Coronavírus e mineração

Foto Agência Brasil

Entre a lama e o vírus

Yuri Gomes, do PSTU Mineração/MG

Em um distrito histórico de Ouro Preto (MG) chamado Antônio Pereira, o povo vem se mobilizando contra o terror imposto pela Vale por conta da sua barragem com riscos de rompimento bem em cima da comunidade. Isso se repete em Itabira, Barão de Cocais, Macacos, e também em Congonhas, pela CSN-Mineração. Já os operários e operárias da mineração, além da insegurança em relação às suas vidas como moradores atingidos, também já conviviam com a preocupação do desemprego e a precarização do trabalho.

No caso de Antônio Pereira, formou-se um Comitê Popular para organizar a luta contra a Vale e em defesa da comunidade, e em sua última reunião, quando a pandemia do novo coronavírus já havia tomado a mídia e a consciência dos trabalhadores, abriu-se uma discussão que sintetiza bem o momento em que vivemos em nossa região: “ou morremos pela lama da barragem ou pelo vírus”, como disse uma moradora. Nada deixa mais evidente o quão íngreme é o barranco em que nossa sociedade capitalista vem descendo e a necessidade de interromper essa viagem rumo à completa barbárie.

A situação de momento

De acordo com o último Boletim Epidemiológico de Minas Gerais (20 de março), o estado tem 4.084 casos de Covid-19 em suspeita e 38 confirmados, já havendo transmissões locais e comunitárias nos grandes centros. De acordo com os portais das respectivas prefeituras, em Mariana tem 9 suspeitas e 2 casos confirmados, em Congonhas 48 suspeitos e 6 suspeitos em Itabira. Esses são números que devem se alterar rapidamente. Aqui estamos tratando de 3 cidades de pequeno porte no interior de Minas Gerais, com dados pelas prefeituras se desencontrando com o boletim estadual, e levando em conta que a medição feita no Brasil é extremamente ineficiente para a contenção, pois só é testado quem está com todos os sintomas, quer dizer, vemos apenas o passado, o que é um absurdo!

Mas comparando situações: em Belo Horizonte, nesse momento, tem 870 casos suspeitos em uma população de em torno de 2,5 milhões de pessoas. Congonhas tem 48 suspeitos de Covid-19 em uma população de 55 mil habitantes. Isso quer dizer que, nesse momento, Congonhas tem 2,5 vezes mais casos de suspeitos por habitante. Outra situação é o de Mariana, fazendo a mesma proporção, só que de casos confirmados por habitantes, com os de Belo Horizonte, o número é 5 vezes maior!

As cidades que aqui tratamos são cidades mineradoras, quer dizer, que tem como principal fonte de renda a extração mineral, principalmente do minério de ferro, tocada por megaempresas como a Vale, Samarco, CSN, Gerdau, e uma série de grandes empresas terceirizadas.

Na mineração o lucro vale mais que a vida

A mesma ganância pelo lucro que se expressou nos crimes de Fundão (Samarco/Mariana) e Brumadinho (Vale) é o que manda nesse momento de crise de saúde pública. Ônibus e ônibus sobem e descem das minas lotados de operárias e operários, e o funcionamento dessas empresas é praticamente o mesmo de antes da pandemia.

Foram feitas tímidas medidas: uma parcela dos trabalhadores administrativos trabalhando dentro de casa, redução de trabalhadores por ônibus e distância no refeitório, além da promessa de fazer triagens nos ônibus, sendo que, entre trabalhadores da Vale na região Sudeste, já foram confirmados dois casos de Covid-19.

O descaso dessas empresas é tamanho que o Sindicato Metabase Inconfidentes/CSP-Conlutas fez um chamado de urgência à CSN para tratar de protocolos de emergência, e a resposta foi simplesmente não. Já com a Vale ocorreu a reunião, mas continuaram insistindo em ações paliativas. Depois dos crimes que a própria empresa cometeu, o discurso é retomada da produtividade, não de segurança da vida de seus trabalhadores e familiares.

Já nas prefeituras, há uma lentidão muito grande para aplicar as ações necessárias para o combate efetivo a esse vírus. Foi decretado o fechamento de comércios, unidades de ensino e proibido aglomerações a partir de segunda (23 de março). Mas, por conta de baixo repasses às cidades para a saúde, má gestão e, principalmente, a covardia dos governos municipais no sentido de exigir mais recursos das grandes mineradoras, o sistema de saúde municipal deve entrar em colapso rapidamente, ainda mais porque elementos fundamentais, como água e saneamento básico, são deficitários na região.

Só para dar alguns exemplos: quanto aos leitos com respiradores, um dos itens mais necessário nesse momento, em Mariana existem apenas 7 leitos com respiradores, em Congonhas apenas 4 no principal hospital. Com a curva de contaminação crescente, essa estrutura não dará conta de acompanhar a demanda, sem dizer que outros casos de necessidade médica (que continuarão acontecendo) vão ficar em segundo plano, como infelizmente já aconteceu com uma criança de apenas 1 ano em Congonhas por falta de tal equipamento.

