Estudantes haitianos falam ao Portal do PSTU

Os haitianos Franck Seguy e Michaelle Desrosier participaram do 1º Congresso da Conlutas e do Encontro Latino-Americano e Caribenho de Trabalhadores. Eles são militantes da Asosyasyon Inivèsitè ak Inivèsitèz Desalinyèn (Asid) do Haiti. Atualmente, fazem mComo é o movimento estudantil no Haiti?
Franck
– Vai depender de como você leva essa questão em consideração. No Haiti tem movimento estudantil, mas é muito fraco. Porque no Haiti, agora, o país todo está como uma grande ONG. A onguização do país consegue trazer, ao movimento estudantil, as idéias contra a classe trabalhadora. Porém há um movimento, na universidade, que está ao lado do povo, mas não é a maioria. É um movimento que está se reconstruindo para fazer uma ruptura com o capital.

Michaelle – Para completar, no movimento de estudantes haitiano, tem uma divisão. Tem uma parte, a minoria, que está ao lado do povo. E tem uma maioria que, agora, se constitui como ONG e estão fazendo projetos para mandar para as ONGs e querem dinheiro para implementar projetos. A grande maioria é isso.

Como foi a participação da juventude na última onda de manifestações contra o preço dos alimentos?
F
– Nessa época, a gente já estava no Brasil. Mas, através dos contatos que fazemos com nossos camaradas no Haiti, a gente sabe que os estudantes foram muito presentes, os estudantes marxistas foram muito presentes. Na faculdade de Ciências Humanas da universidade pública, tem um movimento estudantil um pouco forte no sentido do trabalho para superar o capitalismo. Esse movimento esteve à frente do que aconteceu no Haiti no mês de abril. Agora, os estudantes desse movimento são perseguidos por causa de sua posição contra o capitalismo. Alguns deles, não podem voltar para as suas casas porque a polícia, a Minustah, as tropas estrangeiras perseguem eles, pois eles estão ao lado do povo para combater a fome. Mas eles estão trabalhando, no teatro e na mobilização de rua, na mobilização dentro da universidade para caminhar contra o capitalismo.

M – Esse grupo de estudantes é criminalizado na mídia das empresas capitalistas. Porque, no Haiti, as mídias são para os capitalistas. Não tem alternativa. Então, essas mídias têm uma campanha de criminalização e desqualificação desses estudantes, porque eles estão contra a ordem dominante.

F – Eles falam na mídia que a polícia e o governo têm de ter cuidado com esses estudantes porque eles têm um projeto de chegar ao poder. Se eles chagam ao poder, vai ser muito terrível para a burguesia. Porque a mídia está ao lado da burguesia, está criminalizando os estudantes marxistas que estão ao lado do povo. O Haiti tem essa tradição de criminalizar os marxistas. No tempo da ditadura, a leitura dos livros marxistas foi proibida como crime. Se você andasse com um livro vermelho, mesmo que fosse a bíblia, você era um criminoso e ia para a prisão. O Haiti tem de se organizar, o Haiti precisa de solidariedade, tem de se organizar dentro do país contra a burguesia.

Como vocês estão vendo a invasão pelas tropas da ONU e a atuação do Brasil comandando a Minustah?
F
– Em 2002, Aristides, o antigo presidente, tentou substituir a reitoria da universidade pública pelos seus próprios homens de confiança. Na Constituição do país, a universidade é autônoma e independente. Autônoma do poder público e independente das empresas privadas. Por causa desse ato, os estudantes progressistas saíram às ruas para protestar. Com esse movimento, uma parte da burguesia que estava contra Aristides – porque ele queria dividir as riquezas dessa burguesia, e essa burguesia não queria dividir, queria só o monopólio, tudo para ela –, quando os estudantes saem contra Aristides, essa parte da burguesia, chamada “grupo dos 184”, vai às ruas também para se manifestar. Quando Estados Unidos, Canadá e França percebem que o movimento da rua poderia ser um movimento revolucionário, tiram Aristides do poder.

