A direita não morreu

Sem um programa diferente do atual governo, a velha direita quer retomar o controle do paísNo dia 5 de julho terminou o prazo para o registro das candidaturas à Presidência. Agora é oficial, serão nove candidatos disputando o Planalto. Uma rápida análise dos programas de governo mostra, porém, que as verdadeiras alternativas não são tão numerosas assim. As duas candidaturas majoritárias, Dilma Rousseff e José Serra, apresentam essencialmente a mesma política neoliberal, apenas com algumas nuances.
Uma pequena amostra disso é o programa de governo apresentado pelo PSDB ao TSE. Na verdade, os tucanos nem sequer apresentaram um programa, mas apenas a transcrição de dois discursos realizados por Serra durante a pré-campanha. Isso porque a direita vai para as eleições sem um programa de governo próprio, já que o PT e o governo Lula se apropriaram do discurso e da política econômica de FHC.

Isso não vai impedir, no entanto, que a direita tradicional, representada aqui pelo PSDB e o DEM, parta ferozmente para a disputa eleitoral. Ela não vê a hora de recolocar as próprias mãos no Estado, retomando diretamente o controle sobre o país.

A volta do PSDB
A campanha de Dilma vai repetir a estratégia adotada em 2006 e apostar no temor da “volta do PSDB” ao poder. Vai lembrar das privatizações de FHC e dos anos de neoliberalismo, afirmando que tudo isso se aprofundará caso Serra seja eleito. E ela estará coberta de razão ao afirmar isso. Não dirá, porém, que o tucano está se postulando como o “melhor continuador do governo Lula”. E também com razão.
Serra parte do princípio de que ninguém melhor que o PSDB para continuar impondo uma política neoliberal que ele mesmo ajudou a implantar no Brasil nos anos 1990. O governo FHC radicalizou o neoliberalismo dos governos Collor e Itamar que, entre outras coisas, abriu o país ao mercado internacional de forma indiscriminada.

Em nome da estabilidade econômica e do combate à inflação, Fernando Henrique criou o Plano Real que, longe de ser apenas o nome de uma nova moeda, era um programa político e econômico.

Programa este que incluía a valorização do câmbio, que inundou o país de importados, acabando com os empregos e boa parte da indústria nacional. A fim de equilibrar as contas externas, FHC avançou com o programa de desestatização, vendendo a preço de banana grandes empresas como a Vale e a Embraer para pagar a dívida externa.
Foi uma política responsável por dobrar o índice de desemprego e ampliar a pobreza e a miséria no país. Produziu ainda um enorme rechaço entre a população, o que favoreceu a eleição de Lula em 2002, que expressou um voto principalmente antitucano e antineoliberal.

Os tucanos e seus aliados do PFL (hoje DEM) foram varridos do governo federal, mas resistiram em estados importantes, como São Paulo e Rio de Janeiro. No estado de maior orçamento do país, sucessivos governos tucanos como os de Mário Covas, Geraldo Alckmin e Serra aplicam há pelo menos 16 anos uma política de privatização e sucateamento dos serviços públicos. As estradas paulistas são infestadas por postos de pedágio, em média um pedágio a cada 47 km.

Dificuldades
Além de se colocar como legítimo sucessor de Lula, Serra tenta cativar o tradicional eleitorado de direita. Por isso, vem adotando um discurso conservador – recentemente, atacou o MST e disse que a descriminalização do aborto provocaria um “genocídio”.

Sua candidatura, porém, atravessa alguns momentos de crise, como a atrapalhada escolha do vice. Depois de meses tentando convencer o ex-governador de Minas Aécio Neves a aceitar o posto, o PSDB deu a vaga ao senador tucano Alvaro Dias. O DEM, que sofreu um forte baque com o mensalão no Distrito Federal e a prisão de José Roberto Arruda, ameaçou pular fora da aliança. A solução de última hora foi dar o cargo ao desconhecido deputado federal Indio da Costa (DEM-RJ).

Indio é apadrinhado do ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM) e só ficou relativamente conhecido ao relatar o projeto de lei do Ficha Limpa. Durante uma entrevista, ele falou a seguinte pérola sobre esse projeto: “imagina quem roubou, assaltou, invadiu terra querer se eleger a um cargo público”. Quando foi secretário municipal do Rio, Indio foi investigado por favorecer uma empresa na compra de lanche para escolas públicas.

Apesar disso, a candidatura Serra tem a seu lado setores de peso da burguesia, assim como boa parte da imprensa paulista e nacional. É um inimigo que não pode ser subestimado.

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