Brasil, o paraíso dos banqueiros

Bancos têm lucros recordes na economia que só cresce mais do que a do HaitiO pífio resultado da economia brasileira em 2005, anunciado pelo IBGE no dia 25 de fevereiro, foi um banho de água fria na cúpula do governo, dando um sabor amargo ao carnaval de Lula. Frustrando as mais pessimistas expectativas, o PIB tupiniquim fechou o ano com um crescimento de apenas 2,3%, superando, na América Latina, apenas o Haiti, que registrou avanço de 1,5% e cuja ocupação militar é liderada pelo Brasil. No geral, o crescimento da economia do Brasil foi menor do que a metade da média de crescimento do conjunto da América Latina, de 5%.

Enquanto isso, países que também estão longe de ter um governo independente do imperialismo e do capital internacional registram crescimento até três vezes maior que o Brasil de Lula, como é o caso da Venezuela, cuja projeção de crescimento em 2005 é estimada em 9%, segundo a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). O resultado da economia brasileira no ano passado foi divulgado em plena sexta-feira anterior ao carnaval, afim de impedir ao máximo sua repercussão.

Paraíso Financeiro
O resultado do PIB contrasta com a onda de anúncios de lucros recordes dos bancos no Brasil em 2005, divulgados na semana anterior. As cinco maiores instituições que atuam no país, Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Santander/Banespa e Unibanco, lucraram juntas R$ 18,4 bilhões. A cifra representa o maior lucro do setor bancário em 11 anos. Só nos três primeiros anos do governo Lula, os cinco bancos aumentaram em 28,4% seus lucros em comparação aos dois mandatos de FHC. Entre 2003 e 2005, lucraram nada menos que R$ 44,12 bilhões.

Os números mostram que o Brasil se transformou em um paraíso para os bancos. De acordo com a consultoria Austin Asis, o lucro médio do setor no país é superior a 26% ao ano. Só para se ter uma idéia, essa taxa nos EUA varia entre 10% a 15%, dependendo das condições de sua economia. Isso se dá porque o Brasil tem uma das maiores taxas de juros praticadas no mundo, fazendo com que os bancos enriqueçam através dos títulos da dívida pública, sem falar nos juros extorsivos cobrados pelas instituições e na superexploração de seus funcionários.

Retribuição petista
A política neoliberal imposta pelo governo Lula que, intencionalmente, privilegia as instituições financeiras, segue a lógica de financiamento do PT. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, as doações dos bancos ao partido (diretório nacional e estadual de São Paulo) cresceram 1000% entre 2002 e 2004. Passaram de R$ 520 mil a R$ 5,7 milhões. Só na campanha de 2004, os candidatos petistas receberam, oficialmente, R$ 7,9 milhões. Nesse mesmo ano, os bancos deram ao diretório paulista cerca de R$ 4, 3 milhões, enquanto as contribuições de parlamentares e filiados chegaram a apenas R$ 550 mil. As “doações” são recebidas sem o menor constrangimento. “Bancos e empresas querem manter relações e querem fazer também com que os partidos tenham condições de financiar seu programa e disputa eleitoral”, tentou justificar o atual tesoureiro do PT, João Almeida (BA).

Essa evolução mostra uma importante mudança no caráter do partido. Antes financiado essencialmente por empreiteiras que buscavam contratos generosos com prefeituras e estados governados pelo partido, o PT passou a ser sustentado – pelo menos legalmente, é bom lembrar – pelo sistema financeiro. Desta forma, a alcunha de “partido dos banqueiros” não se refere hoje apenas à política levada a cabo pelo PT, mas à sua própria estrutura e funcionamento.

2006 começa bem…
Se o ano que passou foi o dos bancos, 2006 começa bem para as multinacionais e os especuladores da dívida pública. O real valorizado fez com que as filiais remetessem, entre lucros e dividendos, U$ 1,54 bilhão às suas matrizes no exterior. Por conta disso, o Brasil teve déficit em conta corrente pela primeira vez em 13 meses, fechando o mês no vermelho e contabilizando uma perda de U$ 452 milhões.
Já os juros da dívida externa custaram ao país U$ 1,68 bilhão em janeiro, apesar da atual política do governo de substituí-la pela dívida interna. Ao todo, o Brasil gastou, no primeiro mês de 2006, mais de R$ 17,9 bilhões com os juros da dívida pública, mais um recorde do governo Lula. Ao mesmo tempo, antes mesmo da aprovação do Orçamento deste ano no Congresso, a equipe econômica já anunciou que cortará R$ 15 bilhões para a manutenção do superávit primário e o pagamento da dívida.

Assim, enquanto a economia avança para a estagnação devido à política neoliberal do governo Lula, do outro lado, os bancos têm lucros recordes exatamente por causa dessa política. No centro dessa gangorra, o governo Lula e o PT, financiados por esses bancos.

Lula: reforma Sindical e Trabalhista é principal objetivo após eleições
Se no Brasil Lula mede as palavras ao falar com a imprensa, no exterior o presidente não economiza na sinceridade. Principalmente quando é para provar que está comprometido a transformar o país num negócio ainda mais rentável aos investidores e multinacionais. Em entrevista à revista britânica The Economist, principal informativo do mundo financeiro internacional, Lula colocou a reforma Tributária, Política e a reforma Sindical e Trabalhista como principais objetivos para o próximo ano.

Questionado sobre quais as principais reformas que o próximo governo deve implementar, Lula afirmou: “Primeiro de tudo, temos que terminar a reforma Tributária. Segundo, precisamos votar a reforma Sindical no Congresso. O Fórum Nacional do Trabalho está agora discutindo reformas trabalhistas e nós temos que implementar nossa reforma Política”. O objetivo da reforma Trabalhista não é segredo: “Queremos facilitar para uma companhia contratar um trabalhador, reduzir os obstáculos envolvidos na contratação”, afirma. Com isso, Lula prova que um eventual novo governo do PT não será “menos pior” que a volta dos tucanos ao poder.

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