Lula, “traseiros” e juros: a inversão da realidade

Lula, além de afirmar que os juros estratosféricos não impedem o desenvolvimento do país, declarou que “o brasileiro é incapaz de levantar o traseiro da cadeira e ir ao banco transferir a sua conta para um banco mais barato (…) É o comodismo das pessoasQue há algo de casuístico nas famigeradas declarações de Lula – marca registrada do neopopulismo do governo – não se pode duvidar. Mas tampouco podemos afirmar que, detrás do que há de mais ocasional em suas “pérolas”, não estejam representados interesses materiais – nada “fortuitos”, diga-se de passagem – dos diferentes grupos e frações das classes dominantes que integram o bloco de poder no país.

Lula praticamente atribuiu a existência da maior taxa de juros praticada no planeta ao “comodismo” da população brasileira, “incapaz” de buscar alternativas bancárias com preços mais acessíveis e, em menor medida, criticou os bancos públicos por não cumprirem sua “função social”. Por fim, com o tom paternal que lhe é característico, afirmou não “compreender por que as pessoas não se organizam em cooperativas de crédito para sair do sistema financeiro a juros escorchantes”. Transformando efeitos em causas, o “senso comum” de Lula opera re-apresentando o mundo de cabeça para baixo. Trata-se da mais evidente inversão da realidade.

A política de juros praticada pelo governo Lula – definida a partir do Banco Central (BC), cujo presidente foi indicado justamente em função da ortodoxia neoliberal, além de recentemente elevado ao status jurídico-político de ministro de Estado – está centrada no combate à inflação dos preços, manutenção do superávit primário, supervalorização do real frente ao dólar e da abertura irrestrita do mercado nacional para os fluxos de mercadorias e capitais internacionais. Trata-se da mais absoluta submissão ao capital financeiro e ao FMI. O suposto “comodismo” da população brasileira – “incapaz de levantar o traseiro da cadeira”, ainda segundo Lula – nada tem a ver com as verdadeiras causas da penúria e do arrocho comprovados ao final do mês pela maioria dos assalariados do país. Ainda, desde as declarações, o BC já aumentou oito vezes a taxa básica de juros, atualmente em 19,5%.

O vice-presidente José Alencar – proprietário de grandes indústrias têxteis e recentemente beneficiado com o extraordinário aumento de seus lucros nas exportações –, que vinha sistematicamente criticando a alta taxa de juros no país, saiu em defesa do presidente. O “equilíbrio instável” que existe entre o bloco constituído no poder, no governo Lula, explica em parte a “cautela” de Alencar. Segundo Armando Boito Jr., professor de Ciência Política da Unicamp, o novo “Grupo do Planalto” teria ampliado a base de sustentação burguesa da hegemonia neoliberal no país.

“O estímulo, colonial, às exportações está enchendo os bolsos da burguesia interna ligada à agricultura e à indústria de produtos de baixa sofisticação” – afirma Boito Jr. – “porém, mesmo esse esforço exportador visa fundamentalmente re-equilibrar as contas externas e permitir, desse modo, que o grande capital financeiro continue recebendo uma remuneração elevada – arrocho orçamentário, taxa de juros alta e pagamento da dívida interna e externa – e possa ingressar e sair sem obstáculos do país (a partir de um determinado nível, o desequilíbrio externo impede essa livre circulação)”. A burguesia brasileira estaria ganhando algo mais com o governo Lula, porém, de forma subordinada às necessidades do capital financeiro. “Digamos, de passagem, o seguinte: não há contradição alguma, ao contrário do que pensam os ideólogos do novo desenvolvimentismo, entre estimular a produção e jogar os juros nas nuvens; e isso pela boa e simples razão que a produção é estimulada para produzir e para manter a remuneração do capital financeiro”, completa Boito.

“É simplismo jogar para o consumidor a responsabilidade pelo excesso de juros”, rebateu o presidente da Confederação Nacional de Indústrias (CNI) e deputado Armando Monteiro Neto (PTB-PE), juntando-se à indignação do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) Paulo Skaf, do ex-presidente FHC (PSDB-SP) e do vice-presidente da Câmara José Thomaz Nonô (PFL-AL). As declarações de empresários e políticos burgueses – repudiando em coro o comentário de Lula com expressões como “infeliz”, “bobagem” e “equivocada” – demonstram na cena política os interesses em pugna das diferentes frações burguesas que cobiçam maior fatia na exploração de mais-valia no país e, simultaneamente, sua vassalagem ao capital internacional.

Como alega o economista José Martins, nem “a posição de Alencar/máfia exportadora, nem a de Lula/FMI, vão resolver os problemas da economia brasileira (…) nem existem grandes discordâncias entre os dois”. “Enquanto as exportações de mercadorias batem recordes seguidos e a taxa de inflação volta a cair com força, os dados publicados na última semana mostram que está em curso um processo planejado de destruição da economia: produção industrial já está em queda, investimentos industriais desabando, utilização da capacidade instalada atingindo níveis críticos, desemprego da força de trabalho batendo recordes históricos; salários e rendimentos individuais continuamente arrochados, comércio interno paralisado etc.”.

O economista afirma que “simultaneamente ao aumento desmesurado das exportações nos últimos quinze meses (o que favoreceu os lucros do time do Alencar), e ao aumento criminoso do superávit fiscal interno (o que aumentou as rendas e os juros do time de Lula/FMI), a produção nacional continuou derretendo. Entre o ano de 1977, quando atingiu seu maior valor (US$ 807 bilhões) e 2002 (US$ 451 bilhões), o Produto Interno Bruto (PIB) caiu quase pela metade, em valores reais”.

Por trás da aparente divergência entre as diferentes frações das classes dominantes, esconde-se a verdadeira unidade em torno ao Consenso de Washington que – com ou sem acordo com o FMI – “tolera apenas pequenos ajustes nas perdas e nos ganhos desta ou daquela fração de capitalistas, nada mais do que isso”, nas palavras de Martins. Sua conclusão não poderia ser mais certeira:

“Quem pode mais chora menos. Nessa discussão da taxa de juros, os representantes da máfia exportadora estão chorando e os que estão executando com mais desenvoltura a política do FMI não param de rir. Mas não se iludam, logo, logo, todos eles estarão rindo juntos, se reconciliando como uma verdadeira franco-maçonaria capitalista para continuar unidos no massacre sobre os trabalhadores, quer dizer, sobre as verdadeiras forças produtivas nacionais”.