Zezé: `Estava faltando uma homenagem a Moreno, que fosse realmente unitária`

Durante o ‘Ato 20 anos sem Moreno’, o Portal do PSTU entrevistou a companheira Zezé, integrante do grupo que fundou a corrente morenista no Brasil nos anos 1970. Ela aborda diversos aspectos da contribuição de Moreno para a fundação do Ponto de Partida (Chile), Liga Operária (Brasil) e, posteriormente a Convergência Socialista. Zezé avalia que o ato do dia 3 não serviu para se “exercer a verdade em abstrato”, mas sim “para lutar pela reunificação de todos aqueles que, um dia, se uniram em torno de Moreno”.

Portal do PSTU – Gostaria que você falasse um pouco sobre sua própria experiência com Moreno e o processo de construção do núcleo fundador do morenismo aqui no Brasil.
Zezé – Eu conheci o Moreno em 1972, ainda no Chile, quando nós, alguns brasileiros, nos aproximamos da Internacional, do trotskismo. Era o 9º Congresso da Internacional e havia uma discussão entre aqueles que defendiam a linha da guerrilha e os que defendiam a construção de um partido internacional com influência de massas. Nós que vínhamos da guerrilha e tínhamos feito uma experiência desastrosa com a guerrilha brasileira, nos identificamos com os que defendiam a construção de partidos com influência de massas e fomos apresentados, através dos norte-americanos que passaram pelo Chile, pra visitar o Mário Pedrosa, e fomos apresentados ao Moreno. E ele começou uma discussão conosco de que, se nós nos aproximávamos teoricamente da proposta de que a saída para a revolução e o socialismo era a construção de partidos revolucionários com influência de massas, teríamos que nos dedicar a esta tarefa. A partir daí desenvolvemos uma relação importante com ele. O mais importante, eu acho, foi que a primeira coisa que ele nos colocou era que tínhamos que fazer cursos teóricos.

Ele nos levou para uma escola de quadros, de quase 20 dias, na Argentina, que começava com Feuerbach, Hegel, as leis da dialética, a lei do desenvolvimento desigual e combinado, revolução permanente, para concluir com estudos sobre o partido – teoria leninista de organização e a concepção de partido.

Para aquele pequeno grupo fundacional, foram várias lições que o “Velho” deixou. Mas para a formação do partido, na sua opinião quais foram as lições mais importantes para a formação da Convergência Socialista?
Zezé – A primeira, que eu acho que foi muito importante foi a concepção de que deveríamos militar onde a gente estava e que a construção do partido era mais do que a construção de um partido nacional. Tanto que havia uma polêmica no Chile, entre a militância, entre os exilados: um setor defendia militar apenas para o seu próprio país e outro defendia entrar para o Partido Socialista, para o PC, fazer qualquer coisa para a revolução. E ele dizia, vocês têm que construir o partido trotskista, enquanto estiverem no Chile, no Chile; e depois que saírem do Chile onde for necessário.

A segunda era a vinculação com o movimento de massas, eliminando qualquer ranço ou resquício que nós ainda tivéssemos da concepção aparelhista, guerrilheira, de substituição das massas por ações exemplares, que era o que mais a experiência guerrilheira tinha nos passado. Essa vinculação com o movimento de massas era necessária onde quer que o movimento estivesse acontecendo. Não através de esquemas. Ele insistia muito nisto. Ele dizia: “A classe revolucionária é a classe operária, mas há momentos em que em vez de ir à classe operária, você tem que ir ao movimento estudantil, porque o importante é que, a partir da inserção no movimento de massas você pode estabelecer o diálogo para poder se aproximar da classe operária”. Esta lição nos ajudou muito, porque quando voltamos ao Brasil, apesar de que nosso objetivo era nos construirmos na classe operária, nos metemos todos no movimento estudantil, onde a luta contra a ditadura estava se dando de forma mais forte e onde era possível construir um acúmulo inicial de quadros. Em um ano de construção do grupo nós conquistamos o 100º militante, que pra nós, naquela época da ditadura, era muito difícil. Captávamos um a um, discutindo quatro, cinco documentos antes de que eles entrassem, com um monte de teoria. Depois de um ano, pudemos juntar um pouquinho destes cem para começar um trabalho de inserção nas fábricas. Se a gente não tivesse ido para o movimento estudantil, muito possivelmente nós levaríamos, desde 1974 – quando nós chegamos aqui – até o grande ascenso da classe operária, já depois de 1978/79, sem conseguir chegar nem sei se em 20 militantes. Talvez muito menos. Mas, seguindo a orientação de Moreno, chegamos em 100 militantes em um ano, um ano e meio. Teve até festa, comemoração. Este centésimo militante foi um militante que depois entrou na Mercedes Benz, pra fazer o trabalho operário. Foi o Celso Brambilla, que foi militante do partido durante muitos anos, depois preso, muito torturado, inclusive. Ele deixou a universidade de São Carlos para trabalhar como operário na Mercedes. E lá, distribuindo panfletos sobre o 1º de Maio, ele foi preso. O que provocou uma mobilização. Nós levamos operários para a USP o que permitiu uma forte mobilização estudantil que avançou muito a luta contra a ditadura.