Os Estados unidos são muito mal-vistos pelo povo haitiano, porque, no Haiti, todo mundo sabe que os Estados Unidos são ianques. Por causa disso, eles utilizam o Brasil. Por que o Brasil e não outro país? Porque o povo haitiano considera o povo brasileiro como um povo irmão, gosta muito do povo brasileiro. Sobretudo, do futebol do Brasil. Quando a seleção brasileira joga e ganha, é como se fosse carnaval no Haiti. Todo mundo sai à rua para festejar, dançar e cantar. Todo mundo fica feliz, muito alegre. E como a bandeira do Brasil já está nas casas do Haiti, quando eles mandam as tropas para lá, não é difícil. A bandeira já está. Também porque Lula estava procurando um lugar para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Então, utiliza as tropas brasileiras. Para justificar essa invasão, eles tentaram pela distribuição de armas nas favelas para criar uma guerra civil. Eles querem fazer com que acreditemos que estão pacificando o país. Mas no Haiti não há guerra e nunca teve guerra. Tinha um movimento popular nas ruas para manifestar, para tentar mudar as coisas. Mas a burguesia, que tem medo do povo e precisa assegurar as suas propriedades privadas, pedem tropas para assegurar as empresas.

A primeira coisa, as tropas brasileiras fazem uma distribuição de armas nas favelas, principalmente em Cité Soleil, a maior favela do país. A segunda coisa é o fenômeno do seqüestro. Esse fenômeno se iniciou no Haiti em 2005, com a chegada das tropas estrangeiras. Agora, toda vez que o povo tenta sair às ruas, para se manifestar contra a fome ou contra qualquer coisa, as tropas, sobretudo as brasileiras, vão lá para matar os ativistas. É o que acontece até agora no Haiti.

M – Essa invasão no Haiti pelas tropas estrangeiras está na linha da nova divisão internacional do trabalho do capitalismo moderno. Nessa invasão, se vê as burguesias do Haiti e do Brasil. O Brasil está tentando, através de seus empresários, implantar zonas francas no Haiti. Isso é possível porque há tropas brasileiras no Haiti. Essa invasão tem um papel econômico muito importante para o capital.

F – Por exemplo, no dia 28 de maio, o filho de José Alencar [vice-presidente do Brasil], foi para o Haiti com Lula para verificar onde implantar a zona franca, o agronegócio, a indústria têxtil e o biodiesel. A mão-de-obra no Haiti é muito barata.

E a situação do povo é de miséria…
Não só a situação dos trabalhadores é muito fraca, mas os trabalhadores também são fracos em suas reivindicações. Por exemplo, Batay Ouvryie está fazendo um bom trabalho, mas não pode fazer tudo. No Haiti, o papel das ONGs é determinante. A chamada sociedade civil do Haiti está despolitizando a situação. A maioria dos trabalhadores do Haiti não tem essa consciência de que existe uma luta de classes no país. Com a onguização do país, o discurso é a cidadania, todo mundo é cidadão, não há luta entre as classes. No grupo dos 184, têm até camponeses.

M – É um grupo de burgueses em que atuam até camponeses, organizações de mulheres e grupos de jovens. Mas a burguesia tem a hegemonia.

F – Está todo mundo dentro. Mas são os empresários, os latifundiários que estão na vanguarda desse grupo. Os trabalhadores estão lá porque não entendem que tem uma luta entre as classes no país. Infelizmente, não temos ainda muita força para tuar no país todo e fazer o trabalho que se tem de fazer. É um ponto negativo para nós.

M – Os trabalhadores têm como instrumento, no capitalismo, as associações sindicais. Mas no Haiti, os sindicatos estão nas mãos dos patrões. Você encontra no Haiti sindicatos “apolíticos”.

