Inflação e salários unem CUT e Fiesp

Luiz Carlos Prates, o ‘Mancha’, secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SP) e membro da Conlutas

Definitivamente, a inflação voltou. Não só nos noticiários na TV, no rádio, nos jornais e nas conversas nos bares, mas principalmente nos supermercados, com a remarcação dos preços e dos serviços.

O governo Lula aplica a fórmula clássica dos neoliberais para conter a inflação: aumenta o superávit, corta gastos sociais e aumenta a taxa de juros (uma das mais altas do mundo) para inibir o consumo.

Agora, dizem que é preciso conter os salários para combater a inflação. Esta é a recomendação do Banco Central e da maioria dos empresários. Mais uma vez, retoma-se esta “teoria” usada desde a época da ditadura militar pelo então ministro Delfim Netto.

Ocorre que, neste momento, estão sendo preparadas as campanhas salariais de grandes categorias de trabalhadores, como metalúrgicos, bancários, petroleiros, trabalhadores dos Correios e outras. Em todos esses setores, os empresários e banqueiros apresentam índices de crescimento das vendas, produção e faturamento, além de lucros na casa dos dois dígitos. Neste contexto, seria importante a união dos trabalhadores e das centrais sindicais para desmascarar essa tese patronal que culpa os salários pelo crescimento da inflação.

Aliança
Infelizmente, esse não é o caminho que está sendo trilhado pela CUT. Há alguns dias, essa central fez um ato conjunto com a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e criou um grupo de trabalho para discutir “inflação e juros”. O documento entregue pela CUT-SP à Fiesp diz que a central “orientará os sindicatos filiados a não introduzirem, neste momento, a política de gatilho automático nos salários”. A CUT-SP ainda propõe aos empresários “fazer desta campanha salarial uma demonstração de confiança no país, um exemplo de compromisso pela retomada do desenvolvimento econômico com justiça social”.

Além disso, o documento inclui propostas como a retomada das câmaras setoriais e a “democratização” do Conselho Monetário Nacional.

Ao se unir aos empresários do maior estado do país, com a federação mais poderosa dos patrões, sob o pretexto de combater a inflação, a CUT se soma à campanha que aponta os salários como responsáveis pela alta da inflação. Se não fosse suficiente, propõe “formas não inflacionárias de participação dos trabalhadores no aumento de produtividade das empresas”.

É bom lembrar que nos governos anteriores a bandeira da recomposição do valor de compra dos salários, com correção automática dos salários corroídos pela inflação, era uma reivindicação da CUT que mobilizava milhões de trabalhadores. Afinal, o gatilho salarial, se for inserido nas convenções coletivas, apenas repõe o valor que o salário tinha na data-base e não significa um aumento real nos vencimentos. Infelizmente, nem essa pequena e justa recuperação a CUT está disposta a defender.
Nós da Conlutas achamos que os sindicatos devem defender os interesses de suas bases, independentemente do governo.

Defender o aumento do poder de compra dos salários e a proteção contra a inflação é um dever de todas as centrais sindicais que dizem representar os interesses dos trabalhadores. Os pactos (ou grupos de trabalho, no caso da CUT) com os empresários, neste momento, só servem para a contenção dos salários e aos interesses dos patrões, e são totalmente prejudiciais aos trabalhadores. Essa postura da CUT deve ser repudiada pelos milhares de trabalhadores que fazem suas campanhas salariais neste segundo semestre.

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