Fim da linha para Romano Prodi

Mega protesto acelerou crise da coalizão governistaNo mesmo dia em que o premier britânico Tony Blair anunciou a retirada de parte das tropas de seu país do Iraque, outro premiê, o italiano Romano Prodi, renunciou a seu cargo em função de posições pró-norte americanas defendidas por seu governo.

Prodi renunciou horas depois de seu governo ser derrotado por dois votos em uma votação no Senado. O governo desejava manter o contingente de 1.900 soldados italianos no Afeganistão – ocupado por topas da OTAN – e a permissão da expansão de uma base militar americana em Vicenza, no norte da Itália. A proposta dividiu a base parlamentar de Prodi. Alguns partidos de sua coalizão se abstiveram ou simplesmente votaram contra a medida.

Caberá agora ao presidente italiano optar entre a nomeação de um outro premiê saído da coalizão governista ou a convocação de novas eleições

Repúdio
A situação do governo ficou muito difícil depois do último dia 17. Nessa data, cerca de 200 mil pessoas realizaram uma grande manifestação contra a ampliação da base norte-americana em Vicenza. Entre as organizações presentes estava o Partido da Alternativa Comunista (PdaC) – seção italiana da LIT. Ao final do protesto, Patricia Cammarata, dirigente do PdaC, realizou uma das três últimas intervenções de encerramento do ato, exigindo a retirada da base militar do país e dos soldados italianos do Afeganistão.

O sucesso do protesto contribuiu decisivamente para a crise da coalizão governista. É importe recordar que a coalizão que levou Prodi ao governo foi eleita, em grande medida, devido a enorme rejeição dos italianos à guerra contra o Iraque. O governo anterior de Silvio Berlusconi atuou como um fiel aliado Bush. Mas o apoio custou caro para o ex-premiê. As poderosas mobilizações que percorreram o mundo todo contra a invasão militar anglo-americana explodiram também na Itália: apenas 8 % dos italianos apoiavam a guerra. A eleição de Prodi foi uma expressão distorcida desse sentimento. Apesar de retirar os soldados do Iraque, o novo governo italiano tentou preservar uma relação “equilibrada” com os EUA. Por isso defendeu a permanência de seus soldados na ocupação colonial do Afeganistão e a ampliação da base de Vicenza, que passaria acolher 4.500 soldados, ao invés dos atuais 2.750 militares. Prodi chegou a receber o presidente fantoche do Afeganistão, Hamid Kharzai, assegurando a manutenção da presença militar italiana no país.

Mas depois dos protestos do dia 17 o novo governo viu se estreitar ainda mais sua margem política para implantar seus projetos. O governo ainda tentou chantagear os membros da coalizão para votarem a favor da medida. A Refundação Comunista (integrante do governo), por outro lado, tentou contemporizar, propondo a realização de um plebiscito. Procuravam assim salvar a coalizão. No entanto, Massimo d`Alema, o chanceler e presidente dos Democratas de Esquerda (antigo Partido Comunista Italiano), o principal partido italiano de centro-esquerda, afirmou que Prodi renunciaria se perdesse a votação. A afirmação terminou se convertendo em uma arma contra o próprio governo. A extrema-direita, capitaneadas pela Força Itália – partido de Berlusconi – realizou manifestações pedindo a cabeça do premie logo após a votação no Senado.

A crise do breve governo Prodi – de apenas 10 meses – está inserida no marco geral da crise do imperialismo norte-americano, cada vez mais submerso no pântano iraquiano. Prodi tentou se reaproximar dos EUA e ajudá-los em um dos fronts da guerra. Para isso levou adiante os projetos de colaboração militar com imperialismo ianque defendidos por Berlusconi.

Especula-se que Prodi possa estar fazendo uma manobra para tentar permanecer no cargo, fazendo que todos os partidos de sua coalizão passem a apoiá-lo. Na prática, isso vai significar que o premiê terá carta branca para levar seu governo ainda mais à direita.