Só faltou o tapete vermelho

Condoleezza Rice
Antonio Cruz / Agência Brasil

Bem recebida, Condoleezza acerta compromissos com o governo LulaA secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, um dos maiores falcões da administração Bush, senão o maior, foi muito bem recebida pelos representantes do governo brasileiro em sua rápida visita ao Brasil.

Condoleezza desembarcou em Brasília para tratar de questões extremamente pertinentes ao imperialismo. Ela se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o chefe da Casa Civil, José Dirceu, e com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Na agenda constavam as crises dos países latino-americanos, especialmente Venezuela, Equador e Haiti, a retomada das negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e os preparativos de uma visita de Bush ao Brasil até o final do ano.

Elogios rasgados
Não faltaram elogios à política externa brasileira. A norte-americana assegurou que seu chefe, o presidente Bush, anda contente e ‘vê com bons olhos o fortalecimento do papel do Brasil, demonstrado de muitas maneiras, inclusive no excelente trabalho ao liderar a missão da ONU no Haiti’. Também elogiou o papel de mediador de conflitos que o governo Lula desenvolve para solucionar a ‘instabilidade’ reinante nos países da América Latina.

Destaca-se aí a política de mediação triangular levada a cabo pelo governo Lula para resolver os conflitos entre os EUA e a Venezuela, ou como diz um diplomata espanhol, tentar ‘lulalizar’ (domesticar) o presidente venezuelano Hugo Chávez. Pouco antes de Rice desembarcar, José Dirceu fez uma viagem relâmpago para tentar convencer o presidente Chávez a rever sua posição de expulsar quatro militares norte-americanos do país. O objetivo era voltar à Brasília para tentar trazer a ‘boa nova’ para Condoleezza. O fato impressiona pelo alto grau de submissão do governo brasileiro ao amo imperialista. Age com a mesma dedicação inescrupulosa como a de algum funcionário tentando impressionar seu chefe. Em reunião no mês passado com Condoleezza em Washington, Dirceu se lamentou afirmando que, apesar de todos os esforços, ‘Chávez não me ouve’.

Alca em pauta
A mesma postura subserviente foi repetida no que se refere a Alca. Durante um encontro ontem com a imprensa, Amorim, ao lado de Condoleezza, teve de justificar uma declaração de Lula na qual dizia que a Alca não estava na pauta. O diplomata, claramente constrangido, disse que o presidente se referia a ‘pauta jornalística’ e não das reuniões com a secretária de Estado dos EUA.

Amorim ainda garantiu que o governo brasileiro está engajado nas negociações. ‘Achamos que o momento de dar energia a essas negociações’, disse o diplomata, que completou afirmando que o tema deixou de ser ‘assunto político ideológico’, quer dizer, é apenas um negócio. Ficou acertado que as negociações oficiais serão retomadas logo depois que novo representante da USTR (Ministério do Comércio Exterior dos EUA), Robert Portman, seja empossado.

Barril de pólvora
O imperialismo não escondeu sua preocupação com a crise dos regimes democráticos burgueses na América Latina. Condoleezza disse que vê ‘Estados frágeis’ na região. A derrubada do governo equatoriano Lucio Gutiérrez por um levante de massas é mais um alerta para Bush. A queda de Gutiérrez se insere em um cenário de profunda instabilidade, que já levaram a revoltas populares semelhante que derrubaram De la Rúa, na Argentina, Mahuad, no Equador, Fujimori, no Peru, Aristide, no Haiti, e Sánchez de Lozada, na Bolívia.

A visita de Condoleezza Rice tem como objetivo reforçar o papel do governo Lula como guardião dos interesses imperialistas na América Latina. Lula utiliza seu prestígio perante os movimentos sociais para aplacar a revolta dos povos contra seus governos lacaios. De fato Condoleezza conseguiu arrancar tudo o que queria: agilidade nas negociações da Alca, intermediação dos conflitos explosivos na América Latina e o compromisso do Brasil manter a ocupação ao Haiti. Só faltou o tapete vermelho.