Em meio à indiferença, continuísmo marca também o segundo turno

O segundo turno das eleições municipais, realizado nesse dia 26, confirmou o tom marcadamente continuísta da disputa eleitoral e, sobretudo, o marasmo com que se deu o pleito. O clima frio e indiferente sentido durante todo o período eleitoral foi ainda maior nesse segundo turno, mostrando que, se por um lado a população ainda não rompeu com a democracia dos ricos e seu jogo viciado, por outro, tampouco nutre grandes ilusões ou expectativas de mudanças.

Expressão disso, o índice de abstenção superou os 18% no país. No primeiro turno, foi de 14,5%, o que já é considerado um índice elevado. No Rio de Janeiro, aonde a imprensa apontou uma suposta polarização entre Eduardo Paes, candidato do governo, e Fernando Gabeira, do PV, mas cumprindo o papel de testa-de-ferro do PSDB, a abstenção chegou a 20%, o equivalente a quase 1 milhão de eleitores. Foi percentualmente o maior índice de abstenção registrado nesse segundo turno.

Fortalecimento relativo do governo
Como os mandatos que se encerram agora surfaram na onda de crescimento econômico dos últimos anos, a taxa de reeleição dos atuais prefeitos foi a maior da história. O PT, embora não tenha o resultado que esperava, conseguiu se fortalecer nessas eleições. O partido conquistou o maior número dos 77 municípios com mais de 200 mil eleitores. Os partidos que formam a base aliada do governo vão governar a partir de 2009 mais de 72% do eleitorado, ou 93,5 milhões, o que inclui 20 das 26 capitais do país.

Tal vitória, no entanto, mostra seus limites com o resultado eleitoral em São Paulo. A reeleição do atual prefeito Gilberto Kassab (DEM) sobre Marta Suplicy (PT) tira das mãos do governo Lula a administração da principal cidade do país. Mais do que isso, impulsiona a candidatura do governador do estado José Serrar para a presidência em 2010. Isso significa que, mesmo perdendo espaço, a oposição de direita não morreu e guarda cartas nas mangas para o futuro.

Mesmo no Rio de Janeiro, o candidato do governo, o ex-oposicionista Eduardo Paes (PMDB) ganhou de Fernando Gabeira (PV) com uma diferença muito pequena de votos, cerca de 50 mil. Gabeira, apesar do discurso independente, apolítico e do tom de “novidade” de sua campanha, alinhou-se ao PSDB, ao DEM e demais partidos da oposição de direita, emprestando sua biografia para reavivar a direita tradicional no estado. Mesmo perdendo, ele saiu fortalecido das eleições, podendo cumprir importante papel em 2010.

O papel da crise
O resultado eleitoral mostra que tanto o governo e os partidos da base aliada quanto a oposição de direita se beneficiaram do crescimento econômico mundial do último período. Com a crise econômica que se avizinha e já faz seus primeiros estragos no país, a diferença entre oposição de direita e governo vai diminuir ainda mais, já que será uma só política a ser aplicada. Cortes no orçamento e arrocho.

Assim como o governo Lula já afirmou que haverá cortes no orçamento da União, o recém-eleito prefeito de São Paulo, Kassab, já avisou que também passará a tesoura no orçamento da cidade. “Se a crise nos atingir, vamos cortar despesas, se for preciso”, chegou a afirmar em entrevista ao jornal O Globo, após as eleições é claro.

Depois de eleitos, os candidatos vão mostrando a sinceridade que não expressaram nas campanhas. A crise, enfim, vai desnudar as falsas promessas que inundaram as eleições nesse ano, tanto por parte do PT quanto por parte da oposição de direita.