O ano de 2021 começou com a tragédia anunciada da segunda onda da COVID-19, com as cenas dramáticas dos pacientes morrendo sem oxigênio em Manaus (AM), e outra tragédia também anunciada. Milhões de pessoas estão agora se sufocando, não por falta de ar, mas de dinheiro para sobreviver.

A grande maioria das 67 milhões de pessoas que conseguiram sobreviver no ano passado por conta do auxílio emergencial estão hoje absolutamente à míngua. Considerando que, desses beneficiários, 20 milhões faziam parte do Bolsa Família, os outros 47 milhões ficaram sem qualquer tipo de benefício. Uma pesquisa do Datafolha recém-divulgada mostra que sete em cada dez pessoas que dependiam do auxílio estão sem nenhuma fonte de renda.

O problema não se restringe aos trabalhadores que perderam seu sustento com as medidas de distanciamento indicadas pelos governos, bastante limitadas por sinal. Outra questão é que o fim do auxílio emergencial tira da economia recursos que garantiam não só a sobrevivência dos trabalhadores sem renda, mas também o sustento de toda uma rede de pequenos negócios: o pequeno comércio do bairro, o mercadinho, o trabalhador autônomo prestador de serviços.

Para se ter uma ideia do que isso representa, calcula-se que, no total, o auxílio emergencial tenha jogado R$ 293 bilhões na economia. Mesmo com a sua redução pela metade, decretada pelo governo Bolsonaro e Paulo Guedes, eram ainda R$ 25 bilhões por mês. É quase o orçamento do Bolsa Família de 2020.

Isso, aliado à inflação dos alimentos e de produtos básicos, como o gás de cozinha, vai provocar uma segunda crise humanitária com mortes evitáveis, como em Manaus.

Fim do auxílio pode triplicar miséria

– Entre 21 e 31 milhões cairão na miséria, com menos de R$ 155 por mês.
– A miséria extrema, que era de 5% em novembro, vai pular para 10% a 15%.
Fonte: Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

 

ÓDIO A POBRE

Governo avisa: “Não vamos dar dinheiro para baile funk”

Foi essa a resposta de um funcionário direto de Paulo Guedes a um jornalista sobre a possibilidade da recriação do auxílio. Na visão do governo, a medida não seria mais necessária, já que “os taxistas estão nas ruas, as cidades estão movimentadas” e teria até “baile funk acontecendo”.

Esse é o resumo do ódio e do preconceito a pobre de Guedes e da política genocida de Bolsonaro. Primeiro, foi justamente pelo fato de as cidades estarem “movimentadas” que estamos sofrendo agora um novo pico da pandemia. Segundo, as parcas medidas de distanciamento social tomadas pelos governos estaduais, a contragosto de Bolsonaro, não causaram a enorme crise social que estamos vivendo agora. Se fosse assim, já estaríamos agora com tudo aberto, em plena recuperação, e ocorre o contrário, com a explosão do desemprego e fechamento de grandes empresas, como a Ford e a 3M.

A pandemia não causou a crise econômica, que já vinha de antes, mas a aprofundou ainda mais. Tudo isso mostra que, junto à política deliberada de Bolsonaro de disseminar o vírus para proteger os lucros de banqueiros e grandes empresários, está a política econômica de Paulo Guedes, tratado como queridinho pela grande imprensa que hoje ataca Bolsonaro. Ao lado deles, estão os banqueiros e os investidores.

Uma matéria do jornal Valor Econômico do dia 24 de janeiro estampa: “Risco de volta do auxílio preocupa o mercado”. Isso num momento em que pessoas morrem sufocadas por falta de oxigênio hospitalar, as UTIs lotam em todo o país e existe a possibilidade real de uma iminente explosão social. Mas os banqueiros estão preocupados com a volta do auxílio emergencial e o teto dos gastos. “Se for de R$ 600, dá uma desandada boa nos mercados”, reclama o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez.

 

PARA NÃO MORRER DE FOME

Auxílio emergencial tem que voltar já!

Para impedir uma catástrofe social, além da tragédia sanitária que estamos vivendo, é necessária a volta imediata do auxílio emergencial e sua manutenção enquanto durar a pandemia. Guedes agora defende que a vacinação em massa torna desnecessário o auxílio. Mas e até lá? E com esse governo que faz de tudo para sabotar as vacinas? Não há nem sequer um plano concreto de vacinação, e a crise pode durar meses ou anos.

Sem o auxílio, além de milhões serem jogados na miséria, é impossível realizar uma quarentena de fato, necessária para conter a pandemia. Dinheiro para isso existe. Basta tirar dos ricos. Um imposto emergencial sobre a fortuna dos 43 bilionários do país, de 40%, arrecadaria algo como R$ 325 bilhões.

É necessário garantir renda e também suporte ao pequeno negócio e aos pequenos empresários. O governo deve assumir a folha de pagamento daqueles que possuem até 20 funcionários, isentando-os de taxas e tributos, além de oferecer linhas de crédito a esse segmento, que é responsável por 80% da força de trabalho no país.