A falência da ocupação de Lula no Haiti

Na manhã do dia 7 de janeiro, o general brasileiro Urano Teixeira da Matta Bacellar, que comandava as tropas de ocupação no Haiti, foi encontrado morto, com um tiro na cabeça, em seu próprio apartamento. Segundo os especialistas, a hipótese mais provável é que o general tenha se matado, mas não são poucos os motivos para que se suspeite de um assassinato.

Causas à parte, a morte do general foi apenas um capítulo a mais na desastrosa e vergonhosa intervenção brasileira num país que ficou conhecido pela vitoriosa luta levada a cabo por negros escravizados contra a opressão racista e exploração colonial (vide box).

Iniciada em 2004, meses depois do então presidente Jean-Bertrand Aristide ter sido derrubado (numa ação conjunta entre a oposição local e os imperialismos francês e norte-americano), a chamada Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (Minustah) tem sido marcada por uma sucessão incontável de arbitrariedades e abusos.
Abusos que têm provocado mortes diárias que, lamentavelmente, nunca tiveram tanta repercussão na imprensa como a do comandante da ocupação, o qual, diga-se de passagem, está muito longe de ser o herói abnegado e vítima de um infortúnio que a maioria da imprensa nos quer fazer acreditar.

Para nada ele merece as homenagens ou a solidariedade de qualquer brasileiro. Se não bastasse seu vergonhoso papel no Haiti, é importante lembrar que Bacellar também teve suas mãos sujas de sangue na defesa da ditadura.

Em 1974, ele foi um dos escolhidos para participar da fase mais sangrenta do combate à Guerrilha do Araguaia, quando as tropas militares promoveram uma verdadeira caçada e o extermínio de 35 militantes do PCdoB (hoje integrante do mesmo governo a quem Bacellar prestava seus nefastos serviços), que já não tinham a menor condição de resistência.

O Iraque de Lula
A morte do general agravou ainda mais a situação de Lula em relação à ocupação. Se até há pouco, havia quase uma unanimidade na imprensa burguesa e até na opinião pública sobre a intervenção, hoje, a situação começa a mudar.

Na imprensa, o tom da cobertura após a morte repetiu frases como as publicadas na revista Época, de 16 de janeiro: Lula envolveu o país num “lamaçal diplomático” e “cavou no Haiti seu Iraque particular”.

Referências que, de forma alguma, são exageradas. Justificada inicialmente como uma ação humanitária, destinada a por ordem no país, a Minustah – composta por cerca de 8 mil capacetes azuis, dos quais 1.200 são brasileiros – tem sido marcada por uma sucessão incontável de arbitrariedades, que têm despertado, cada vez com mais força, a justa resistência do povo haitiano.

No que se refere aos abusos, no final do ano passado, o Opinião Socialista já havia noticiado um relatório elaborado por uma série de ONG´s norte-americanas – e enviado para Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) – denunciando a existência, no Haiti, de “um modelo sistemático de assassinatos extra-judiciais e massacres em Porto Príncipe, perpetrados pela Polícia Nacional Haitiana e pelas forças da Minustah sob o comando brasileiro”.

No relatório, as entidades pediam a condenação do Brasil e dos EUA (que financiam a operação) pela morte de 63 pessoas e o desaparecimento de outras catorze (todas civis).

Na época, atuando com a mesma hipocrisia que caracteriza todas as ações do governo Lula, o falecido comandante da ocupação, além de caracterizar as mortes de civis como “danos colaterais”, insistiu que nenhum brasileiro esteve diretamente envolvido em qualquer morte no Haiti.

O deplorável argumento em favor desta “tese” era que brasileiros “apenas” comandavam as tropas de outros países que participam da ocupação e a polícia local, estas sim responsáveis pelos tiros.

Apesar das tentativas de eximir o Brasil da responsabilidade pelas mortes, o documento elaborado pelas entidades de Direitos Humanos não deixa dúvidas sobre isso: “Aqueles mortos pelas forças da Polícia Nacional Haitiana e pela Minustah incluem uma longa lista de homens, mulheres e crianças desarmados. Nenhum esforço foi feito para reduzir as mortes de civis e transeuntes. Em muitos casos, essas vítimas não são ‘danos colateral’ das operações, acidentalmente surpreendidas em fogo cruzado, mas intencionalmente visadas e mortas pela polícia e/ou forças da Minustah”.

Apesar de toda violência, a ocupação comandada pelo Brasil enfrenta sérios problemas, não tendo conseguido sequer assegurar condições mínimas para realizar eleições no país, que foram adiadas quatro vezes consecutivas, apenas nos últimos dois meses.

