Evo Morales capitula novamente à ultradireita boliviana

Após vários dias de extrema tensão no confronto entre o governo de Evo Morales, os prefeitos (governadores) e a burguesia de extrema-direita da Meia Lua, a situação foi para uma negociação oficial entre o governo e esses prefeitos (agrupados na Conalde – Coordenação Nacional Democrática) para chegar a um acordo.

Segundo a imprensa internacional, essa negociação representa a única saída possível para evitar uma guerra civil no país. Ao mesmo tempo, afirma-se que ela equilibra os interesses de ambas as partes, que deverão ceder algo para atingir o acordo.
No entanto, a realidade mostra que essa negociação e seu possível resultado representam, em realidade, uma nova capitulação de Evo e podem permitir um triunfo da burguesia de extrema-direita.

Basta ver os pontos que serão assinados no acordo. Por um lado, a burguesia da Meia Lua compromete-se com o fim dos bloqueios, a devolução dos edifícios ocupados e a aceitação da detenção e do processo contra o prefeito de Pando, Leopoldo Fernández (não pelas dezenas de assassinatos pelos quais é responsável, mas apenas pela “violação do estado de sítio”).

Por outro, o governo nacional aceitaria adiar o referendo para aprovar o projeto de Constituição elaborado pela Assembléia Constituinte (considerado “excessivamente indigenista e estatista” pela burguesia da Meia Lua) e discutiria seu conteúdo na mesa de negociações; ademais, compromete-se a restituir os prefeitos com parte do IDH (Imposto por Direitos de Hidrocarbonetos – gás) e “aprofundar as autonomias”.

Em outras palavras, com a mudança de pontos que dizem respeito a seu pleno direito legal e político (que não deveriam estar, portanto, sujeitos a nenhuma negociação), o governo de Evo concederia todas as reivindicações da burguesia da Meia Lua. A pregunta é: por que isso ocorre?

O que é a burguesia da Meia Lua
Na Bolívia denomina-se Meia Lua a região que abarca os departamentos de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, que agregam pouco menos de um terço da população do país. Esses departamentos possuem uma parte muito importante das riquezas naturais bolivianas (petróleo, gás, ferro, produção de soja e carne), além de gerarem quase 60% do PIB nacional e mais de dois terços de suas exportações.

Um desenvolvimento que se deu nas últimas décadas enquanto a economia do resto da Bolívia (o altiplano central) se estancava ou retrocedia. Essa realidade levou as burguesias regionais a impulsionar as reivindicações de um suposto “direito de autonomia” dentro de Bolívia que, inclusive, ameaça dividir o país.

Não se trata de uma justa reivindicação de uma nacionalidade oprimida contra o país opressor. Pelo contrário, trata-se de reivindicações reacionárias de um setor burguês muito poderoso que deseja essa “autonomia” para negociar diretamente com o imperialismo e os países mais fortes da região, como o Brasil. Dessa forma, pretendem entregar as riquezas do país e conseguir uma fatia maior dos lucros, eliminando a intermediação do poder central de La Paz e, ao mesmo tempo, se livrando do “altiplano indígena, pobre e revoltoso”.

Segundo um artigo da agência Econoticias Bolívia, os donos da região são “cerca de 100 poderosos clãs familiares, que controlam a agroindústria, o comércio exterior, os bancos e os grandes meios de comunicação”. Esses clãs empresariais familiares possuem gigantescos latifúndios que, de acordo com um relatório do Programa de Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), somam ao todo 25 milhões de hectares.

Essa coalizão de “poderosos autonomistas” é encabeçada pela burguesia cruzenha, a mais forte e dinâmica do país, com um projeto político próprio que vem impulsionando há anos. Alguns de seus membros são de uma origem européia bem mais recente. Seu principal dirigente, Branko Marinkovik, é filho de um imigrante croata. Além de latifundiário (possui 26 mil hectares), tem grande peso na produção e exportação de soja e é diretor da poderosa empresa Transporte de Hidrocarbonetos, que opera os 6 mil km de gasodutos e oleodutos que chegam a Brasil, Argentina e Chile. Metade do capital dessa empresa pertence às empresas Exxon e Shell.

Um projeto ultradireitista
Baseadas nesse poder econômico, as burguesias da Meia Lua já conseguiram, pela via eleitoral, o poder político de seus departamentos. Assim, tentam armar seu “próprio Estado”, com seu próprios parlamento e polícia e conseguir o controle absoluto sobre as riquezas da terra, hidrocarbonetos, impostos, educação, etc.

É um projeto que adota uma ideologia profundamente racista, de desprezo para com os “índios”. Isto é, a maioria da população boliviana de, inclusive, suas próprias regiões. Mas esse caráter ultradireitista não fica só na ideologia, também se expressa em sua ação.

Os “comitês cívicos” formados por essas burguesias regionais e organizações como a União da Juventude Cívica Cruzenha (UJC) utilizam métodos fascistas (de guerra civil) para reprimir as massas, especialmente os camponeses da região. Os recentes assassinatos de dezenas de camponeses em Pando são um exemplo disso. No caso da UJC, a organização está formada pelos filhos dos empresários e latifundiários, mas também incorpora jovens de classe média, ansiosos por escalar socialmente.

A burguesia da Meia Lua conseguiu ganhar uma importante faixa das classes médias regionais para seu projeto. Ao mesmo tempo, as eleições mostram que ela tem o respaldo eleitoral de setores de massas. O que não é claro ainda é se esse apoio é para o conjunto de sua política e seus métodos ou expressa só uma confusão temporária frente às promessas de melhoria de sua vida com a “autonomia”.

O projeto ultradireitista conta com o respaldo do governo dos EUA. Algo que ficou claro com as estreitas relações de Phillip Goldberg, embaixador expulso pelo governo de Evo, com Marinkovic e também com o financiamento que a agência norte-americana de cooperação Usaid dá aos políticos ultradireitistas da Meia Lua.

Possivelmente também conte com o apoio de setores da burguesia brasileira com fortes interesses na região, através da Petrobras e da produção de soja (33% das terras estão nas mãos de burgueses brasileiros ou testas-de-ferro).

Post author
Publication Date