A “onda de esquerda”

Resultados das eleições no Chile e na Bolívia alimentam ilusões em um “eixo antiimperialista”A vitória de Evo se soma a uma série sem paralelo na história da América Latina de “governos de esquerda” ou “nacionalistas” que chegaram ao poder pelas eleições: Lula no Brasil, Tabaré Vasques no Uruguai, Kirchner na Argentina, Chávez na Venezuela, Michelle Bachelet no Chile, e agora Evo Morales. Dentro em pouco a lista pode aumentar com Lopez Obrador, no México, e Ollanta Humala, no Peru.

Nosso continente mudará afinal pelas mãos destes governos? Ou, desde outro ângulo, será formado um eixo antiimperialista real, com Evo, Fidel e Chávez, que poderá levar à ruptura com o imperialismo? Ou ainda, Evo mudará realmente a Bolívia?

Não nos somamos aos que alentam estas ilusões. Ao contrário, queremos alertar sobre dois elementos centrais dessa nova realidade latino-americana. O primeiro é que estes resultados eleitorais são uma expressão, distorcida, de um giro à esquerda das massas, desigual de país a país, mas que tiveram seus maiores picos nos processos insurrecionais que existiram na Bolívia (2003:2005), Equador (2000), Argentina (2001). O repúdio aos planos neoliberais aplicados em todo o continente pelos governos de direita são traços comuns em todos nossos países, que em algumas partes se expressaram em grandes mobilizações e em outras, também, através das eleições.

A Bolívia é, sem dúvida, o país em que estas mobilizações tiveram mais peso, e isso explica a vitória inédita de Evo. Duas grandes mobilizações revolucionárias, que incluíram greves gerais, bloqueio de estradas pelos camponeses e a ocupação de La Paz por gigantescas mobilizações derrubaram dois governos (Sanchez Losada e Carlos Mesa). Nos dois momentos, Evo Morales teve um papel destacado para frear as lutas e encaminhá-las para a via eleitoral, na qual acabou vitorioso.

O segundo elemento é que estes governos eleitos não têm servido para acabar com neoliberalismo, mas como uma via distinta para mantê-lo, e evitar que este ascenso desemboque em uma via revolucionária. Lula manteve o plano de FHC no Brasil; Tabaré Vasques faz o mesmo no Uruguai, com um ministro da Fazenda parecidíssimo a Palocci; Kirchner voltou a pagar a dívida externa (suspensa desde 2001); Michelle representa a continuidade dos governos anteriores do Partido Socialista chileno e da Democracia Cristã, que seguem a mesma política econômica dos tempos da ditadura de Pinochet.

O governo Chávez é distinto apenas em sua retórica e pelos atritos com Bush em política externa. Mas segue pagando a dívida externa, com o mesmo plano econômico neoliberal. Além disso, limita seu “antiimperialismo” ao rechaço a Bush, desenvolvendo excelentes relações com o imperialismo europeu. A miséria do povo venezuelano não se modificou em nada com o “socialismo bolivariano”.

Seja sob a forma de governos de Frentes Populares (governos burgueses encabeçados pos organizações dos trabalhadores, em alianças com setores patronais), ou de governos burgueses com tinturas nacionalistas e apoio de massas, nossos países não estão avançando para a libertação do imperialismo, mas seguindo no caminho da dependência, com uma forma mais disfarçada.

Existem muitas diferenças entre esses governos, assim como na realidade da luta de classes e na economia de cada um desses países. Mas existe um dado em comum a todos eles: todos se propõem a manter o capitalismo e o Estado burguês e com isso estão condenados, não só a não avançar para as mudanças sociais exigidas pelo povo, mas a administrar o capitalismo e impor o arrocho salarial, garantir o lucro das empresas multinacionais etc.

Capitalismo andino?
Evo já declarou que o socialismo não está em sua perspectiva, e sim um “capitalismo andino amazônico”, que seria um capitalismo humano, com o estímulo à pequena produção das comunidades indígenas. Como não existem meios termos em uma economia imperialista globalizada, ao aceitar o capitalismo, Evo vai ter que governar para as grandes multinacionais, com suas regras de exploração, e não para as “comunidades”. Já declarou que “quer as multinacionais como sócios e não como patrões”, e que “não só vamos respeitar a propriedade privada, vamos proteger a propiedade privada”.

Com essa postura, o governo Evo vai se enfrentar mais cedo ou mais tarde com as massas bolivanas que o elegeram e terá que defender a ordem e a dominação imperialista que espolia e oprime nosso continente.

LEIA TAMBÉM

  • O significado do governo Evo Morales
  • Qual é a nacionalização proposta por Evo?
  • Petrobras: a principal multinacional na Bolívia

    Post author
    Publication Date