F – Como se as reivindicações dos trabalhadores não fossem políticas. Lembro, muitas vezes, um ministro que foi secretário de Comunicação no governo de Aristides ia para a imprensa dizer que os estudantes não deviam fazer política. Muitas pessoas acreditam nisso. Muitas pessoas bem formadas, na universidade, acreditam nisso, como se a questão da educação não fosse política. O país todo é despolitizado. O trabalho no Haiti é muito difícil. O povo está com fome, mas há muitos bem-formados cujo pós-modernismo destruiu tudo o que eles podiam fazer. As ONGs, com pessoas formadas na Europa, chegam com idéias pós-modernas e acabam com o país.

O que vocês estão achando do Congresso da Conlutas?
M
– Eu acho que o congresso, politicamente, é muito avançado. A Conlutas tenta fazer ligações entre as temáticas de classe e dos oprimidos em geral. Nós apreciamos a dinâmica das discussões dentro da Conlutas. Achamos que é uma organização muito avançada politicamente. As resoluções foram adotadas, em primeiro lugar pelas organizações de base e, agora, estão sendo discutidas pelo conjunto. A gente também acha interessante a polêmica que existe dentro da Conlutas. Todo mundo dá sua opinião, há diferenças entre diferentes partidos e organizações e isso é uma boa dinâmica.

F – Eu gostaria de acrescentar uma coisa: a luta dentro da Conlutas contra a burocratização do movimento. No sistema capitalista, esse ponto é fundamental. Para mim, a Conlutas está fazendo uma experiência de socialismo. Muitas vezes, as pessoas, até os revolucionários, acham que têm de esperar até o fim do capitalismo para iniciar o socialismo, como se o socialismo fosse um ideal. Mas eu já vejo que dentro da Conlutas o socialismo é um movimento real. Desse ponto de vista, a Conlutas é uma esperança para a luta dos trabalhadores não só do Brasil, mas da América Latina e do mundo todo. Na Europa, por exemplo, os revolucionários consideram que a esperança do mundo é a América Latina. Eu acho, não sei se é verdade, mas acho que o papel do Brasil é fundamental, é muito importante. Para mim, o Brasil pode ser a esperança da América Latina.

Mas, nas minhas observações, a Conlutas precisa crescer um pouco mais. Por exemplo, faz cinco dias que estou aqui e não ouvi uma palavra sobre a questão indígena dentro desse congresso. Eu acho que a questão indígena é uma questão muito importante não só para a América Latina em geral, mas especialmente para o Brasil. Quando cheguei ao congresso, percebi que o racismo contra os indígenas é negado até no seio dos revolucionários, porque não ouvi nenhuma palavra sobre essa questão que, para mim, é muito importante.

M – A negação dos indígenas na sociedade coloca a questão como uma coisa do passado, como se os índios não existissem mais. Mas eles são os mais explorados, os mais oprimidos pelo racismo no capitalismo.

F – A Amazônia, por exemplo, o que pode acontecer na Amazônia é fundamental. Que seja o capitalismo do Brasil, que seja o transnacional. O que vai acontecer com a Amazônia?

M – Eu acho que é uma questão muito mais importante e que deveria ter uma resolução, como a questão da Venezuela. Nesse congresso, Venezuela foi muito focada nas discussões.

F – Eu acho que a luta contra o racismo contra os negros também não teve o papel que deveria ter tido no congresso. A questão negra é discutida apenas nos quilombos e ao mesmo tempo em que havia uma atividade de animação dentro do congresso. Por conta disso, tinha poucas pessoas no quilombo. O capitalismo precisa do racismo, todos sabem disso. Não há capitalismo sem racismo. Mas os revolucionários têm de combater o racismo dentro de sua organização. O problema do Brasil é que o racismo é negado. É negado na sociedade e também no seio das organizações revolucionárias. Para mim, isso é um grande desafio. Fiquei observando: os negros estão aqui para fazer a parte cultural e para falar sobre a questão das minorias, mas para levar em consideração o papel dos trabalhadores em geral, são os brancos. Eu acho que a Conlutas não deve ter medo de levar isso em consideração. Esse ponto tem de ser discutido. A gente não pode reproduzir o que o capitalismo faz. A gente tem de romper com o capitalismo. No capitalismo, a cultura negra, está valorizada, mas como mercadoria. Dentro da Conlutas, a cultura negra pode ser valorizada também, mas só para divertir. A gente tem de ter cuidado com esse ponto de vista. Os negros podem fazer a parte cultural, mas eles podem fazer outras coisas também. Mas nesse congresso, os negros e as negras fazem só a parte cultural. Acho que esse ponto deve ser discutido no futuro da Conlutas.

