Caso Dantas: o jogo de cena de Lula

Após o governo iniciar a operação abafa no caso do banqueiro Daniel Dantas, Lula resolveu fazer novo jogo de cena para tentar enganar a população. No último dia 16, o presidente disse que o delgado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, responsável pelo inquérito contra o banqueiro, tem a “obrigação moral” de continuar a frente do caso. O delegado foi afastado no dia 14 depois que Dantas ameaçou abrir a boca e entregar muito peixe graúdo da República com os quais tem relações. Gente que pertence ou pertenceu a quase todos os partidos, dos governos tucano e petista, além de próprios colaboradores e amigos íntimos de Lula.

Desde que Dantas foi preso, todos aqueles que têm rabo preso com o banqueiro se apressaram a defendê-lo. Não só juizes e presidentes de tribunais, mas também senadores, deputados, jornalistas etc. que clamavam pela sua libertação em nome da preservação do “Estado de direito”. Naturalmente, muitos condenaram o suposto abuso das algemas nos tubarões presos. Afinal, para os poderosos deste país, algema e camburão foram feitos para pobres e não para “doutores”.

Dantas é um dos maiores corruptores da história da nova República. O banqueiro fez fortuna através de sua aproximação com o poder. Ele se refestelou na farra das privatizações do governo FHC. Com informações privilegiadas fornecidas pelos tucanos (pagas a peso de ouro, claro), o banqueiro montou o Opportunity, que participou das privatizações do sistema Telebrás. No governo Lula, Dantas se aproximou do PT, aonde provocou cisões. O banqueiro tornou-se adversário de Gushiken, representa dos fundos de pensão que são acionistas das ex-estatais. As disputas entre o Opportuniy e os fundos de pensão pelo controle da Brasil Telecom foi um divisor de águas. A partir daí Dantas começou a ser investigado pela CPI dos Correios.

Na surdina, bons negócios
Quando Dantas foi preso, o governo Lula ensaiou um apoio à ação da PF. Mas, ao mesmo tempo em que tentava aparecer aos olhos da população como aliado ao combate a corrupção, na surdina, o governo do PT favorecia aos negócios de Dantas. Atualmente se realiza uma dos maiores negócios do capitalismo brasileiro: a compra da Brasil Telecom (BrT), da qual Dantas foi controlador, pela Oi. O negócio trará monopólio nacional privado para a telefonia. Evidentemente, os trabalhadores pagarão a conta: mais tarifas e mais impostos. O governo federal controla os acionistas-chave para o processo (fundos de pensão e BNDES). E para consumar a transação o governo vem operando uma mudança na legislação para permitir o monopólio provado da telefonia. O que Dantas ganha com isso? Um bilhão de dólares. Essa é a cifra que a Oi pagará a Dantas que é acionista da BrT. E o dinheiro para isso vem dos bancos públicos. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o Banco do Brasil emprestou R$ 4,5 bilhões para Oi consumar o negócio. O BNDES, um banco estatal de financiamento, também anunciou que vai liberar R$ 2,5 bilhões para a concretização da compra da BrT pela Oi.

Sujeira sobe a rampa
A sujeira de Dantas começava a subir a rampa do Planalto e provocou a súbita mudança de atitude do governo.

As gravações de Greenhalgh, contratado pelo banqueiro Daniel Dantas, pedindo favores ao companheiro Gilberto Carvalho, assessor do presidente; o envolvimento do compadre de Lula, Roberto Teixeira, pago pra fazer tráfico de influência; ministros que prestavam serviços ao banqueiro, como Roberto Mangabeira Unger e até de negócios escusos entre o filho do presidente (o ‘Lulinha´) em negociatas com Dantas, ameaçavam seriamente o Planalto.

O habeas corpus concedido ao banqueiro pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, o afastamento dos delegados coordenado pela Polícia Federal e o governo desmascaram a tática para proteger Dantas. A declaração de Lula sobre Protógenes, portanto, não passa de uma “mise en scène” para atenuar o desgaste do governo no caso. Como em outros casos de corrupção a impunidade aos poderosos reinará. Talvez isso explique o largo sorriso de Salvatore Alberto Cacciola ao desembarcar no Brasil.