Você, provavelmente, foi uma das brasileiras que mais teve contato pessoal com Moreno. Do ponto de vista pessoal e não só militante, qual é a lembrança que você tem dele?
Zezé – (Muito emocionada). Olha, eu acho que esta é a parte mais…Na saída do Chile, depois do golpe, eu fui para a Argentina, onde eu fiquei militando mais ou menos um ano, antes de voltar para o Brasil. Depois na direção da LIT, na construção do partido. Como o Ernesto Gonzáles falou agora há pouco, ele não era só quem nos orientava e nos ajudava. Ele realmente acreditava naquela frase “nada que é humano me é estranho”. Ele era amigo e companheiro. Ele nos ajudou em todos os momentos de crise e nunca separou as crises políticas das pessoais. Ele dizia: “O partido é feito de seres humanos e os seres humanos têm suas fragilidades”. E sempre teve o objetivo de manter a unidade, a solidariedade. Pra ele era inadmissível que a gente não tratasse um companheiro como companheiro. Companheiros eram irmãos e eram companheiros. E, também, essa ligação dele com a classe, com o movimento, com as coisas que estavam acontecendo, com a dinâmica. Ele sempre começava o curso de “Lógica” dizendo: “Tem a estrutura e tem a dinâmica; vamos começar pela dinâmica”. Para ele, a “dinâmica” não era o movimento pelo movimento; mas que a gente visse tudo em movimento, inclusive a gente mesmo. A coisa que ele mais nos ensinou foi ver o movimento, nos ver também como parte do movimento e a nós próprios em movimento. Saber que a gente errava mais aprendia, que a gente crescia. Não sei…essa relação humana que ele estabelecia com qualquer militante.

Moreno não fazia distinção entre dirigentes sindicais famosos, o dirigente do partido ou o último dirigente de base. Ele sentava e escutava. O último companheiro de base que chegasse e falasse, eu quero falar com Moreno, ele recebia e escutava. Para descobrir, pra ajudar e para resolver os problemas, para tentar localizar melhor o companheiro. Era muito comum companheiros de base procurá-lo para discutir como se localizar melhor numa célula do partido. Ele era capaz de sair de seu estudo teórico para ajudar a localizar melhor um companheiro de base. Ele dizia: “Se um companheiro de base não confiar na direção para vir discutir comigo a localização de uma célula, a gente não vai construir o partido; esta confiança é fundamental, sem ela é impossível compreender a classe operária, porque o operário às vezes é bruto, às vezes não sabe como se expressar; tem idéias atrasadas sobre muitas coisas; tem preconceitos morais que a burguesia enfiou dentro dele, mas a gente confia nele, confia que ele pode chegar à consciência revolucionária e se a gente confia; e se a gente não confia no companheiro de base, a gente não vai poder confiar na base, que às vezes está bem atrás do companheiro de base, que entrou no partido, e o operário, às vezes, nem isto”. Esta confiança foi o que mais me impactou. Me ajudou a construir uma maneira de encarar a militância e as pessoas e a construção do partido.

Este ato reuniu militantes de várias gerações, várias correntes…
Zezé – Algo que só Moreno poderia fazer. E eu acho que foi muito importante. Estava faltando uma homenagem a Moreno, que fosse uma homenagem realmente unitária. Moreno disse no livro dele, “Conversando com Moreno”: “Só tenho um arrependimento na vida: uma vez eu exerci a verdade em abstrato, em vez de lutar mais pela unidade do partido”. Foi quando ele rompeu com os guerrilheiros. E olha que ele tinha razão em romper com os guerrilheiros. Esse ato tem que retomar essa frase do Moreno. Não é um ato para ninguém exercer a verdade em abstrato, mas, sim, um ato para lutar pela reunificação de todos aqueles que, um dia, se uniram em torno de Moreno. Sabendo que, hoje, algumas diferenças diminuíram, outras aumentaram e outras, que nós nem sabíamos que existiam, surgiram. O Moreno é o único que poderia iniciar este tipo de movimento. Não sei nem se é um movimento, mas que talvez seja o início de um tipo de movimento. Valeu a pena.