Paralisar a mineração para barrar o vírus, garantindo empregos e direitos!

Alguns bons resultados em redução de casos, como na China e na Coreia do Sul, têm que inspirar algumas providências: isolamento social imediato, já que cada minuto conta como semanas para o fim da pandemia, e testes amplos, não só para quem apresenta sintomas.

A política da Vale e das grandes mineradoras vai na contramão disso. Não é a redução de pessoal nos ônibus e a distância de uma cadeira nos restaurantes, aglomerando os operários do lado de fora, que vai resolver a situação! Essa postura irresponsável e criminosa é legitimada e reforçada por Bolsonaro, Zema e os governos municipais que em seus decretos não tocam no funcionamento das grandes fábricas, e querem proteger o capital dos bilionários que financiam suas campanhas.

Os mais afetados da nossa classe pelo vírus na mineração e em todo mundo são mulheres, negras e negros, e LGBTs. Com uma composição majoritariamente masculina na produção, a opressão machista faz com que, em uma situação de fechamento de creches e escolas, intensifique a dupla e tripla jornada das mulheres nos trabalhos domésticos e familiares. Além disso, a maior parte dos trabalhadores terceirizados é composta por setores oprimidos, com situação de contrato precários, o medo do desemprego e agora do vírus.

Por tudo isso, é necessário paralisar fortemente a produção para garantir a vida de seus trabalhadores e suas famílias. Mas isso não pode resultar em demissões e redução da remuneração, como quer o governo Bolsonaro e a Vale, que demitiu mais de 40 funcionários nesse período, de acordo com o Sindicato dos Ferroviários da Vale (Sindfer).

O isolamento tem que vir acompanhado de estabilidade no emprego para todos os trabalhadores da mineração com remuneração integral, incluindo das empresas terceirizadas, altos investimentos na saúde pública das cidades, construindo leitos, distribuindo itens de prevenção, financiando testes para todos os moradores das cidades mineradoras, e também criando um fundo emergencial de salvamento, garantindo empréstimos a juros zero para pequenos empresários e agricultores para manterem seus negócios em tempos de crise.

Isso é uma necessidade urgente! Se as empresas não tomarem as providências necessárias, os próprios trabalhadores devem paralisar as minas e exigir o que lhes é de direito, como fizeram os operários da Chery de Jacareí (SP) e em muitas fábricas na Itália.

Novo modelo de mineração para garantia de vida e saúde aos trabalhadores

Mas alguns irão dizer: se as grandes mineradoras fizerem isso, vão quebrar. Os números desmentem facilmente isso. Em janeiro, a Vale distribuiu de lucros anuais para seus acionistas, quer dizer, lucro limpo para os capitalistas, referente ao ano de Brumadinho e com muitas minas paralisadas, de R$ 7,5 bilhões. Já a CSN, que inclui suas atividades de mineração e siderurgia, teve um lucro líquido de R$ 2,25 bilhões.

Só para ter uma noção do que essas cifras representam: só o que foi repassado para os acionistas de apenas essas duas empresas no ano passado seria relativo a 9% de todo o gasto federal na saúde pública no Brasil no ano de 2020, de acordo com a recém-aprovada Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

Isso demonstra duas coisas: primeiro que há dinheiro sim para investir nas cidades e na saúde de seus trabalhadores. Os donos da Vale e CSN recebem em torno de R$ 27 milhões por dia! Com apenas dois dias seria possível comprar kits de teste feito pela Fiocruz do Covid-19 para que cada morador de todas as cidades da região mineradora de Minas Gerais pudesse ser avaliado e assim diagnosticado. Com uma semana construiria um hospital com leitos para cobrir a região.

Segundo, a necessidade de reestatizar as grandes mineradoras. Todos esses bilhões poderiam estar sendo investidos na saúde pública, não enchendo os bolsos de grupos acionistas privados que mal sabem a cor do minério de ferro e mais da metade são estrangeiros. Mas esse recurso só seria de fato revertido para o povo se os trabalhadores pudessem democraticamente administrar e definir os rumos da produção e do lucro, não ficando nas mãos de políticos capitalistas corruptos como são nas estatais hoje.

Se acompanhado disso houvesse a estatização da saúde privada (que só dos planos de saúde tiveram lucro líquido de R$ 6,4 bilhões em 2016) e do sistema financeiro (os quatro maiores bancos do Brasil tiveram lucro líquido de R$ 58,7 bilhões em 2019) teríamos hoje recurso e flexibilidade de ação para que o Brasil fosse não apenas a ponta de lança no combate ao novo coronavírus a nível mundial, mas também poderia apoiar os trabalhadores do restante do mundo que hoje estão em desalento e perigo por seus governos e suas economias.

Nossa sociedade vai barranco abaixo. Cabe-nos lutar para reverter o caminho que as grandes empresas e os governos nos colocaram. E isso nos demanda, dos trabalhadores isolados aos expostos, com as ferramentas que tivermos em mãos, colocar para fora Bolsonaro, Mourão, os grandes acionistas, e forjar uma forma de política e de economia em que os operários e povo pobre controlem e possam decidir: primeiro nossas vidas!