Vlado: uma história para não se esquecer

Vladimir Herzog, com seu violão
Divulgação

Documentário e livros lembram os 30 anos da morte de Vladimir Herzog nos porões da ditadura, fazendo importantes e comoventes resgates de uma época marcada por prisões, torturas e assassinatosNa manhã de sábado, 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, saiu de casa para se apresentar no nefasto e terrivelmente poderoso Doi-Codi, órgão de repressão do II Exército, que mantinha em sua sede, em São Paulo, um dos mais sanguinários centros de tortura do país. No final da tarde, parentes e amigos foram informados que Herzog havia se enforcado em uma cela, após o interrogatório.
A versão dos militares, forjada com absurdas fotos, nunca se sustentou. O enterro foi marcado por um aberto desafio à ditadura (a comunidade judaica se recusou a enterrar o jornalista na ala destinada aos suicidas) e, no dia 31, o assassinato detonou a primeira manifestação pública massiva contra os militares, quando mais de 8 mil pessoas se reuniram em um ato ecumênico na Catedral da Sé.

Casado com Clarice (que Aldir Blanc e João Bosco homenagearam na letra de O bêbado e o equilibrista, com o verso “choram Marias e Clarices no solo do Brasil….”), pai de dois filhos, diretor de telejornalismo da TV Cultura, Herzog era filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), onde sempre manteve uma militância “discreta” e fundamentalmente relacionada ao apoio à organização e aos militantes políticos perseguidos.

Seu brutal assassinato, contudo, foi determinante para estimular a luta contra a ditadura nos anos seguintes e na qual teve um importante papel. Em 1978, por exemplo, Clarice Herzog, em uma sentença inédita e histórica, conseguiu fazer com que o Estado fosse responsabilizado pelo assassinato de Vlado.

É um pouco dessa história que está em Vlado: trinta anos depois, do cineasta João Batista de Andrade, que será lançado em 30 de setembro. Isso e algo mais: no filme também estão “outros Vlados”: o sujeito apaixonado por cinema e artes, o homem que desde muito cedo teve que se confrontar com repressão (judeu nascido na Iugoslávia, teve que fugir do nazismo), o amigo e o jornalista admirado.

Um marco na luta democrática
Em uma conversa após a exibição para a imprensa do documentário, João Batista afirmou que sua principal motivação para a realização do filme foi resgatar a figura e a história de Vlado como marcos fundamentais da luta pela democracia no país.

Um resgate cuja importância o próprio diretor destaca nas primeiras e curiosas cenas. Instalado na mesma Praça da Sé onde milhares de pessoas colocaram sua vida em risco para expressar o repúdio aos ditadores, o diretor pergunta às pessoas que passam sobre quem foi Herzog. São poucos os que sabem dizer algo.

Foi com essa preocupação em mente que João Batista entrevistou vários dos que conviveram com Vlado: Clarice e um de seus filhos, Ivo; D. Paulo Evaristo Arns e o rabino Henry Sobel, que estiveram entre os organizadores do ato há 30 anos; vários jornalistas, muitos dos quais também presos e torturados, como Fernando Morais, Paulo Markun, Sérgio Gomes, Duque Estrada e Mino Carta; e militantes, como Clara Scharf e Diléia Frate.

O resultado é, ao mesmo tempo, um panorama político da repressão e um retrato pessoal (como o diretor insiste), confessadamente didático (talvez até demais), de alguém muito próximo de Vlado.

Depoimentos emocionantes
Amigo de Herzog e da maioria dos entrevistados, João Batista fez um filme sem apelar à pieguice que tem marcado muito da produção nacional recente nem aos truques fáceis (por exemplo, uma trilha sonora lacrimosa) e que consegue, realmente, arrancar emoção do público.

Para tal, os únicos “recursos” foram o uso (um tanto excessivo, diga-se de passagem) do “super-close” – um tipo de filmagem que faz com que os rostos dos entrevistados ocupem quase que completamente o espaço da tela – e uma nervosa câmera na mão, que provoca uma constante sensação de “realidade” e “presença” no espectador, como se estivéssemos frente a frente com o entrevistado.
Dessa forma, o público é convidado a mirar diretamente nos olhos dos amigos, parentes e companheiros de Herzog, enquanto eles relatam histórias de esperança e sonhos destroçados, sofrimentos, perdas e, também, do desejo de justiça e liberdade que compartilharam com Vlado.

Desnecessário dizer que essa “proximidade” com os entrevistados se transforma em uma experiência dolorosa, angustiante e revoltante quando mergulhamos em seus olhos marejados enquanto recordam as muitas torturas e os momentos finais de Herzog.

Um relato digno de uma história necessária
`OAlém de seu desejo em contar para as novas gerações a história de Herzog, João Batista decidiu fazer esse filme também como um acerto de contas pessoal. Na época, paralisado pelo horror dos fatos, ele sequer registrou as cenas do ato na Praça da Sé: “Eu, que filmava tudo, não filmei nada naquele momento”.

O que ele nos apresenta hoje é uma homenagem pra lá de digna. E, acima de tudo, necessária. Não só para que jamais nos esqueçamos dos horrores da ditadura. Mas também para que todos, principalmente aqueles que, hoje, estão pisoteando a História, recordem que foram muitos os que “partiram num rabo de foguete” enquanto lutavam para democratizar o país.

Alguns filmes fundamentais de João Batista são Doramundo (lançado em 1978, cuja primeira versão do roteiro foi escrita por Vlado, em 1974), O homem que virou suco (1980) e O país dos tenentes (1987), além de vários (e excelentes) documentários.
João Batista, que tem parte de sua história vinculada ao movimento sindical do ABC, hoje é secretário da Cultura do governo tucano de José Serra, em São Paulo. Qualquer semelhança com o PT e seus membros não é coincidência…

Da sua fase “militante”, os filmes mais importantes são Liberdade de Imprensa (1966), Migrantes (1973) e os excepcionais Greve (1979) e Trabalhadores; Presente! (1979), sobre as greves no ABC que deram o golpe de misericórdia no regime que matou Herzog.

Livros lembram Herzog
A Editora Globo está relançando Dossiê Herzog: paixão, tortura e morte no Brasil, de 1979. Nele, o jornalista Fernando Pacheco Jordão mostra como Vlado foi vítima da disputa entre duas facções das Forças Armadas: a do presidente-general Ernesto Geisel, que queria uma “abertura lenta, gradual e segura” e a que gostaria de aprofundar a repressão.

Já Meu querido Vlado — de Paulo Markun, que trabalhava com Herzog na TV Cultura e já havia lançado Vlado, em 1985 —, além de se debruçar sobre os fatos nebulosos, chama a atenção para a postura do atual governo federal, que insiste em manter importantes documentos em segredo.

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