As capitulações de Evo

Esse projeto ultradireitista cresce aceleradamente: já controla parte do país, ameaça a produção de gás e está se impondo frente à impotência do governo. Por isso, tal como assinala a recente declaração da LIT-QI, nos perguntamos: “Como é possível que isso ocorra num país que viveu, nestes últimos anos, duas revoluções que derrubaram governos de direita? Como pode ter tanta força este movimento num país onde, há menos de dois meses, o presidente obteve quase 70% dos votos para confirmar seu mandato num referendo revogatório?”.

“A única explicação possível é a política conciliatória do governo. Evo se recusou a reprimir o movimento de ultradireita e mobilizar as massas, enquanto há pouco tempo não duvidou em reprimir duramente a luta dos mineiros de Huanuni em luta por sua aposentadoria e outras reivindicações, matando vários operários. A todo momento, Evo busca acordos ou pactos com a burguesia da Meia Lua para governar conjuntamente o país. Negou-se a mandar tropas aos departamentos para recuperar os edifícios públicos ocupados, utilizando a justificativa de ‘não derramar sangue’”, dissemos em nossa declaração.

Mas dezenas de camponeses e indígenas já foram assassinados na Meia Lua pelos bandos ultradireitistas. Seu sangue já está sendo derramado. Não é esta, portanto, a verdadeira razão da política de Evo. Para nós, a explicação profunda dessa política é que, além de sua origem camponesa e indígena e de que a maioria do povo boliviano o veja como “seu governo”, Evo encabeça um governo burguês que busca defender o sistema capitalista e o Estado burguês boliviano e evitar o aprofundamento dos processos de mobilização de massas que ameaçam se enfrentar com seu governo. Por isso, apesar de ser atacado duramente pela burguesia da Meia Lua e pelo imperialismo, faz questão buscar a conciliação com eles.

Conciliação fortalece direita
Já ficou claro que a “conciliação” impulsionada por Evo só conseguiu deixar o campo aberto para a ultradireita. Primeiro, ela ganhou os departamentos das Meia Lua para desenvolver a fundo seu projeto. Agora, se fortalece cada vez mais, ocupando o vazio de poder deixado pelo governo.

Pior ainda, essa política conciliadora tenta paralisar e desmoralizar uma possível reação das massas, que seriam a única força capaz de enfrentar e derrotar a ultradireita. É uma política que só pode ser qualificada de “suicida” e da qual a direita se aproveitará com novos ataques, apesar do acordo assinado com o governo, que consolida seus avanços.

Se organizar para enfrentar a direita nas ruas
Fortalecida por essa vitória, a ultradireita vai querer seguir avançando e repetirá os métodos violentos que até agora lhe deram tão bom resultado. Os assassinatos de Pando mostram o que será o futuro boliviano se a ultradireita se impor. Se o governo de Evo não está disposto a combatê-la a fundo, o povo boliviano deve se mobilizar e exigir que o presidente o faça.

Mas não pode esperar passivamente a resposta de um governo que, até agora, sempre optou pela conciliação. Para enfrentar e derrotar a ultradireita é necessário que os trabalhadores e as massas bolivianas desenvolvam sua própria mobilização autônoma e se organizem para isso.

Por isso, reivindicamos a declaração votada pelos mineiros de Huanuni: “Prisão de todos os sediciosos! Fora de nosso país! Façamos com estes fascistas o mesmo que o presidente fez com o embaixador dos Estados Unidos! Basta de mortos mineiros e camponeses! Basta de atentados contra o país! Basta de latifundiários e oligarquias querendo mandar na Bolívia! É necessário frear a violência da oligarquia. Temos que retomar as mobilizações e fazer valer a ‘agenda de outubro’, que propõe lutar pela expropriação dos latifundiários do Oriente boliviano, terra aos camponeses e indígenas e por uma verdadeira nacionalização do gás e das mineradoras. Não ao racismo e à discriminação de nossos irmãos! (…) Pela unidade do povo na luta contra os divisionistas e para frear a escalada de violência, o único caminho é mobilizar operários e camponeses para derrotar a oligarquia”.

Uma proposta totalmente possível, tanto pela combativa história como pela realidade atual do povo boliviano. Inclusive quando a maioria ainda confia e apóia o governo de Evo. Por todos lados surgem mobilizações que mostram sua disposição de enfrentar e derrotar a ultradireita.

Foi o caso das mobilizações convocadas em El Alto pela COB, que reuniram dezenas de milhares de pessoas em La Paz, e o bloqueio da estrada Cochabamba-Santa Cruz por parte dos camponeses do Chapare. Ou dos habitantes de Plan 3000, bairro pobre de Santa Cruz, com 300 mil habitantes constantemente atacados pelos bandos fascistas dos “cívicos”, que começaram a se organizar e se defenderam dos ataques.

Foram estas mobilizações, geradas em grande medida pelo repúdio ao massacre de Pando, que obrigaram o governo de Evo a ter um discurso mais “duro” e adotar uma medida para dar uma satisfação a essa base com a detenção do prefeito de Pando. Foi isso também que impediu o governo entregar até agora as “autonomias das nações originarias” incluídas no projeto de Constituição, nas negociações com a oligarquia.
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