Campanha contra a demissão de Chirino: uma questão de princípios

Como quase tudo o que afeta o governo de Chávez, a campanha contra a demissão de Orlando Chirino e por sua reincorporação à PDVSA também gerou uma intensa polêmica a favor e contra a mesma.

Nesse marco, se expressaram publicamente as posições da conhecida militante cubana Célia Hart e de Olmedo Beluche, dirigente do MPU (Movimento Popular Unificado), do Panamá. Ambas são basicamente coincidentes e podem se resumir em três aspectos.
a) Não estão de acordo com a demissão de Chirino como, em geral, não estão de acordo com a demissão de nenhum trabalhador;

b) Consideram que as atuais posições políticas defendidas por Chirino favorecem os “inimigos da revolução bolivariana” e, inclusive, sua demissão seria conseqüência dessas posições políticas (declaração do MPU, 25/02);

c) Não assinam nenhum dos abaixo-assinados que estão circulando em solidariedade a Chirino porque são “parte de uma campanha contra o governo bolivariano”.

Detemo-nos especialmente neles porque ambos se reivindicam trotskistas. Olmedo Beluche, além disso, se define como “morenista”, quer dizer, da corrente fundada pelo argentino Nahuel Moreno, da qual a LIT-QI é sua principal expressão. Pelo contrário, afirmamos que sua posição não tem nada a ver com a tradição trotskista nem com a morenista nesse tipo de situação.


Em primeiro lugar, é impossível abordar a demissão de Chirino como a de “mais um trabalhador”, já que ele é um conhecido dirigente sindical, com décadas de trajetória pública. Recordemos que parte dessa trajetória foi sua ativa luta contra o golpe pró-imperialista de direita de abril de 2002 e contra o locaute, impulsionado por esses mesmos setores, iniciado no mesmo ano. Atualmente, Chirino é um dos principais dirigentes da UNT e integrante da direção do Sinutrapetrol (Sindicato Único dos Trabalhadores Petroleiros).

No último ano, em defesa da autonomia sindical, Chirino expressou duras críticas à política do governo de Hugo Chávez e também se opôs a seu recente projeto de reforma constitucional. Não há forma, então, de tomar posição sobre a demissão de Chirino, seja a favor ou contra, sem localizá-la nessa realidade. Para nós, então, é evidente que sua demissão da PDVSA representa um ataque do governo venezuelano aos dirigentes que têm defendido a autonomia sindical e hoje se opõem ao curso da política governamental, além de ser um ataque aos mais elementares princípios de liberdade sindical. Pelo contrário, para Hart e Beluche, ainda que dizê-lo com total clareza, são essas posições de Chirino as que, em última instância, terminariam justificando sua demissão.

Quem o demitiu foi o governo Chávez
Em segundo lugar, não há forma de rechaçar sua demissão e reclamar sua reicorporação à PDVSA, inclusive se fosse “mais um trabalhador”, sem lutar contra o governo de Chávez, simplesmente porque foi este quem o demitiu e a quem há que exigir que o reintegre a seu trabalho. É evidente que qualquer campanha por isso irá objetivamente contra esse governo porque, para conseguir seu objetivo e ser vitoriosa, deverá impor a ele algo que não quer fazer. Seria o mesmo que pretender conseguir a reincorporação de um trabalhador ou um dirigente da Ford, ou outra empresa multinacional, sem lutar contra essa empresa.

Hart e Beluche são totalmente conscientes disso. Por isso, a partir de seu apoio ao governo chavista, se negaram a assinar o abaixo-assinado com o qual se está desenvolvendo a campanha, ainda que o mesmo não faça nenhuma referência ao governo nacional venezuelano.

Questão de princípios
A questão central é que, ao se negar a reclamar a reincorporação de Chirino, Hart e Beluche estão deixando de lado o que sempre foi um princípio do movimento operário e da esquerda em toda sua história: a solidariedade e a defesa de qualquer trabalhador ou dirigente operário perseguido pela patronal ou pelos governos burgueses, independentemente das diferenças políticas que se tenha com ele. Frente a esses ataques, essas diferenças são deixadas de lado e devem se cerrar fileiras contra a patronal e/ou os governos burgueses.

Recordemos que tanto Trotsky como Moreno reivindicaram esse princípio como um dos mais importantes para os trabalhadores e as organizações de esquerda frente a seu abandono por parte do stalinismo e, no caso de Moreno, também de algumas correntes trotskistas.

Hart e Beluche têm todo o direito político de apoiar e defender o governo de Chávez e criticar Chirino por não fazê-lo. Mas se, a partir desse apoio, justificam e permanecem passivos frente ao ataque e à perseguição que sofre hoje esse dirigente, traem esse princípio elementar e se transformam, nos fatos, em cúmplices desse ataque. Podemos dizer que, na realidade, eles passaram a aplicar um princípio oposto: se um governo burguês é “progressivo”, sempre se deve apoiá-lo contra os lutadores perseguidos.

Que o façam ou não é sua decisão. Mas, por favor, deixem de reivindicar-se trotskistas e/ou morenistas porque com essa atitude mancham os nomes de Trotsky e Moreno.

Post author Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI)
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