Leia a declaração da LIT para os atos do dia 18 contra a ocupação do Iraque

Mais do que nunca
Fora tropas imperialistas do Iraque

Este 18 de março, três anos depois de iniciada a ocupação militar imperialista do Iraque, realiza-se uma jornada internacional de mobilizações exigindo a retirada imediata destas tropas.

Estas mobilizações levam-se a cabo pouco tempo depois do atentado que destruiu a mesquita de Askariya, na cidade de Samara, considerado um lugar sagrado pelos muçulmanos xiitas, e que, subseqüentemente, produziram numerosos ataques a centros religiosos sunitas, assassinatos e enfrentamentos entre setores de ambas comunidades, com um saldo de centenas de mortos.

A maioria da imprensa mundial apresenta estes fatos como uma mostra da “violência sectária e religiosa” entre xiitas e sunitas e o “risco de guerra civil” como uma justificação para a permanência das tropas ocupantes. Resulta imprescindível perguntar-se, então, a quem beneficiaria esta guerra civil. Para responder a esta pergunta devemos primeiro ver o que ocorreu nestes três anos de ocupação imperialista no Iraque.

O fracasso de uma política
Em março de 2003, as tropas imperialistas dos EUA, Grã-Bretanha e seus aliados obtiveram uma rápida vitória militar, derrocaram o governo e o regime de Saddam Hussein, dissolveram seu exército e instalaram um regime colonial, assentado nas tropas invasoras. Mas as expectativas de Bush de que essa vitória viesse permitir a instalação de um governo fantoche sólido, e dessa forma retirar rapidamente a maioria das tropas, prontamente viram-se duramente desmentidas pela realidade.

Pouco tempo depois da ocupação, iniciou-se uma verdadeira guerra de libertação do povo iraquiano que, através de ataques e atentados, começou a acurralar de modo crescente às tropas ocupantes e lhes impediu dominar realmente o país. Os governos de Chalabi e Allawi não conseguiram quase nenhum apoio político e a armadilha das eleições de janeiro de 2005 não modificaram em essência o quadro.

Tampouco conseguiram reverter a situação os ataques genocidas a populações civis, como o realizado em Fallujah, em 2004, ou a prisão, tortura e assasinato de milhares de prisioneiros, na tristemente célebre prisão de Abu Grahib e outras similares. Por esta razão, começaram a se mostrar elementos de crise nas tropas invasoras, como os suicídios, as deserções e a drogadicção. Os 150.000 soldados enviados por Bush mostravam-se insuficientes para dominar o Iraque, mas o envio de tropas suficientes (400 ou 500.000) resulta impossível nas atuais condições políticas dos EUA.

Ao mesmo tempo, começou a se desmembrar a coalizão invasora: a Espanha teve que retirar suas tropas logo após a queda de Aznar; Berlusconi seguramente perderá as eleições na Itália e só Blair sobreviveu, mas muito debilitado. Muitos outros componentes menores da coalizão já se retiraram ou tem data definida para fazê-lo. Por outro lado, no interior mesmo dos EUA, acrescentou-se a oposição à guerra e a queda do apoio a Bush.

Abriu-se assim a possibilidade de que o imperialismo ianque seja derrotado militarmente no Iraque diante da heróica resistência das massas iraquianas, como aconteceu no Vietnã nas décadas de 1960 e 1970. Algo que é reconhecido pela própria imprensa e políticos norte-americanos.

Dividir para reinar
Frente aos diferentes fracassos de sua política, o imperialismo ianque apostou cada vez mais nos acordos com a hierarquia religiosa e a burguesia xiita, vinculada ao Irã, e à burguesia curda do norte do país, tratando de legalizar todo o acordo com novas eleições. Nesta política recebeu agora o apoio do imperialismo francês e alemão, que estava contra a invasão mas que agora “legalizavam” a ocupação.

Como parte deste acordo, por um lado, sancionou uma nova constituição que, com o pretexto de “federalizar” o país, avança em sua virtual divisão, sobre a base de linhas religiosas e étnicas, criando “zonas autônomas” com governos próprios: os oligarcas curdos Talabani e Barzani, ao norte do país, e os colaboracionistas xiitas do CSRI (Conselho Superior da Revolução Islâmica) e o Dawa, no Sul do país. Justamente as áreas que possuem as jazidas petrolíferas. O “governo central” de Bagda, zona de predomínio sunita, teria sua jurisdição real limitada a um grande deserto. Bush tenta aplicar assim o velho principio de “dividir para reinar”.

Junto a isso, o imperialismo começou a impulsionar o plano de “iraquianizar” a guerra: isto é, preparar forças armadas coloniais que se enfrentem à resistência, garantam o controle do país e assim permitam retirar uma parte das tropas ocupantes.

Os esquadrões da morte
Parte desta política de “iraquianizar” a guerra foi a criação de “esquadrões da morte” ligados ao governo, para atacar os suspeitos de simpatizar com a resistência e alentar os enfrentamentos entre xiitas e sunitas. O mais conhecido é o chamado Ejército Badr, relacionado com o CSRI (principal partido xiita do governo colonial). O Badr é responsável de numerosos ataques a sunitas e a xiitas opositores à ocupação, com centenas de vítimas; entre eles, o assasinato de 47 passageiros de um ônibus que voltavam de uma manifestação pela união do povo iraquiano, poucos dias depois do atentado. Foi acusado também de administrar uma prisão secreta nos subsolos do ministério do Interior.