M – Essa temática é um desafio não só para a Conlutas, mas para todo o movimento que quer ser um movimento total, que quer trabalhar todas as opressões. Quando um movimento como a Conlutas, que quer lutar contra o capitalismo e contra a opressão no capitalismo, essa questão liga todo mundo. Mas quando se trata da questão do racismo e do machismo, por exemplo, é preciso ter muito cuidado. Nem todo mundo se interessa, por isso é um desafio muito grande.

O que vocês estão esperando do Elac?
F – Eu estou preocupado pelo lugar que o caso do Haiti vai ocupar nesse encontro. No Haiti, as tropas estão assegurando as empresas privadas. São tropas do Brasil, da Argentina, da Guatemala, do Chile. A gente precisa da solidariedade dos povos desses países. Não só para tirar as tropas, mas também para manter os militares desses países nesses países, para que não mandem mais militares ao Haiti. Estamos esperando que a situação da América Latina seja levada em consideração na sua totalidade. A questão indígena, dos negros, dos trabalhadores, das mulheres, essas questões tem de ser debatidas. Não só para falar. Tem de ter resoluções e planejamento para agir. Os revolucionários europeus consideram que a esperança do mundo é a América Latina. Mas a esperança da América Latina são os indígenas. A gente tem de debater a necessidade da reparação para esse povo. O povo indígena está esquecido nesse congresso. Acho que esse ponto vai ser discutido no Elac. Os trabalhadores brasileiros têm de ser solidários com o povo indígena. Eu estou preocupado para ver como essa questão vai ser levada no encontro. Estou muito preocupado com a questão das tropas estrangeiras no Haiti e com a questão indígena.

Como vocês estão vendo essa unidade entre organizações de vários países para construir o encontro?
M – Eu acho que esse encontro internacional é produto de um ganho de consciência de que o capitalismo está atuando na América Latina de uma maneira global. Os países da América Latina são vítimas da opressão do capitalismo de uma forma comum. Isso que produz esse desejo de se unir para lutar juntos, porque os países da América Latina e do Caribe têm uma história comum de colonização. Os indígenas foram destruídos no Caribe completamente. Na América Latina, foram deixados para trás do resto do povo. E, agora, na nova divisão internacional do trabalho, os países da América Latina e do Caribe, que são os mais pobres do mundo, devem produzir biocombustíveis para os grandes países capitalistas. Têm muitas questões comuns que podem explicar essa junção dos países da América Latina.

M – Eu acho, também, que na América Latina, com os governos ditos de esquerda que foram eleitos, em quem se tinha uma grande esperança, tanto por parte dos trabalhadores da AL quanto dos países da Europa. A gente precisa fazer uma grande revisão: onde estamos agora com esses governos? O que a gente pode esperar ainda desses governos? Qual vai ser nossa posição frente a esses governos chamados de esquerda, mas que, na realidade, a atuação deles leva a muitas interrogações do ponto de vista socialista.

F – E para concluir, quero dizer que a convocação do Elac pode ser considerada uma tomada de consciência. A história já mostrou que o socialismo num só país é impossível. O socialismo deve ser um movimento dos trabalhadores do mundo todo, porque o capitalismo já está globalizado. A luta para superar o capitalismo deve ser globalizada também. O Elac vai, para nós, nesse sentido.