Barbárie homofóbica no Rio de Janeiro

No início do mês em que se comemora o “Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros”, um garoto gay do Rio de Janeiro foi espancado até a morte pelo próprio pai e o Vaticano lançou uma nova ofensiva contra os homossexuaisNa quinta-feira passada, 1º de junho, Rogério Moreira de Souza, de 18 anos, faleceu após ter sido violentamente surrado pelo seu pai, Genessy Gonçalves. O motivo? Rogério era gay e seu pai não admitia tal possibilidade.

O crime ocorreu na Favela da Mandela, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, e o assassino foi preso em flagrante e indiciado por homicídio culposo qualificado (“sem intenção de matar”), versão desmentida pela mãe de Rogério, Renata Moreira Souza, que apontou a homofobia de seu marido como razão premeditada do assassinato. Segundo ela, Rogério morreu porque Genessy, que nunca aceitou a homossexualidade do filho, bateu com a cabeça do garoto várias vezes contra o asfalto enquanto tentava enforcá-lo.

As circunstâncias de mais este crime movido pela homofobia são ainda mais escabrosas diante de um outro “detalhe” da história. Rogério e sua mãe haviam procurado o pai para conseguir os documentos necessários para que o rapaz fosse registrado, algo que o pai se recusava a fazer exatamente devido a homossexualidade de Rogério.

A falta de registro originou um outro absurdo e mais sofrimento para seus amigos e sua mãe: Rogério será enterrado como indigente, simplesmente porque não possui nenhum documento que comprove sua identidade.

Trágicas e constantes estatísticas
O caso de Rogério, lamentavelmente, está longe de ser um fato isolado. Dados levantados por entidades do movimento de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros (GLBT) apontam que a cada dia pelo menos dois homossexuais são violentamente agredidos por seus próprios pais, o que, muitas vezes, resulta em morte.

Além disso, dados divulgados pelo Grupo Gay da Bahia, no final de maio, revelam que, apenas em 2005, 81 gays foram assassinados no Brasil (em 2004, as vítimas chegaram a 158). O macabro ranking – que só contabilizou os dados de 20 estados – é liderado por São Paulo, onde aconteceram 21 assassinatos, seguido por Pernambuco (com 16 mortes). Evidentemente, o número deve ser muito superior, levando-se em consideração que são vários os casos que sequer são reportados e tantos outros são registrados sem relação com a homofobia.

O mesmo relatório apresenta um balanço dos assassinatos motivados por ódio a homossexuais nos últimos 25 anos. Segundo o estudo, entre 1980 e 2005 foram mortos, no Brasil, 2.511 membros da comunidade GLBT. Dentre as vítimas 72% eram gays, 25% travestis e 3% lésbicas.

Dois outros aspectos levantados pela pesquisa dizem bastante sobre o perfil dos assassinados e a razão dos crimes continuarem acontecendo com tanta freqüência: a maioria das vítimas era negra e apenas 10% dos criminosos chegaram a ser levados a julgamento, o que, evidentemente, transmite aos assassinos em potencial a quase garantia da impunidade.

Homofobia do Vaticano estimula os crimes
Dentre as inúmeras questões sociais e ideológicas que alimentam o preconceito, a discriminação e o ódio aos homossexuais, há de se destacar a verdadeira cruzada inquisitorial que o a cúpula da Igreja Católica – e particularmente o atual papa, Bento XVI – tem feitos contra a comunidade GLBT.

O último lance desta campanha foi divulgado na terça, 6 de junho, em um documento intitulado “Família e procriação humana”. Nele, a união entre pessoas do mesmo sexo é chamada de “o eclipse de Deus”, afirmando que a existência destes “casais insólitos” e “repudiantes” significam um violento ataque à instituição da família.
E esse tipo de discurso – reproduzido à exaustão nos meios de comunicação, nas demais igrejas e principais instituições da burguesia e incentivado pelo completo descaso dos governantes, Lula à frente de todos – que estimula gente como o pai de Rogério, os grupos de skinheads e tantos outros homofóbicos a derramarem seu ódio sem limites contra todos aqueles que ousam vivenciar sua homossexualidade. Algo que só terá um fim com a organização da comunidade GLBT e um combate sem trégua contra a discriminação, a homofobia e o capitalismo.