Se não bastasse o crime em si que a ocupação significa, cabe lembrar que o governo brasileiro, que alega não ter verba para qualquer programa social, gastou, entre junho de 2004 e dezembro de 2005, cerca de R$ 340 milhões com a ocupação. Enquanto isso, a muito alardeada “ajuda humanitária” de US$ 1 bilhão prometida pela comunidade internacional, não se concretizou em sequer um centavo.

Enquanto isso, o Haiti não só continua sendo obrigado a saudar sua dívida externa (no valor de US$ 2 bilhões), como também tem sido alvo do saque ganancioso de multinacionais, que têm se implantado no país para explorar a baratíssima mão de obra local.

Sangue por status político
O papel do exército brasileiro é exatamente o de defender os interesses desses senhores.
Além de deixar Bush com as mãos mais livres para investir sobre o Oriente Médio, ao se oferecer para cumprir o papel de “senhor da guerra” no Haiti, Lula criou uma paródia deplorável para as práticas de seu amigo Bush. Se no Iraque, a história pode ser resumida em derramar “sangue por petróleo”, no Caribe, o sangue está jorrando em troca de prestígio político.

Lula enviou tropas ao Haiti porque sonhava em conquistar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, fato que seria vendido como demonstração cabal do “sucesso” de sua política externa e reconhecimento internacional da liderança brasileira no cenário internacional.

Foi essa mesma “nobre” intenção que fez com que, mesmo após a morte do general, o governo brasileiro se desdobrasse em esforços para reafirmar sua decisão de manter o comando da ocupação.

Uso da força deve aumentar. E a crise também
A possibilidade de que a violência aumente no Haiti não está descartada em hipótese alguma. Apesar de criar uma impressão – equivocadíssima, acreditamos – de que o general brasileiro se opunha de alguma forma ao uso da violência, uma matéria publicada no jornal Haiti Progress logo após a morte traz um forte indício sobre isso.

Segundo o jornal, na noite anterior ao suposto suicídio, Bacellar participou de uma reunião com representantes da Câmara do Comércio e Indústria do Haiti (CCIH), que teriam exigido uma postura mais forte (leia-se, mais violenta) por parte das forças de ocupação.

Dois dias depois da descoberta do corpo, a mesma CCIH encabeçou uma “greve patronal” que paralisou as atividades comerciais e o transporte da capital haitiana, sob a justificativa da necessidade de restabelecer a ordem.

Além disso, o chefe diplomático da Minustah também tem se pronunciado com freqüência sobre a necessidade de “atitudes mais contundentes” contra as “gangues”, ou seja, os miseráveis que se amontoam nas miseráveis favelas haitianas.

As ambições da ONU, contudo, esbarram não só na resistência haitiana como também na evidente desmoralização das tropas de ocupação, em relação à qual o provável suicídio de Bacellar é, no mínimo, um agravante.

Relatos colhidos junto a soldados brasileiros e publicados na revista Época, dão conta de problemas de todos os tipos. A insatisfação é generalizada e crises de choro são constantes. E, se foi suicídio, o caso de Bacellar não foi o primeiro.
No final do ano passado, três meses depois de retorna do Haiti, declarando ter visto “muitas coisas ruins” e “morte de todos os jeitos”, o soldado Ildefonso Henriques, de Caçapava (SP), se matou, fato que o Exército tratou como uma conseqüência exclusiva do uso de drogas.

Haiti para os haitianos
Problema adicional para as tropas de ocupação é que a situação econômica do Haiti tem degenerado em ritmo acelerado. Hoje, por exemplo, suspeita-se que nem mesmo uma reedição do patético jogo de futebol realizado pela seleção brasileira no início da ocupação possa ser utilizada para conquistar a simpatia do público.

À miséria generalizada, a única resposta possível é a resistência. No momento, ela tem surgido de forma desesperada e desorganizada. O maior temor das tropas lideradas pelo Brasil é que isso mude. Uma possibilidade cada vez mais real. E a única capaz de devolver o Haiti para os haitianos, criando a possibilidade para que eles reconstruam seu país.

Os trágicos números do Haiti

• 8,1 milhões de habitantes.
• 80% vivem abaixo da linha de pobreza.
• Quase 75% das casas não têm água encanada ou esgoto.
• Não há coleta de lixo.
• 80% da população está desempregada.
• 75% das crianças nunca foram vacinadas.
• O analfabetismo atinge 50% da população.
• A expectativa de vida é de 52 anos (a média na América Latina é de 69 anos).
• A Aids atinge 5,6% dos adultos (280 mil infectados e 24 mil mortes em 2003).

* Com a colaboração de Larissa Morais.

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