Só uma forte mobilização conjunta pode derrotar o aumento dos preços

Dirceu Travesso*, de São Paulo (SP)

O segundo semestre de 2008 está começando e várias categorias de peso da classe trabalhadora preparam suas campanhas salariais. Apesar da crise que castiga os EUA e se alastra para o restante do mundo, no Brasil a economia ainda cresce. Os empresários têm ganhos recordes, assim como os banqueiros. Só para se ter uma idéia, o Bradesco sozinho lucrou mais de R$ 4 bilhões neste primeiro semestre.

Não é à toa que os primeiros seis meses do ano tenham registrado um recorde na remessa de lucros ao exterior. As multinacionais mandaram para fora quase US$ 19 bilhões. Quase o dobro do que foi enviado no mesmo período do ano passado. As multinacionais lucram aqui e enviam os lucros para fora, para tapar o buraco da crise financeira. Ou seja, no Brasil de Lula a grande burguesia lucra muito, e muito.

Era de se esperar que, num momento em que todos ganham, os trabalhadores fossem à luta para conseguirem aumentos reais de salários. Mas, enquanto os banqueiros e empresários têm garantida a sua parte do crescimento, os trabalhadores amargam a perda de parte cada vez maior de sua renda.

Inflação dos alimentos acelera
A inflação está de volta, mais forte nos alimentos, que afetam mais os trabalhadores de baixa renda. O preço dos alimentos sobe de forma acelerada e não há previsão de que isso mude.

A pesquisa mensal de preços realizadas pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos) comprova que, no mês de julho, os preços continuavam a subir. O preço da cesta básica subiu em 14 das 16 capitais pesquisadas pelo departamento. Em Curitiba, a inflação dos alimentos chegou a 7,35% só no mês de julho. Em Salvador e Porto Alegre, superou os 5%. Os produtos que mais subiram foram, respectivamente, a carne, o leite e, novamente, o feijão. Ou seja, a base da alimentação dos brasileiros.

Esse aumento segue a tendência dos últimos meses. No semestre, a inflação dos alimentos disparou em todas as capitais. Em Curitiba, ultrapassou os 30%. Em Recife e Natal, ficou acima dos 26%. Os trabalhadores de João Pessoa e Florianópolis amargaram alta de 25% no período.

Com essa alta, as pessoas estão tendo que trabalhar mais para sobreviver. Em julho de 2007, por exemplo, quem recebia um salário mínimo em São Paulo tinha que fazer uma jornada de 108 horas para comprar uma cesta básica. Já no mesmo mês deste ano, precisou trabalhar 133 horas e 40 minutos para comprar os mesmos produtos.

Inflação penaliza os mais pobres
A alta nos preços recai principalmente sobre as famílias mais pobres, que são obrigadas a gastar uma fatia bem maior do salário com alimentação. Em junho, por exemplo, as famílias com renda média de R$ 377 tiveram inflação de 1,48%. As que ganham em média R$ 934 sofreram com 1,21%. Já as famílias com renda R$ 2.792 sentiram uma inflação de 0,72%.

O Dieese aponta ainda que o salário mínimo deveria valer hoje R$ 2.178 para cumprir sua função constitucional, ou seja, garantir a satisfação das necessidades básicas de uma família, como alimentação, saúde e educação. Esse valor corresponde a 5,25 vezes o atual mínimo de R$415. Só para se ter uma idéia, em julho de 2007 o salário mínimo era 4,4 vezes menor do que o mínimo do Dieese.

Isso significa que, ao contrário do discurso do governo, os salários estão cada vez mais achatados. Os ganhos “reais” obtidos pelos trabalhadores no último período, tão alardeados por governo, imprensa e empresariado, não repõem todas as perdas da inflação.

Inflação é confisco dos salários
A burguesia e os meios de comunicação tentam vender a idéia de que a inflação é causada pelo aumento do consumo, que estaria superando a oferta. Assim, o aumento dos preços parece um fenômeno natural da economia. A verdade, porém, é que a inflação é uma espécie de confisco dos salários pelos empresários. Como tudo está aumentando , menos os salários, são os trabalhadores que sofrem uma redução de seu poder de compra. É um aumento brutal da exploração.

Reposição dos salários já!
Com os grandes lucros das empresas, o natural é que os trabalhadores busquem a recomposição das perdas inflacionárias. Além de aumento real dos salários, fruto do aumento da produtividade, é preciso criar mecanismos que protejam os salários da corrosão provocada pela inflação.

Esta é a posição da Conlutas, que orienta todos os sindicatos e organizações filiadas a buscar nas campanhas salariais aumento real de salário e reivindicar o reajuste automático todas as vezes que a inflação atingir, por exemplo, 3%. Assim como exigir redução e congelamento dos preços dos alimentos e gêneros de primeira necessidade. Fazemos isso porque acreditamos que os salários não são responsáveis pela inflação.

Por isso é fundamental que, neste segundo semestre, as diferentes categorias se unam numa luta conjunta e implacável contra a inflação. É necessário pôr em prática a deliberação do Congresso da Conlutas e unificar as campanhas salariais em torno da exigência de congelamento imediato dos preços e da reposição automática dos salários, de acordo com a inflação.

* Dirceu Travesso,
o Didi, é o candidato do PSTU à Câmara de Vereadores de São Paulo. Militante histórico, Dirceu é uma liderança sindical nacional. Ajudou a fundar a CUT e foi um dos principais impulsionadores da Conlutas.
Post author Da redação
Publication Date