(Brasília - DF, 16/09/2020) Durante a posse do ministro da saude o presidente Jair Bolsonaro mostra uma caixa do remedio Hidrocloroquina.Foto: Carolina Antunes/PR

O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Luiz de Britto Ribeiro, escreveu uma nota publicada na Folha de S. Paulo do último dia 24 de janeiro (seção Tendências e Debates) com o objetivo de se posicionar sobre a questão do assim chamado “tratamento precoce” da Covid-19. Esta nota, como muitas vezes ocorre, serviu mais para desnudar a falsidade e hipocrisia da direção do CFM do que para ele defender um posicionamento coerente.

Antes de entrar no mérito da posição, é preciso destacar o rançoso e arrogante corporativismo do presidente do CFM, que trouxe à tona seus preconceitos primitivos contra os “não médicos” que se dizem cientistas e que ficam “dando opiniões” sobre a epidemia, prevenção e tratamentos para a infecção pelo coronavírus. É obvio que ninguém precisa ser médico para ser cientista, e que a maioria dos médicos não é cientista, embora devam pautar suas condutas diagnósticas e terapêuticas em bases científicas. É obvio, menos para o presidente do CFM, que um virólogo pode ser uma pessoa formada em biologia, um estatístico pode ser formado em matemática, um pesquisador da indústria farmacêutica pode ser um farmacêutico formado.

E todos, dentro de suas especialidades, podem e devem dar sua contribuição à ciência e ao combate à pandemia de Covid-19. Esta contribuição pode ser tão ou mais importante do que a de um médico, por exemplo, na elaboração de uma vacina ou medicamento que combata o vírus, na sensibilização da sociedade sobre a importância do uso do distanciamento social, máscaras, etc.

Indo ao objetivo principal do texto do presidente do CFM, foi claramente defender a postura omissa e anticientífica assumida pelo órgão na atual pandemia. Sob o argumento de que é uma doença nova, o CFM tem se recusado a condenar ou mesmo criticar os protocolos de “tratamento precoce da Covid”. É sabido que a maioria esmagadora dos trabalhos científicos até agora não detectaram nenhuma eficácia deste tratamento, feito por uma combinação de cloroquina, ivermectina e azitromicina. No texto, o presidente coloca que há trabalhos a favor e contra o uso, mas não diz que a maioria absoluta é de contrários, e que várias associações de especialistas desaconselham o uso destas drogas nos casos de Covid-19, pois a cloroquina pode ter sérios efeitos colaterais cardíacos e o uso indiscriminado de antibióticos tem contraindicação formal, pois faz com que os microorganismos adquiram resistência a eles.

A omissão do CFM deixou o campo livre para o governo Bolsonaro fazer agitação e propaganda para confundir a população sobre a Covid. Primeiro, dizendo que é uma gripezinha, depois fazendo campanha contra o isolamento e depois ainda fazendo propaganda do “tratamento precoce ” em contraposição à necessidade da vacinação. Diga-se de passagem, o presidente do CFM escreve em seu artigo que não se sabe se o lockdown é mais eficaz do que o distanciamento social. Esta afirmação também é totalmente equivocada. É evidente que o lockdown protege muito mais, basta ver os casos de China e Nova Zelândia. Mas o lockdown exige uma férrea vontade política do governo para suprir as necessidades da população e se enfrentar com o setor patronal, por isso a dificuldade da maioria dos governos capitalistas de aplicá-lo seriamente.

Ao deixar o campo livre para o bolsonarismo, de quem é aliado, o CFM se omitiu em relação à saúde da população, permitindo que ela fosse enganada pelo governo sobre a gravidade da pandemia, e estamos pagando já com quase 220 mil mortos. E se omitiu também frente à categoria médica, pois houve vários locais aonde os médicos foram pressionados a prescrever algo que sabiam não fazer efeito e ter possibilidade de efeitos colaterais.

A “cegueira ideológica” só teve um lado. O lado dos que militaram contra a ciência, contra a população e contra os próprios trabalhadores da saúde. E o mais constrangedor é que agora o governo Bolsonaro resolveu se transformar em defensor da vacinação e está apagando dos registros do Ministério da Saúde o tal “protocolo de tratamento precoce” da Covid.