Da provocação de Uribe aos acordos com Chávez

Poucos dias antes de deixar a presidência da Colômbia, Álvaro Uribe lançou mais uma provocação contra a Venezuela. Uribe denunciou uma suposta presença de tropas da guerrilha das Farc em território venezuelano, além de acusar Hugo Chávez de dar abrigo aos guerrilheiros. A reação de Caracas foi imediata. No dia 22 de julho, Chávez anunciou a ruptura das relações diplomáticas com o país. Desde 2005, as relações entre os dois países foram rompidas cinco vezes. Mas foram reatadas rapidamente, logo após a posse do novo presidente colombiano, Juan Manuel Santos, político apoiado por Uribe nas últimas eleições.

Uma provocação imperialista
Há motivos suficientes para acreditar que Uribe não foi o único mentor intelectual da provocação. Quem está por trás de toda a manobra é o imperialismo norte-americano, que tinha no governo colombiano um de seus maiores colaboradores. Ao longo de todo seu governo, Uribe se portou como um fantoche dos EUA. Essa não foi a primeira provocação. Em 2008, ele ordenou que tropas colombianas invadissem o Equador para supostamente combater guerrilheiros das Farc. Naquele momento, Chávez e Rafael Correa, presidente equatoriano, também romperam relações com a Colômbia, mas depois reataram-nas.

Outra prova incontestável do servilismo de Uribe foi o acordo firmado entre a Colômbia e os EUA, que prevê a construção de bases militares ianques em território colombiano. O acordo representa uma séria ameaça à soberania dos países da América do Sul, pois permitirá que tropas norte-americanas realizem qualquer tipo de incursão sobre a região sob a desculpa de combater o “narcotráfico” e as Farc.

Desgastado perante os países da América Latina, o “uribismo” tenta reciclar a imagem do regime colombiano. Por isso, impulsionou nas últimas eleições presidenciais o nome de Santos.

Sorrisos e abraços
Reunidos na fazenda San Pedro – local onde morreu Simón Bolívar –, o novo presidente colombiano e Chávez não esconderam os sorrisos de satisfação depois de restabelecerem em tempo recorde as relações diplomáticas, políticas e comerciais entre os países.

Ambos tinham interesse em resolver o conflito, que tem repercussões nas relações comerciais entre os dois países. O mercado venezuelano sempre foi importante para os exportadores colombianos, principalmente de alimentos, mas também de manufaturas, inclusive de automotores.

Entre os acordos firmados, chama a atenção a criação de uma comissão que examinará mecanismos de patrulhas conjuntas para manter o controle sobre a guerrilha das Farc. Santos destacou que Chávez foi “categórico” no encontro ao dizer que não vai permitir a presença de grupos ilegais colombianos na Venezuela. “Isso é parte da responsabilidade de qualquer chefe de Estado”, disse Chávez diante da imprensa. Como se não bastasse, o presidente venezuelano responsabilizou a guerrilha pelas provocações colombianas: “os movimentos armados da Colômbia deveriam reconsiderar sua estratégia armada… Converteram-se na principal desculpa do império para penetrar na Colômbia a fundo e desde aí agredir Equador, Venezuela e Cuba”.

A declaração de Chávez tem graves consequências, pois na prática serve de apoio à política de repressão do novo governo de Santos às Farc. Não concordamos com a política e os métodos da guerrilha colombiana, mas defendemos os lutadores e guerrilheiros de qualquer ataque do Estado capitalista.

Por outro lado, não temos ilusões a respeito do governo de Santos, que vai continuar atuando como capacho do imperialismo, mantendo bases ianques em seu país e até mesmo preparando futuras provocações.

O episódio mostrou os limites do “anti-imperialismo” chavista. Suas declarações tentam passar uma imagem “mais confiável” aos governos do continente e aos EUA. Ao seguir esse caminho, Chávez tenta conter o desgaste político de seu governo.

Um momento ruim para Chávez
A provocação de Uribe e do imperialismo ianque surgiu no momento em que Chávez enfrenta uma séria crise econômica e política. A razão é principalmente a crise econômica que atinge o país. A Venezuela passa por uma severa recessão e por um aumento galopante dos preços.

Nesse contexto, Chávez enfrentará no dia 26 de setembro as eleições para a Assembleia Nacional. Se a oposição ganhar a maioria das 167 cadeiras em disputa, Chávez terá sérias dificuldades para seguir governando.

A economia do país registrou uma recessão econômica marcada por uma queda nos últimos três trimestres. A inflação em alimentos nos últimos dois anos e meio foi de 102%. Só em abril, atingiu 12% e, em bens agrícolas, chegou a 34%. Neste ano, a inflação já registrou 84%. Como consequência, há uma progressiva desvalorização do salário real, o que significa um empobrecimento enorme do conjunto dos trabalhadores.

A crise econômica conduz a um progressivo descontentamento nas massas trabalhadoras e populares. Algo que pode ser percebido na eclosão de greves e mobilizações operárias por salários. Um exemplo é a greve dos trabalhadores da empresa Indústrias Occidente Sociedade Anônima, que entraram em greve no último dia 16. Em todos esses anos, a resposta do governo às lutas operárias no país tem sido a repressão e a criminalização de dirigentes sindicais.

Os problemas econômicos da Venezuela estão apoiados em uma dura realidade: a manutenção de uma economia de mercado no país. Bem diferente dos discursos de Chávez sobre o “socialismo do século 21” , seu governo não só manteve o regime capitalista, como conseguiu proporcionar altos lucros aos “empresários socialistas” – representantes da burguesia bolivariana. O suposto “socialismo” de Chávez, portanto, não é outra coisa que um novo disfarce do capitalismo e da exploração da classe trabalhadora.

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