A criação de “esquadrões da morte” é chamada nos EUA com o nome da “Operação Salvador” por sua similitude com a política aplicada nesse país centro-americano na década de 1980 para enfrentar o FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional). Não é casual que Bush tenha enviado ao Iraque o ex-embaixador em Honduras nessa época, John Negroponte, com grande “experiência” nestas operações.

Os atentados
Resulta evidente, então, que atentados como o realizado contra a mesquita de Askariya apontam a lógica de “iraquianizar” a guerra e levar ao povo iraquiano a um enfrentamento fratricida, em vez de uni-lo cada vez mais contra as tropas ocupantes e seus agentes locais, como o governo do atual primeiro-ministro Ibrahim al-Ja’fari.

Por exemplo, algumas informações assinalam que inclusive milícias do Exército Mehdi (dirigido por um clérigo xiita Muaqta el-Sadr, opositor da ocupação imperialista) reagiram logo após o atentado e atacaram setores sunitas, o que obrigou seu dirigente a voltar rapidamente de uma viagem ao Irã e lançar um correto chamado “a todos os iraquianos, sunitas e xiitas, muçulmanos e não-muçulmanos, a uma manifestação em Bagdá para reclamar a saída das forças de
ocupação”.

Por todo o assinalado, a LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional) condena estes atentados como provocações a serviço da ocupação imperialista. Muito deles são seguramente realizados diretamente pelo próprio imperialismo, como evidenciou o ano passado a detenção em Basora dos agentes secretos britânicos, vestidos à maneira árabe com bombas e detonadores, logo liberados violentamente pelo exército britânico. No caso da mesquita de Askariya chama a atenção a redução de sua guarda permanente de 35 a 5 soldados, no mesmo dia do atentado, ou o fato de que o trabalho altamente profissional dos que puseram os explosivos não tenha sido notado pelas tropas norte-americanas e iraquianas que patrulham permanentemente a zona.

O próprio embaixador dos Estados Unidos no Iraque, Zalmay Jalilzad, reconheceu de fato a responsabilidade imperialista nesta dinâmica de guerra civil ao expressar que “a invasão do Iraque tenha aberto uma ‘caixa de Pandora’ de violência étnica que poderia conduzir o país à guerra civil. A pergunta é: como seguimos adiante?”(Los Angeles Times, 08/03/06).

Nossa condenação a este tipo de atentados não mudaria em absoluto se o mesmo houvesse sido realizado por grupos como o de Al Zarqawi-Al Qaeda, porque permanece intacto seu caráter de provocação contra o povo iraquiano, que só beneficia aos ocupantes.

Unidade para enfrentar a ocupação e seus agentes
O imperialismo joga-se muito no Iraque: uma retirada nas atuais condições significaria reconhecer uma derrota e abandonar seu objetivo de controlar de modo direto a segunda reserva petrolífera do mundo. Por outro lado, este fato coloca a necessidade de que o povo iraquiano nacionalize e recupere a soberania sobre o petróleo. Se o imperialismo se retira do Iraque, estabeleceria um perigoso precedente de impotência que alentaria a luta de todos os povos do mundo. Em especial, ficaria muito debilitado na zona do Oriente Médio, estratégica por suas riquezas petrolíferas, onde também enfrenta situações de crise na Palestina e com o governo iraniano.

O único caminho possível, então, é escorraçar as tropas ocupantes e a seus agentes coloniais, tal como o fizeram os vietnamitas em 1975. O atentado de Askariya não pode fazer perder de vista o fato central que ocorre no Iraque: uma guerra de libertação, uma luta por recuperar a soberania e a independência do país, está derrotando as tropas imperialistas.

A LIT-QI considera que hoje é mais necessária que nunca a unidade dos xiitas, sunitas e laicos para que esse triunfo possa se concretizar. Trata-se em primeiro lugar de defender a unidade territorial do Iraque contra os intentos imperialistas e seus agentes xiitas e curdos do atual governo de al-Ja`fari (Dawa), al-Hakim (CSRI), Talabani (UPK) e Barzani (PDK). Ao mesmo tempo, condenamos todas as ações que atentem contra esta unidade.

A guerra de libertação nacional do Iraque é hoje o principal enfrentamento entre o imperialismo e o movimento de massas à escala mundial. Na ocupação, joga-se boa parte dos destinos da atual política do imperialismo norte-americano. Uma derrota de Bush e dos EUA abrirá condições muito mais favoráveis para o avanço das massas do mundo inteiro.

Por isso, desde a Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional apoiamos incondicionalmente a luta militar da resistência iraquiana (ainda que mantenhamos nossas críticas políticas a suas direções). Estamos pela derrota política e militar do imperialismo e seus colaboradores iraquianos e por sua expulsão do país para conquistar um Iraque livre e soberano.

14 de março de 2006

Secretariado Internacional da LIT – QI
(Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional)