proletariado ou se contentarem com as sociedades de beneficência destinadas a “encontrar a felicidade”. O levante dos tecelões da Silésia, ocorrido alguns meses antes de terminar a obra, reforçou em Marx a convicção do caráter revolucionário do proletariado.

O que diferenciava Weitiling dos demais utopistas de seu tempo – influenciado pelo revolucionário francês Augusti Blanqui – é que ele não acreditava em chegar ao comunismo pela persuasão, mas pela violência revolucionária.

Marx e Engels tentaram uma aproximação com Weitling. Mas logo as diferenças se aprofundaram. Weitling opunha-se ao trabalho preparatório de propaganda no meio operário sob o argumento de que as classes pobres sempre estavam prontas para a revolução, necessitando somente de líderes resolutos. Sob a severa advertência de que “a ignorância nunca ajudou a ninguém, nem tem sido útil a qualquer coisa”, Marx e Engels romperam com ele definitivamente em 1846.

Debate de Marx com Proudhon e Weston
Além das correntes que negavam o papel revolucionário do proletariado, surgiram também as que negavam a importância das lutas econômicas e dos sindicatos. Na França essa corrente foi representada por Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865).

Autodidata ainda mais talentoso que Weitiling, era um dos publicistas mais brilhantes da França. Em 1841 publicou a obra “O que é a propriedade?”, em que critica violentamente a propriedade privada e afirma corajosamente que ela é um roubo. No entanto, se por um lado criticava a propriedade capitalista, por outro, defendia a preservação e a consolidação da pequena propriedade do camponês e do artesão como a via para estes prosperarem.

Ao mesmo tempo, empunhando a “lei de bronze dos salários”, defendia a inutilidade da luta da classe operária em defesa dos salários. Afirmava que o aumento dos salários provocaria um aumento dos preços. Para ele as greves só provocavam transtornos. Por sua vez, não via a necessidade dos sindicatos e se contrapunha à legalidade dos sindicatos. Para melhorar sua condição o operário deveria se transformar em pequeno proprietário pela aquisição das oficinas mediante uma poupança. Utópico, foi precursor do anarquismo (tema que trataremos num próximo artigo). Defendia a destruição do Estado, a constituição de uma “república de pequenos proprietários”, cooperativas de crédito, “Banco do Povo” e empréstimos sem juros.

Idéias semelhantes às de Proudhon referentes às greves e aos sindicatos surgiram posteriormente no interior das trade-unions na Inglaterra. Um de seus dirigentes, Jonhn Weston, passou defender a tese da inutilidade da luta por aumento dos salários com argumentos semelhantes aos de Proudhon. Acreditava que o aumento dos salários era prejudicial aos operários na medida que – supostamente – provocava a carestia dos demais.

Marx rebateu Weston, na reunião do Conselho da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), a I Internacional, realizada em junho de 1865. Demonstrou que a luta pelo aumento dos salários ao invés do aumento dos preços levava na verdade a uma redução dos lucros. Mostrou a importância desta luta para que os mesmos não caiam abaixo do mínimo necessário para o sustento dos trabalhadores. Afirmou, ao mesmo tempo, que o verdadeiro objetivo da luta dos operários é sua emancipação econômica, abolindo todo o sistema de salários. Por fim, defendeu as greves, afirmando que embora não fossem o meio de emancipação completa do trabalhador, era uma necessidade da luta do trabalho contra o capital.

As polêmicas com Lassalle
Na Alemanha Marx enfrentou as idéias de Ferdinand Lassalle (1825-1864). Este teve o enorme mérito de erguer o movimento operário alemão após o período de reação que se iniciou com a derrota da revolução alemã de 1848 e que estendeu até 1862. Defendeu a organização da classe operária em partido, transformou-se no primeiro organizador do partido operário alemão. Fundou a União Operária Geral Alemã.

O centro de seu programa era a reivindicação do sufrágio universal, para cuja obtenção devia-se concentrar todas as forças. Para atingir seus objetivos a classe operária deveria obter maioria no parlamento. Apoiando-se na Lei dos Salários elaborada pelo economista clássico David Ricardo (1772-1823), afirma que é impossível elevar os salários sobre um mínimo determinado. Seu programa econômico defende a organização de sociedades de produção com a ajuda de créditos advindos do Estado. Dessa forma considerava os sindicatos instrumentos inúteis.

Marx e Engels já haviam endossado a reivindicação do sufrágio universal apresentada pelos cartistas. Este movimento surgiu na Inglaterra em 1835. Exigia uma reforma eleitoral. Dentre suas seis reivindicações que constavam na Carta do Povo (1837), redigida pelo dirigente operário Loewtt, exigia-se o sufrágio universal. Para Marx, Lassalle dava uma importância excessiva à luta democrática pelo sufrágio universal. Era uma ingenuidade pensar que a classe operária chegaria ao poder pelo voto sem modificar o regime político e econômico dominante.

A mesma coisa ocorria com a proposta de organizar associações de produção. Estas eram importantes para demonstrar que os capitalistas não são, em absoluto, necessários na produção. Mas era um erro considerar que através delas poder-se-ia, lentamente, ir se apoderando dos meios de produção. Para isso a classe operária deveria, antes de tudo, apoderar-se do poder político.

Deste modo era um verdadeiro absurdo desprezar os sindicatos e a luta econômica. Se as lutas econômicas eram um primeiro passo dado pela classe operária na luta contra o capital, os sindicatos eram o primeiro centro de organização que buscava unir os trabalhadores em torno de objetivos comuns.

Post author Paulo Agüena, da Direção Nacional do PSTU
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